Medicina & Bem-estar

Perigo em dobro

Bebidas energéticas consumidas com álcool aumentam o pique, mas agem como bombas no organismo

Dançar a noite toda numa pista efervescente sem descansar um minuto sequer. Passar de bar em bar sem perder o pique. Não importa a idade, não há fôlego que resista sem um "aditivo" poderoso. Por isso, os já consagrados energéticos em latas, como o Flying Horse, Flash Power e Red Bull, estão sendo agora incrementados com bebidas alcoólicas, em especial uísque e vodca. Juntos, eles conseguem manter ligado até o mais zen dos mortais. O problema é que a recomendação – inclusive escrita nas embalagens dessas bebidas – é justamente não misturar com álcool. Isso porque a maioria das bebidas alcoólicas libera substâncias que agem como um potente estimulante no cérebro, responsável pela fase da euforia dos primeiros goles. Num momento seguinte, são liberadas outras substâncias que provocam um relaxamento no corpo, que é quando bate o sono. Como na composição básica dos energéticos o principal ingrediente é a cafeína – um estimulante presente também no café e na Coca-Cola –, a mistura causa um acúmulo de estimulante no cérebro. Esse aumento, além de deixar o consumidor mais aceso, acaba inibindo as fases de relaxamento e depressão, prolongando o período de embriaguez. "Ninguém cai derrubado. Fica-se mais ligado, com mais energia. Só que, sem perceber, cada vez mais bêbado. É a potencialização do álcool", resume Eliseu Labigalini Júnior, psiquiatra do Programa de Orientação e Assistência ao Dependente (Proade), da Universidade Federal de São Paulo.

Na verdade, a mistura em si não representaria um grande perigo para a saúde não fossem alguns detalhes: ninguém pára na primeira dose e, consequentemente, o consumo de álcool está aumentando bastante, em especial entre os jovens. Com o exagero, as chances de ocorrerem brigas aumentam. E, o que é pior, os acidentes com carros tendem a crescer, pois o consumidor se considera apto a pegar no volante. Sem contar que ainda há chances de acontecerem casos de convulsão em pessoas que, sem saber, tenham alguma pré-disposição. Há cerca de um mês Labigalini atendeu no Proade um rapaz vindo de uma rave – espécie de danceteria que funciona até a manhã do dia seguinte num ritmo alucinante – após ter abusado da mistura. "Ele teve uma convulsão em consequência do excesso de estimulante contido no álcool e nos energéticos", diz o médico. Segundo ele, em menor escala, o efeito desse coquetel é o mesmo de quando se mistura cocaína com uísque. Para constatar essa situação é só ver o que acontece nos bares. No Jamballaia, em São Paulo, o consumo de bebidas destiladas aumentou depois do estouro dos energéticos. Em média são vendidas 280 latas por noite, sendo que cada uma delas é suficiente para duas doses de bebida alcoólica. "Quando não temos o Flying Horse, as vendas dos destilados caem", afirma Rosana Aquino, proprietária do bar.

Mas a procura tem sido tão grande que alguns bares resolveram apostar em drinques especiais com os energéticos como ingredientes básicos. O bar Taturana, em São Paulo, é um exemplo. Os proprietários criaram, há alguns meses, o Baywatch, uma bebida que leva Martini seco, Curaçao Blue e Flying Horse. A cor é atraente e o gosto saboroso. A psicóloga paulista Rita Scarabel, 32 anos experimentou o tal drinque pela primeira vez ao lado do marido Luís e aprovou. "É gostoso. E o que é melhor, não me deu sono. E geralmente sou a primeira a querer ir embora", afirmou. "Podemos ficar mais tempo", comemorou Luís.

Para alguns especialistas, entretanto, essa onda funciona mais pelo lado psicológico. "É a sensação de estar fazendo algo proibido, de achar que vai ficar louco", acredita Arthur Guerra de Andrade, psiquiatra do Grupo de Drogas da Universidade de São Paulo. Psicológico ou não, o fato é que muita gente vê nos energéticos uma alternativa para se manter mais disposto, não só na noite, mas também a encarar os percalços do dia-a-dia com mais pique. "Às vezes saio do trabalho e quero ir para a noite, então tomo logo duas latinhas de Flying Horse, com cerveja. E, se acordo muito cansado, levo duas latas para o serviço. É melhor do que guaraná em pó", diz o carioca Igor Saboia, 27 anos, que já experimentou todas as marcas e tem uma pequena coleção de latinhas em casa. O sucesso de vendas superou as expectativas dos importadores da bebida. Em 1997 entraram no Brasil 1,5 milhão de latas de Flying Horse. No ano passado, foram 3,7 milhões. Com o Carnaval, a venda cresce ainda mais. Afinal, nesta época do ano os foliões querem mais é pular até o dia raiar, não importa como. Mas é bom não abusar para não estragar a festa.