Cultura

Fora do rebolado

Novos artistas baianos fazem rock e som eletrônico na contramão da axé music

Rebeca Matta, cantora baiana de 32 anos, adora um visual esquisito. Além de ter o nariz adornado com um piercing, veste-se de preto e costuma raspar careca até a metade da cabeça, deixando o resto crescer em longas madeixas, que enrola em trancinhas. Não sem razão, na região de Rio Vermelho, bairro onde mora em Salvador, as pessoas a chamam de Mortícia Adams. O que mais chama a atenção em Rebeca, contudo, não é tanto a aparência, mas o tipo de som que ela mostra em seu CD de estréia, Tantas coisas. Ao contrário da maioria das cantoras suas conterrâneas, Rebeca não faz axé music, mas uma ousada mistura de tecno com MPB. E o mais surpreendente é que a heresia na terra do rebolado não é um privilégio só seu. A banda Penélope Charmosa, por exemplo, destaca-se justamente por fazer rock’n’roll. Também na contramão do sacolejo, dois outros grupos de rock como o pesado Catapulta, que prepara o segundo trabalho, e o divertido The Dead Billies, formado por quatro topetudos no melhor estilo rockabilly, provam que no tabuleiro sonoro a Bahia tem muito mais a oferecer.

Na segunda-feira 1º, a turma roqueira tomou de assalto o Pelourinho, tradicional reduto axé,para animar o Kildare Summer Festival 4, que desde 1996 acontece todo ano antes do Carnaval como forma contrária de comunhão com as folias de Momo. "Não vejo alegria nenhuma no Carnaval", desfecha Rebeca. "O que eu sinto é um desespero grande no rosto das pessoas." Disposta a contrariar o coro dos bumbos, Rebeca enveredou pelo ritmo soturno do trip hop – subgênero eletrônico de andamento lento e tonalidades melancólicas –, demonstrando forte personalidade em composições próprias, como O fogo dos teus olhos, e em versões modernizadas de clássicos da MPB. Na sua voz, a fogosa O meu amor, de Chico Buarque de Hollanda, ficou estranhamente dramática e a suave Nada será como antes, de Milton Nascimento, ganhou um inesperado arranjo que lembra o rock industrial. O aparecimento de Rebeca Matta pode ser uma boa notícia para os DJs cariocas adeptos do tecno, que, irritados com a ditadura axé, preparam um enterro simbólico do gênero.

Assediada pelas gravadoras, a cantora deve fazer seu début nos palcos do Rio de Janeiro e de São Paulo em abril, quando também chega ao mercado o primeiro disco do grupo Penélope Charmosa. Como o próprio nome indica, é uma banda praticamente feminina. Erika Martins, 24 anos, cuida dos vocais, Erika Nande, 27, toca baixo e Constança Scofield, 26, teclados e flauta. O grupo conta ainda com o guitarrista Luisão, 29, e o baterista Mario Jorge, 28. "A gente costuma brincar que eles são nossos escravos", diz Erika Martins. A idéia inicial das garotas, no entanto, era fazer um grupo só de mulheres. Para enfatizar a proposta, chegaram a perfumar as precárias fitas cassete que vendiam nos primeiros shows da carreira.

Não se pode negar que o insinuante lado rosa-choque chamou a atenção da indústria do disco. Mas quem conhece o trabalho de Penélope Charmosa sabe que não se trata de mais uma armação. Elas gostam de verdade do rock alternativo americano e juram que nunca subiriam num trio elétrico. "Não gosto de axé, mas entendo como funciona", afirma Erika Martins. "No meio de pessoas autênticas tem muita gente que faz aquilo só por dinheiro." Apesar da barreira das rádios locais, Penélope Charmosa já conseguiu emplacar entre os roqueiros baianos a música Harold, cuja letra em inglês fala de uma menina indecisa entre transar ou não com o namorado. "É um bubble gum noise (rock ingênuo barulhento)", explicam.

