Cultura

A vida é bela

Fernanda Montenegro e Walter Salles desfrutam a felicidade, depois de Central do Brasil ser indicado aos Oscar de melhor atriz e melhor filme em língua estrangeira

O telefone da suíte 1211, do Hotel Regency, em Nova York, não parou de tocar durante toda a terça-feira 9. Quem respondia do outro lado da linha era Fernanda Montenegro, 69 anos, que desde a manhã daquele dia cravou um marco na história do Oscar. Indicada ao prêmio de melhor atriz, a ser entregue no dia 21 de março, Fernanda se tornou a primeira latino-americana a concorrer à cobiçada categoria, aumentando o prestígio de Central do Brasil, de Walter Salles, que também disputa a estatueta de melhor filme em língua estrangeira e até agora já acumula 28 prêmios. Ao ser selecionada, Fernanda passou a integrar o seleto grupo das nove atrizes estrangeiras que disputaram o Oscar representando produções de suas nacionalidades. Da lista que inclui nomes como os da francesa Catherine Deneuve e as suecas Liv Ullmann e Ingrid Bergman, apenas a italiana Sophia Loren saiu premiada, em 1962, com o filme Duas mulheres, de Vittorio de Sica. Cortejada como celebridade pela imprensa americana, Fernanda Montenegro passou um dia de cão. Falou quase dez horas seguidas com jornalistas, entre eles David Letterman, apresentador de um dos mais populares talk shows dos Estados Unidos. "Dei entrevistas o dia todo, foi o meu recorde", contou a atriz a ISTOÉ, por telefone, misturando emoção e cansaço. "Eles não sabem de onde vim nem para onde vou. Caí nesta sopa."

Justiça seja feita, entre as concorrentes da atriz brasileira somente uma tem currículo à altura. É Meryl Streep, indicada por sua atuação em Um amor verdadeiro, de Carl Franklin. As outras três – Gwyneth Paltrow, Cate Blanchett e Emily Watson – são jovens intérpretes de curta trajetória que, segundo disse Walter Salles a ISTOÉ, estão tendo o privilégio de disputar o mesmo prêmio com Fernanda. "O mundo, agora, passa a dividir este prazer que nós temos, que é ter acesso ao trabalho dela." Apesar do entusiasmo, o cineasta continua a não alimentar expectativas. Mesmo estando já posicionado na reta final da premiação, que este ano tem como pontas de lança a comédia Shakespeare apaixonado, de John Madden, com 13 indicações, e O resgate do soldado Ryan, de Steven Spielberg, com 11. "Mais uma vez não somos favoritos. Central do Brasil foi muito bem recebido pela crítica e os prêmios têm vindo. Como prever o que vai acontecer?", disse Salles.

Ele obviamente se refere ao bem cotado A vida é bela, de Roberto Benigni, que recebeu mais seis indicações, além da esperada categoria de melhor filme em língua estrangeira, e é o concorrente mais ferrenho do filme brasileiro. De qualquer modo, Central do Brasil tem agradado aos americanos. Aproveitando sua passagem por Nova York, Fernanda foi conferir a reação do público numa sessão lotada no Lincoln Center. "As pessoas saem emocionadas e algumas me reconhecem, vêm cumprimentar", conta ela. O assédio em torno da atriz não se limita a cumprimentos. Bastou ter seu nome incluído entre as cinco finalistas para virar alvo de estilistas interessados, e equivocados, em vesti-la para a noite de gala. A recepção do hotel onde estava hospedada em Nova York ficou lotada de books de estilistas, todos oferecendo a ela aquelas tradicionais roupas espalhafatosas, cheias de pedrarias. Realmente eles não conhecem a elegância de Fernanda, que também recebeu roteiros para avaliação, dois deles já descartados. "Não eram a minha. A esta altura da minha vida não tenho por que construir uma carreira internacional."

