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Entrevista

Renato Aragão

O Didi é meu herói

O Didi é meu herói

Mesmo sem mudar o estilo, Renato Aragão continua querido da criançada que faz o sucesso de seu filme Simão, o fantasma trapalhão

VALÉRIA PROPATO
Edição 10/02/1999 - nº 1532

Com tantas superproduções digitalizadas e de efeitos especiais destinadas ao público infantil nos cinemas – entre elas, Vida de inseto, O príncipe do Egito e Babe – o porquinho atrapalhado na cidade –, o filme que mais está faturando a simpatia da garotada é justamente um em que o maior astro é um cearense de 64 anos, nascido em Sobral e há mais de três décadas fazendo praticamente o mesmo tipo de humor. Seu nome é Antônio Renato Aragão, o Didi da antiga trupe Os Trapalhões, que mesmo em carreira solo mantém um público atado e fiel à sua comédia pastelão. Pai de quatro filhos, com outro a caminho, fruto de sua união com a produtora de eventos Lilian Taranto, e avô de oito netos, Renato Aragão está rindo à toa. Não é para menos. O filme Simão, o fantasma trapalhão, o 39º na sua estrada cinematográfica, produzido pela Renato Aragão Produções Artísticas, já foi visto por 1,6 milhão de pessoas, enquanto seu programa na Rede Globo, A turma do Didi, vem garantindo a média de 15 pontos na medição do Ibope, um bom desempenho para o meio-dia dos domingos.

Quando Zacarias e Mussum morreram, Aragão confessa que pensou em parar. Mas depois de um recolhimento de seis anos, resolveu encarar o público novamente, sem nenhuma perspectiva de mudanças radicais. "Não sei fazer sátiras, não sei fazer imitações. Eu sou o Didi e dependo de situações engraçadas", diz Aragão. Nem um pouco deslumbrado com o sucesso, o eterno trapalhão falou a ISTOÉ na sua nova residência em Jacarepaguá, zona oeste do Rio de Janeiro, mansão com teto em forma de pirâmide, cinco quartos e oito empregados. Tímido, contou das agruras da fama, das sinopses de mais dois filmes para o fim deste ano e, para espanto geral, segredou que trocaria a Rede Globo por um canal mais popular.

ISTOÉ – Qual sua opinião sobre os programas humorísticos atuais? Algum lhe agrada ou desagrada em especial?
Didi

O humor brasileiro é cíclico. Nunca morre. Acho que agora vai aparecer uma quantidade enorme de programas de humor. O momento é de sorrir. Muvuca é uma esculhambação. O programa é a Regina (Casé). Eu gosto. Ela conseguiu fazer uma sátira ao talk show. Os meninos do Vida ao vivo show têm muito talento, mas atingem uma camada só. O programa conseguiu agradar só à elite e o zé-povão ficou cabreiro. O Casseta & Planeta é muito bom, mas eu não gosto das agressões, dos gestos obscenos e dos palavrões. Não perdôo. Como pai, fico revoltado com eles. O Sai de baixo também estava assim. A televisão foi feita para entreter, mas os programas não precisam apelar. E você não pode controlar o que a criança deve ver. Isso é censura. Os pais não podem algemar as crianças ou trancá-las no quarto.
 

ISTOÉ – Quem são os melhores e piores humoristas brasileiros?
Didi

Olha, eu assisti a O belo e as feras e achei muito bom. Tem velocidade e qualidade. É preciso ousar. Não adianta ficar na retranca. O Chico (Anysio) tinha que arriscar. Não podia ficar parado. Ele é hors-concour. Hoje, meu ídolo é o Golias. Ele não precisa fazer nada. Basta aparecer na tela. Trabalhamos juntos e aprendi muito com ele. Acho que tem espaço para todos na tevê. É só saber escolher o seu e não cair na praia errada. Já me pediram para fazer um programa no sábado à noite. Seria no horário de Muvuca, que ainda não existia. Eu iria fazer meia hora de programa e o Chico Anysio outra meia hora. Achei que não era minha praia. Nessa hora a criança já está dormindo. A Globo quer testar A turma do Didi em todos os horários. Eu também quero. Ficar no meio-dia de domingo para mim é acomodação.
 

ISTOÉ – Seu filme Simão, o fantasma trapalhão alcançou a marca de 1,5 milhão de espectadores. A que você atribui esse sucesso?
Didi

As pessoas pensam que fazer cinema popular é fácil. Eu levo nove meses para terminar um filme. Mexo incontáveis vezes no roteiro, me preocupo com a qualidade. O Simão foi inspirado no Fantasma de Canterville, de Oscar Wilde. Mas fiz uma coisa mais leve. As crianças têm medo de fantasma e, ao mesmo tempo, fascínio. Transformei o Simão num fantasma amigo.
 

