Cultura

Rumo ao olimpo

Depois de ganhar o Globo de Ouro de melhor filme em língua estrangeira, aumentam as chances de Central do Brasil ser indicado ao Oscar

Geralmente comedido em sua disfarçável noblesse oblige, Walter Salles não se conteve e, juntamente com Fernanda Montenegro e o garoto Vinicius de Oliveira, soltou um grito adolescente de alegria quando Annette Bening, na noite do domingo 24, anunciou o Globo de Ouro de melhor filme em língua estrangeira para o seu cada vez mais ascendente Central do Brasil. Este foi o 28º prêmio, o primeiro mais importante depois do Urso de Ouro de melhor filme e Urso de Prata de melhor atriz conquistados no 48º Festival Internacional de Cinema de Berlim, em março do ano passado. Embora tenha segredado a ISTOÉ que ganhar o Globo de Ouro – uma premiação concedida pela Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood, portanto mais "alternativa" que o Oscar, dado pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas – significa diminuir as chances de chegar ao Oscar, muitos pensam o oposto. O suíço Arthur Cohn, co-produtor de Central, por exemplo, acha que foi um grande empurrão. Salles, modestamente, prefere ponderar. "É preciso ter recuo em relação a esta premiação. O mais importante de tudo é não inflacionar as possibilidades e não transformar a questão numa competição futebolística", disse ele. "Não se deve esperar muito para não criar um desapontamento futuro." Se dependesse da receptividade da platéia superestrelada que compareceu ao hotel Beverly Hilton, em Beverly Hills, no entanto, Salles poderia ficar mais tranquilo. Entre os cinco rivais na sua categoria, Central do Brasil foi o mais ovacionado.

Na escala de suposições, é bem possível que a obra seja indicada ao Oscar de melhor filme em língua estrangeira e de melhor atriz para Fernanda Montenegro. A imprensa gringa especializada ao menos acredita no fato, colocando Fernanda na corrida junto a Cate Blanchett – para quem ela perdeu o Globo de Ouro –, Meryl Streep, Gwyneth Paltrow e Susan Sarandon. Caso ganhe indicação, Central do Brasil enfrentará um concorrente peso pesado. Trata-se do já incensado A vida é bela (leia quadro à pág. 86), dirigido e atuado pelo italiano Roberto Benigni, que, conforme as previsões, pode até estar na lista do Oscar de melhor filme e assim melhorar as chances para o trabalho de Salles. Mas se A vida é bela correr na mesma categoria de Central do Brasil, o páreo será duro. Não apenas pela qualidade dos dois trabalhos, mas principalmente pelo arquitetadíssimo lobby em curso da Miramax, que distribui o filme italiano nos Estados Unidos.

Como se sabe, a maioria dos competidores ao Oscar faz lobby. A diferença fica por conta das influências e dos dígitos em dólar de cada um. Michael Barker, executivo da Sony Pictures Classics, que distribui Central na América, garantiu a ISTOÉ que a Miramax investiu US$ 8,7 milhões na campanha de A vida é bela contra US$ 2,8 milhões de O resgate do soldado Ryan, de Steven Spielberg, o grande favorito, e "menos de US$ 1 milhão" queimado pela Sony para alavancar a obra de Walter Salles. O produtor Cohn foi ainda mais enfático. "Nós não vamos gastar um décimo da quantia que a Miramax está gastando com A vida é bela. Queremos ser os coitadinhos", ironizou ele a ISTOÉ. Uma das marcas já evidentes da estratégia Miramax foi colocar Benigni para entregar o prêmio de melhor filme comédia ou musical desta 56ª edição do Globo de Ouro.

 

Decote – Em relação a Fernanda Montenegro, como ela não levou o Globo de Ouro, fica então a esperança de a maior atriz brasileira chegar ao prêmio mais cobiçado do cinema. Fernanda pode não ter ganho, mas decididamente, sem nacionalismo, foi a mais elegante da noite, em atitude e roupa. Num discurso emocionado, que sensibilizou gente do calibre de Robin Williams, La Montenegro encantou a todos, mesmo tropeçando no inglês. "Estou muito, muito feliz que o nosso filme tenha sido tão bem-recebido e tenha lhes tocado o coração", finalizou ela, superando com galhardia um quase imperceptível incômodo na bela roupa preta – jaqueta, pantalona e sapatos de veludo –, oferecidos pelo estilista italiano Valentino. Não se sabe se o decote era propositadamente ousado ou se, por azar, a jaqueta soltou um botão. O fato é que, antes de subir ao palco, Fernanda conviveu por segundos com a câmera captando generosamente seu sutiã preto. Durante todo o tempo do discurso manteve a estatueta junto ao peito. A aparente justificativa é que ela não teve tempo suficiente para escolher um modelo feito sob medida por Valentino, que adorou sua atuação e decidiu presenteá-la com o traje que foi pessoalmente buscar na loja do estilista, situada na exclusiva Rodeo Drive, rua de Los Angeles. Comenta-se que os vendedores tentaram convencê-la a levar um modelito brilhoso, destes que as atrizes americanas tanto adoram. Chiquérrima, Fernanda não declinou do preto.