Embora Penélope seja o primeiro grupo pop-rock baiano da nova geração a cair nas graças de uma grande gravadora, a descoberta do novo filão já havia acontecido com o quarteto Catapulta, que prepara a gravação do segundo álbum. Prosseguindo na mistura de guitarras barulhentas com ritmos folclóricos como o coco, a embolada e o maculelê, a trupe formada por Moisés (voz), Marcus (guitarra), Baé (baixo) e Giló (bateria) alinha-se no estilo alucinado dos Raimundos. "O problema com a axé é que tem desde Daniela Mercury até o ninguenzinho que faz uma xurumela (besteira em baianês) igual a outra", afirma Moisés. Pelo menos deste mal o rock baiano não sofre. Que o diga, por exemplo, o quarteto The Dead Billies, formado há seis anos e hoje cult em Salvador. Especializada em psychobilly, versão pesada dos roquinhos dos anos 50, a banda canta músicas em inglês, inspiradas em filmes B, e só se apresenta a rigor, quer dizer, com terninhos coloridos e topetes enormes esculpidos a sabão. Baianamente, o baixista Joe Tromondo, codinome de Silviano Seixas Gomes, não vê nenhum confronto entre as turmas, já que o álbum de sua banda, Don’t mess with… The Dead Billies, foi lançado pelo estúdio WR, do empresário Wesley Rangel, um dos pilares da axé music. Mas não deixa de ironizar. "O que incomoda na axé é o volume que as pessoas a ouvem." A briga entre as guitarras e os bumbuns com shortinhos promete.

 

DJ unido, jamais será vencido!

 

SIDNEY GARAMBONE

A bumbumcracia baiana deixou de ser unanimidade. Presente em todos os estratos sociais, a axé music e suas coreografias de obscenidade embutida ganharam inimigos ferrenhos. São 20 DJs cariocas, titulares das cabines de som mais famosas da cidade, que na semana passada fizeram uma reunião secreta, só depois divulgada, para dar um basta no ritmo baiano que corre solto nas pistas de dança dos clubes noturnos onde o público tem exigido a presença da música rebolante. A turma tecno, inclusive, já programou o enterro simbólico de um caixão repleto de CDs soteropolitanos, a acontecer depois do Carnaval, no Rock in Rio Café. O grito de revolta da noite tem duas faces, a discussão estética e a luta pela dignidade da profissão de disc-jóquei como brada o DJ Alexandre Medeiros, 34 anos. "O valor deste movimento é mostrar polarização. Não é todo mundo que gosta de axé!" Saudoso dos tempos em que o DJ lançava moda e as rádios iam atrás, Medeiros decreta: "Desse jeito vamos virar Cuba, onde só toca salsa e merengue." Márcio Careca, DJ da By Marius, no Centro do Rio de Janeiro, completa a bronca antevendo a possibilidade de voltarem os tempos em que DJ não tinha o status de hoje. "É só gravar uma fita e colocar o garçom para tocar."

Junto ao seu companheiro de toca-discos, o DJ Cobra, Careca se exalta ao falar da música baiana. "Dança da manivela, bota a mão na tcheca, rebola ordinária, ará, eré, oró e outras coreografias de baixo nível não podem ficar numa boate", argumenta. Todos do movimento insurreto garantem que não querem acabar com a axé music, apenas colocá-la no devido lugar como lembra o DJ Sérgio Dantas, do Mostarda. "Vê se no ensaio da Mangueira alguém vai pedir para tocar dance music." Segundo todos eles, ainda há outro agravante. Muitas rádios mantêm relações íntimas com as gravadoras, então o risco de pasteurização é enorme, alerta um DJ, clamando anonimato. Provando que até as insurreições são cíclicas, há nove anos, um movimento semelhante enterrou a lambada na boate Press. Desta vez, no entanto, há um contramovimento organizado pelos professores de lambaeróbica, tentando enfraquecer a luta tecno. Luiz Fernando da Silva, coreógrafo de quatro academias cariocas e precursor da lambaeróbica, diz que muito DJ foi "pego de gaiato" nessa reunião. "Isso aí é uma minoria com medo de perder mercado porque só toca tecno. Estou dentro do mercado do rebolado, não posso ser contra a axé. A desunião acaba com o Brasil." O futuro dirá quem vai dançar.