ISTOÉ – Tem algo de espiritual no enredo?
Didi

O Simão está em busca de alguma coisa que o liberte da Terra. Eu coloquei a Ivete Sangalo, que tem rosto angelical, para ser este espírito de luz a guiá-lo para um outro plano. A cena em que ela vira uma estrela no céu foi um dos meus maiores investimentos em efeitos especiais. Trouxe até um técnico dos Estados Unidos, que eu não lembro mais o nome. Também tive muito cuidado com os figurinos de época e 70% das locações fizemos num castelo de verdade, em Itaipava (região serrana do Rio de Janeiro).

ISTOÉ – Você está com novos planos?
Didi

Estou trabalhando na sinopse de mais dois filmes para o final de 1999, A luz azul, inspirado num conto dos Irmãos Grimm, e A gatinha borralheira. Vou morrer fazendo esse tipo de coisa. Um outro filho está para nascer, estou com programa novo, filme novo e me sinto como se tivesse acabado de chegar do Ceará.
 

ISTOÉ – Porque o Didi não sai de moda para as crianças?
Didi

Minha preocupação é conquistá-las. Depois, salpico um humor mais adulto, mas sem afugentar as crianças. Não procuro fugir do meu estilo. Não sei fazer sátiras, não sei fazer imitações. Eu sou o Didi e dependo de situações engraçadas.
 

ISTOÉ – É verdade que você se esconde sempre que um filme seu é lançado?
Didi

 Fujo com medo. Dessa vez não pude, porque minha mulher está grávida. Geralmente vou para Miami, Ceará. Não quero saber a reação do público.
 

ISTOÉ – É mais fácil fazer rir as crianças do que os adultos?
Didi

Eu não saberia fazer humor para adulto. A minha praia é infantil e uso o corpo para fazer rir. O desafio é conseguir subir uma escada, levar um tombo e depois sacanear o guarda. Gente grande diz que é tudo uma bobagem, mas está rindo. No início, os adultos diziam que não assistiam ao meu programa. Mas aí chegava um prepotente e dizia: "Ô rapaz, estava passando no quarto da minha empregada e vi teu programa de raspão." Outro dizia a mesma coisa. Pô, mas o que é que essa gente fazia tanto no quarto da empregada? Era uma forma hipócrita de dizer que não assistia ao programa. Hoje todo mundo saiu do quarto da empregada e foi para a sala assistir ao programa.
 

ISTOÉ – De onde você tira inspiração para as trapalhadas do Didi?
Didi

Tudo começou com Oscarito. Quando era adolescente, assisti aos filmes Aviso aos navegantes e Carnaval no fogo 16 vezes. Eu achava esse cara demais. Queria imitá-lo e não conseguia. Ia para frente do espelho e me exibia para os meus amigos. Também consumi muito Charles Chaplin. Mas já desmamei há muito tempo. Foi o próprio Oscarito quem disse isso. Certa vez, ele encenava uma peça no Rio de Janeiro e fui falar com ele no camarim. Ele disse: "Renato, eu te vejo na televisão e você não tem nada meu. Você encontrou seu caminho, pode ir." Quase que eu choro.
 

ISTOÉ – Você fica de mau humor quando lhe pedem para contar uma piada?
Didi

Sou um cômico que precisa de uma historinha, uma situação para fazer rir. Não sou humorista. Sei todas as piadas do mundo, mas não sei contá-las. Antigamente, não gostava quando me pediam para fazer uma brincadeira na rua ou se dirigiam a mim de um modo ofensivo. Uma vez, um cara bateu no vidro do meu carro depois de um show e disse: "Ô cabra escroto, conta uma piada aí." Hoje entendo como um elogio, um carinho.

ISTOÉ – Você vai a festinhas de criança?
Didi

 De jeito nenhum (risos). É uma guerra aqui em casa. Lembro que para levar a minha filha Juliana, hoje com 21 anos, a um parque de diversões tive que pedir para abrirem numa segunda-feira, só para ela. Ela não entendia por que todos os pais levavam os filhos às festinhas e eu não. Juliana não chegou a fazer terapia, mas muita gente teve que conversar com ela e fazê-la entender essas coisas. Quando ficou maiorzinha, passou a me proteger. "Pai" – ela dizia –, "vem por aqui porque aí tá cheio de criança". Eu aprendi a viver numa clausura. Não dou um mergulho na praia há anos. Gostava de mergulhar, nadar… Passo as férias na minha casa. Aqui sou livre. É uma doce prisão. Não reclamo de nada que o sucesso traz. Para mim é um prazer trabalhar para as crianças. Por isso nunca parei. Cheguei a pensar em me aposentar quando perdi três colegas de trabalho, Mussum, Zacarias e Tião Macalé, que era um trapalhão adotivo.
 