Diante de tanta agitação, a atriz carioca não consegue contabilizar as horas de vôo nem em quantos hotéis se hospedou desde que Central do Brasil foi premiado no Festival Internacional de Cinema de Berlim, em fevereiro de 1998. Sem perder a ironia, quando uma pessoa próxima comentava sobre ela ser o azarão do Oscar, segredou: "Agora veja só. Aos 70 anos virei zebra." Saiba a seguir quem são as concorrentes de Fernanda Montenegro.

 

Cate Blanchett Já premiada com o Globo de Ouro, a atriz australiana de 30 anos conquistou a crítica com a encarnação detalhista da rainha Elizabeth I da Inglaterra, em Elizabeth, seu quarto trabalho. Dirigido pelo indiano Shekkar Kapur, conhecido apenas pelo exótico A rainha bandida, Elizabeth concorre a sete Oscar, entre eles o de melhor filme. Definido como um "thriller de conspiração", o enredo mostra a ascensão ao trono, em 1558, de Elizabeth Tudor, filha de Henrique VIII e Anna Bolena. Em alta, Cate mostrará suas outras habilidades em pelo menos quatro títulos programados para este ano. A estréia no Brasil está prometida para 5 de março.

 

Gwyneth Paltrow Quando despontou em filmes como Seven – os sete pecados capitais e Emma, a americana de 25 anos era conhecida apenas como a namorada de Brad Pitt. Separada recentemente de Ben Affleck, a loira, agora, saiu da sombra. Em Shakespeare apaixonado – que reúne o maior número de indicações ao Oscar –, Gwyneth interpreta Viola De Lesseps, suposta paixão do jovem William Shakespeare. Segundo a comédia do inglês John Madden, o dramaturgo passava por uma crise artística quando a conheceu num ensaio da peça Romeo and Ethel, the pirate’s daughter, idéia inicial de Romeu e Julieta. Disfarçada de homem, ela havia se candidatado ao principal papel masculino. Como estava prometida a um nobre da corte, passa a viver um amor clandestino com Shakespeare, cujos lances acabam servindo de inspiração para a peça que ele escrevia. A imprensa americana saudou a atuação de Gwyneth como a melhor de sua carreira e a garota pretende manter o padrão no futuro. A estréia no Brasil está prometida para 12 de março.

 

Meryl Streep Esta é a 11ª indicação que a atriz americana de 49 anos recebe em 22 anos de carreira. Já foi premiada como melhor atriz coadjuvante em Kramer vs Kramer (1979) e como melhor atriz em A escolha de Sofia (1982). Agora concorre com Um amor verdadeiro no papel de Kate Gulden, uma mulher de meia-idade que sofre de câncer. Casada com o brilhante professor de Literatura George Gulden (William Hurt), Kate é uma dona de casa devotada e exemplar. Quando adoece, obriga a filha, uma jornalista bem-sucedida, a abandonar o trabalho e o namorado para viver em sua companhia. O que se passa a seguir é um drama agridoce, recheado de passagens apropriadas aos conhecidos solos de La Streep. De um modo geral, a crítica foi bastante generosa em relação à performance da atriz, elogiada pela naturalidade e intuição com que construiu sua personagem. Justamente ela, que sempre foi criticada pela frieza técnica. A estréia no Brasil está prometida para 30 de abril.

 

Emily Watson Uma das grandes revelações do cinema, a londrina Emily, 32 anos, já concorreu ao Oscar de melhor atriz em 1996 com seu trabalho de estréia, Ondas do destino, do dinamarquês Lars von Trier. Em Hillary e Jackie, de Anand Tucker, filme pelo qual foi selecionada ao Oscar, Emily encarna Jacqueline du Pré (1945-1987), violoncelista virtuose britânica, que morreu de esclerose múltipla. Nos círculos da música erudita, a biografia em filme da instrumentista não foi bem recebida, especialmente por tratar do conflituado relacionamento entre ela e a irmã Hillary, com quem teria protagonizado um triângulo amoroso. A estréia no Brasil está sem previsão.