Economia & Negócios

O aperto de cada um

Um exemplo para o governo: as famílias brasileiras já cortam despesas e ajustam seus orçamentos

A mania do brasileiro de deixar tudo para a última hora pode se transformar nos próximos meses em um tremendo prejuízo para seu bolso. As mudanças drásticas adotadas na economia pelo governo, que numa canetada só liberou o dólar, encareceu produtos importados e reviveu o dragão da inflação, vão diminuir o poder aquisitivo dos assalariados em pelo menos 10% – isso na estimativa mais otimista. Afinal, não haverá reajuste nos salários que compense o aumento do custo de vida. "A população terá de conviver com os novos tempos e cortar gastos do orçamento doméstico para não entrar no vermelho. O melhor é que faça isso antes de ser surpreendida pela maior alta dos preços, que ocorrerá entre fevereiro e março", alerta Eduardo Battiston, consultor da Forex, empresa especializada em finanças pessoais. O aviso faz sentido. De cada quatro clientes da companhia, três querem se livrar de dívidas. A tendência é que o número de pessoas endividadas cresça ainda mais e os brasileiros mais atentos, de diaristas a executivos com renda superior a R$ 10 mil, já começaram a fazer o seu ajuste doméstico para os tempos de chumbo que vêm por aí.

Como sempre, a corda arrebenta do lado mais fraco. A faxineira Maria de Lourdes Simão foi surpreendida em janeiro ao saber que uma de suas três clientes, que também sofreu redução no orçamento familiar, iria diminuir de dois para um o número de dias de limpeza por semana em sua casa. "Com isso, minha renda mensal caiu de R$ 720 para R$ 620, enquanto os preços nos supermercados estão em alta", desabafa Maria. O frango, que nos quatro primeiros anos do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso teve seu preço reduzido e foi um dos trunfos do Plano Real, ficou mais caro em janeiro e só agora começa a recuar ao patamar de R$ 1,32 devido ao boicote dos consumidores. "Não comprei mais frango, diminuí o consumo de carne e passei a misturar mais ovos no arroz das crianças", conta a empregada. Mas o pior ainda está por vir para sua família. Seus filhos Romildo, Ronildo e Renata retornaram às aulas na semana passada na escola estadual próxima à favela do Radar, onde Maria mora em São Paulo, e vieram com três listas de material escolar. "Vou ter de me virar para comprar os cadernos e canetas." Viúva há oito anos, Maria não tem quem a ajude no orçamento e gasta metade da renda em supermercado. Diversão no fim de semana, nem pensar. "Fico em casa."

Os assalariados mais endinheirados também vão sofrer na pele as consequências da recessão que vem a galope. Desde o final do ano passado o publicitário Carlos Righi, cuja renda supera os R$ 10 mil, vinha apertando o cinto e eliminava despesas desnecessárias, com a ajuda da mulher, Clara, e a compreensão dos filhos gêmeos Caio e Felipe. Agora, com a perspectiva de aumento nas despesas básicas, a estratégia de eliminação de supérfluos está a todo vapor. "A gente pretendia passar as férias em março na Escandinávia, mas com a alta do dólar o plano foi decididamente adiado", reclama. Nas viagens de fim de semana para a praia, Righi evita as pousadas e se hospeda na casa de amigos, onde racha as despesas. Nos dias de batente, frequenta restaurantes mais baratos e nos finais de semana trocou os passeios gastronômicos por lanches em casa. "A Clara faz um sanduíche meio bamba, que parece ter sido atropelado, mas é muito bom", brinca. O casal levou um susto da última vez que foi ao teatro e jantou fora. Gastou R$ 60 pelos ingressos, R$ 10 pelo estacionamento e R$ 100 em um restaurante japonês. "Não dá mais. Agora vamos de pizza."