ISTOÉ – Como foi sobreviver sem eles?
Didi

Parei tudo durante seis anos, me afastei da Globo. O cinema vivia uma crise e eu não tinha dinheiro para investir. Então, me recolhi e me dediquei à leitura de clássicos da literatura. Não havia incentivo. Os Trapalhões eram insubstituíveis. A Globo queria que eu fizesse especiais, mas eu não. Com a criação da Lei Rouanet, vi uma luz no fim do túnel. Voltei pelo cinema. Não sabia, no entanto, como recomeçar. Eu me perguntava como o público iria me aceitar nessa nova fase. Resolvi fazer o que sempre fiz. Não adiantava mudar de personalidade ou de estilo. Queria reconquistar as crianças. Aí lancei o Noviço rebelde e foi uma explosão de bilheteria: 1,5 milhão de espectadores. Não esperava. Pensava em voltar devagarzinho, galgando. Não podia ficar viúvo o tempo todo. Estava me sentindo um covarde.
 

ISTOÉ – Você já recebeu convite para trabalhar em outra emissora?
Didi

 Muitas vezes. Já quis sair da Globo, mas o problema é que lá eles têm tudo e me dão tudo o que quero. Nunca foram intransigentes comigo. Acho que faria mais sucesso em uma emissora mais popular que a Globo. Meu estilo de trabalho é para o zé-povão e a Globo me tolhe um pouco. Ela gosta de elitizar seu produto. Se estivesse no SBT ou na Record, talvez alcançasse mais audiência. A Globo me dá projetos bons. Se o SBT me desse condições de realizar um projeto, sem dúvida nenhuma estaria lá.
 

ISTOÉ – O Renato Aragão é vaidoso?
Didi

Não. Mas invisto no que é necessário. Eu era para ser careca e fui um dos primeiros brasileiros a fazer implante. Fiz dois. Também pinto o cabelo. Ele caiu e embranqueceu precocemente. O normal é que caísse agora. Só que ele agora está seguro. Isso não é vaidade. Só não quero aparentar o que não sou. Atualmente, me sinto com 16 anos. Estou de calça curta.
 

ISTOÉ – Atualmente os homens preocupam-se com a estética e posam nus sem problemas. O que você acha disso?
Didi

 Isso não é homem. Homem que é homem não tem vaidade. Não sou machista, não. Mas sou contra cirurgia plástica, creminho nos olhos…
 

ISTOÉ – Você é casado com uma mulher 34 anos mais jovem. Em que momentos essa diferença atrapalha e quando ajuda?
Didi

 Hoje, cinco pessoas já a confundiram com minha filha. Sou 34 anos mais velho e 30 centímetros mais baixo (risos). A Lilinha me quer muito bem e cuida muito de mim. Ela sempre vai aonde eu vou. Diz que é minha fã desde que nasceu. Quando tinha seis anos, os irmãos dela a levaram para assistir a um programa meu em São Paulo e me contaram que eu a coloquei no colo e lhe dei um beijo. Não me perdôo de não estar com uma máquina fotográfica naquele momento. Nos reencontramos há oito anos. Ela trabalhava na produção de eventos do Banco do Brasil, que tinha nos contratado para fazer um show na semana da criança. Ela sempre sonhou em me conhecer e foi no camarim. Quando me viu, fez um escândalo. Chorava muito e me chamava de herói. Eu, atordoado, dizia calma, calma, vou te dar um pôster. Depois de uma semana, liguei para ela.
 

ISTOÉ – A diferença de idade lhe deixa inseguro?
Didi

Quando conheci a Lilinha já estava praticamente separado há dois anos. Vinha de um casamento desgastado de 30 anos. Mas não estava preocupado em encontrar ninguém. Acho que se eu viver 100 anos, a Lilinha vai continuar me querendo. Não tenho medo. Eu a quero para o resto da vida. Se ela me quiser também vou ficar muito feliz.
 

ISTOÉ – É verdade que você já sofreu um acidente de avião?
Didi

Eu nunca gostei de falar sobre isso. Em 1958, era estudante de Direito, trabalhava no Banco do Nordeste e jogava futebol. Aí, fui participar dos jogos universitários em Minas Gerais. Na volta, estava chovendo muito e era noite. O piloto se preparava para pousar, mas perdeu visibilidade e bateu na Serra do Bodocongó, na Paraíba. Explodiu, foi um horror. Eu me lembro que o comissário disse: "Apertem os cintos, nós vamos…" Não deu para completar. É indescritível. Terminei de cabeça para baixo, preso nas ferragens, gente gemendo. Não deu tempo nem de pensar na morte. Havia 58 passageiros e morreram 13. Eu escapei com vida e dou graças a Deus. Não quero gastar a minha sorte.
 

ISTOÉ – Como você trabalha a sua timidez?
Didi

Sou uma pessoa muito contida. Não gosto de multidão, não vou à badalações. Saio apenas para ir a um restaurante com minha mulher. Às vezes, vejo minhas palhaçadas na televisão e me pergunto como tive coragem de fazer aquilo. Como tive coragem de me vestir de mulher? Fiz uma auto-análise e percebi que o Didi é o meu alter ego. Gostaria de fazer o que ele faz na vida real. Eu descarrego tudo no Didi. É meu herói.
 

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