Durante a cerimônia, como bom cavalheiro, Salles abriu todo o espaço à atriz. Sua felicidade estampada no rosto de galã era suficiente. Até o momento, Central do Brasil arrecadou nos Estados Unidos US$ 1,1 milhão nas 23 salas onde está sendo exibido. Na França, Itália, Alemanha e Suíça já foi visto por cerca de 717 mil pessoas. Ele também saboreia o sucesso na França de Meia-noite, episódio de 66 minutos na versão curta e 76 na longa de um especial feito para Arte, canal estatal-cultural francês, que integra um projeto com mais nove diretores de várias partes do mundo, todos dando sua visão do que poderia acontecer na virada do milênio. "Quando me fizeram o convite, me interessei pela possibilidade de voltar a trabalhar com Daniela Thomas, com a qual aprendi imensamente em Terra estrangeira", disse Salles, cujo novo trabalho conta a história de um homem que na noite de réveillon escapa da prisão e, para não ser pego, se esconde no topo de um prédio em Copacabana, lugar escolhido por uma mulher de classe média alta que quer se suicidar. "Acontece que os papéis se invertem. O presidiário se confronta com a necessidade de salvar uma vida enquanto a mulher passa a se comunicar com um tipo de pessoa para o qual ela deixava de olhar no cotidiano", adianta Salles.

Meia-noite está previsto para estrear no segundo semestre deste ano. Segundo o diretor, a distribuidora carioca Estação Botafogo deve lançar os outros nove episódios. Enquanto isso não acontece, mesmo que Walter Salles discorde, já está instalado o clima de Copa do Mundo com a obrigatória torcida por Central do Brasil – filme que, apesar de mostrar um país nada charmoso em sua triste pobreza, representa com dignidade a alma e a esperança de o Brasil um dia ser tudo o que quer.

 

Faz de conta

Roberto Benigni conta que, embora não sendo judeu, seu pai acabou preso num dos campos alemães de trabalho forçado durante a Segunda Guerra, fato que marcou para sempre a vida do ator e cineasta italiano. Apesar do ocorrido, Benigni nunca havia pensado em fazer qualquer trabalho artístico rememorando os horrores da Itália fascista em conluio com Hitler. A idéia para filmar o sensível A vida é bela (La vita è bella, Itália, 1997) – cartaz nacional a partir da sexta-feira 5 – veio de uma frase de Trotsky, quando, na pele de exilado, praticamente aguardava os soldados de Stalin que viriam assassiná-lo. Mesmo acuado pela desconfiança macabra, o revolucionário escreveu: "A vida é bela." O mote foi perfeito. Roberto Benigni realizou o que já pode ser considerado um dos melhores filmes italianos dos últimos tempos.

Em tom de fábula, com linguagem de comédia chapliniana, ele mostra como um homem cria um conto de fadas para proteger um ente querido da realidade brutal da guerra. Guido (Benigni) apaixona-se por Dora (Nicoletta Braschi). Depois da dificultosa conquista, sete anos mais tarde os dois vivem com o filho Josué (Giorgio Cantarini) – é incrível aqui a coincidência de dois personagens terem os mesmos nomes que em Central do Brasil, no caso Dora (Fernanda Montenegro) e Josué (Vinicius de Oliveira). Vem a guerra e o judeu Guido é deportado com o garotinho para os campos alemães de concentração. Inconformada, a apaixonada Dora, que não é judia, embarca no mesmo trem de horror. Por romantizar uma situação que nenhum judeu gosta de lembrar, Benigni gerou polêmica. Mesmo assim bateu o recorde do ano na Itália, em 1997, levando às lágrimas seis milhões de espectadores.

A.R.