Nem mesmo a possibilidade de que em maio o governo aumente o salário mínimo entre 3% e 7% garantirá o poder aquisitivo do trabalhador, pois nenhum desses percentuais compensarão a alta do custo de vida, que pode atingir até 35%, conforme previsões mais pessimistas. Quem recebe por comissão é que está em situação mais complicada. Tenivaldo Almeida, orçamentista de reparos de uma concessionária, viu sua renda despencar 30% em janeiro por falta de encomendas. Ele ganha atualmente cerca de R$ 3 mil. "Tive de vender o Del Rey da minha mulher para economizar em gasolina e no IPVA e guardar dinheiro para o apartamento que vou comprar", explica. O casal tem dois filhos e se vira agora só com um Fiat Uno. Eliminou também o iogurte e os queijos das compras de supermercado. O fato é que o sacrifício dos brasileiros está só no começo. A equipe econômica garante que também fará sua parte, com uma redução a mais dos gastos públicos equivalente a pelo menos 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Promessa semelhante, no entanto, não foi cumprida em 1998. A grande diferença entre os cortes do orçamento doméstico e o de Brasília é que o do brasileiro comum é compulsório. Não há alternativa.

 Camelôs fogem do made in China

Enquanto os economistas calculam aonde o dólar vai parar, a economia subterrânea, aquela em que o camelô ganha o pão de cada dia, ajeita-se conforme a situação. Com o real valendo quase meio dólar, alguns sacoleiros que viviam no eixo comercial que liga a paraguaia Ciudad del Este a Rio e São Paulo começam a mudar de roteiro. Eles reclamam que a desvalorização inviabilizou os negócios. Antes do derretimento do real, vendiam guarda-chuvas chineses de US$ 1,50 por R$ 3 em bairros populares de São Paulo. Hoje, o mesmo produto não sai por menos de R$ 4 – um aumento de 33%.

Nos camelódromos, essa turma ainda lembra, saudosamente, do tempo em que se podia fazer a "farra" com R$ 1 mil no Paraguai numa época em que o dólar era cotado a R$ 0,83. Passada a estabilidade, eles resolveram abandonar seus fornecedores "globais" – chineses, coreanos e tailandeses – e nacionalizar seu abastecimento de mercadorias. Maria de Lourdes tinha uma banquinha na Lapa, em São Paulo, que vendia bugigangas eletrônicas e brinquedinhos movidos a pilha – todos importados. Depois da disparada do dólar em Ciudad del Este, ela passou a comprar bolsas de duas pequenas "fabriquetas" do interior de São Paulo.

Embora as viagens dos sacoleiros já tenham se reduzido, as empresas de ônibus registram um movimento normal devido às visitas dos turistas à região de Foz do Iguaçu. "Quando o Carnaval passar, vamos sentir a ressaca", diz Geraldo Santolin, gerente regional da Viação Pluma, a principal companhia que faz o trajeto. Enquanto o dólar não cai, o carioca Sebastião Ferreira da Silva aproveita a corrida dos pais em busca de material escolar para faturar. "Até março, vendo cadernos. Depois vou vender ovos de Páscoa", conta sua estratégia de sobrevivência. "E a partir daí?", pergunta o repórter: "Aí, espero que o dólar baixe porque senão o Paraguai vai falir e o Brasil vai voltar para a roça."
André Vieira

Na ponta do lápis
Dicas do consultor Eduardo Battiston, da Forex, de cortes que não comprometem a qualidade de vida

Lazer
– Alugar menos fitas de vídeo e não escolher locadoras caras

– Reduzir refeições fora de casa e idas ao cinema e ao teatro

Alimentos
– Deixar de levar crianças ao supermercado reduz até 10% as despesas

– Diminuir compra de enlatados e pratos pré-prontos

– Limitar as idas à padaria, onde sempre se gasta mais do que o previsto

– Substituir carnes como picanha por outras menos nobres

– Evitar a compra de frutas caras ou que estão fora da estação

Moradia
– Reduzir a periodicidade da faxineira

– Resolver por conta própria os pequenos consertos na casa

Educação
– Não pagar cursos extras da escola

– Diminuir número de excursões escolares

Saúde
– Listar os remédios e limitar as idas à farmácia para não comprar supérfluos