Cultura

Tupi or not tupi

Irreverentes e criativos, vários espetáculos em São Paulo e no Rio de Janeiro se inspiram em Shakespeare e fazem o público rir a valer

Quem achava que Romeu e Julieta haviam morrido esplendidamente através da pena clássica de William Shakespeare está enganado. O célebre par romântico não só sobreviveu ao veneno como habita uma casa modesta, a meio caminho entre Verona e Mântua. É claro que tudo é ficção, e das boas. Na visão anárquica e debochada do carioca Hamilton Vaz Pereira, diretor da comédia Omelete, em cartaz no Teatro Cultura Artística, em São Paulo, o veneno que Romeu tomou era laxante e a faca que sua amada cravou no peito não alcançou profundidade suficiente para levar-lhe a vida. Foi barrada por um livrinho de orações que carregava no peito. Heresias parecidas também acontecem na hilariante peça de nome impronunciável ppp@WllmShkspr.br, que tem lotado a Casa de Cultura Laura Alvim, no Rio de Janeiro, ao sintetizar de forma descabelada as 37 peças do famoso autor de Stratford-upon-Avon. Repleta de personagens ricos, a obra do dramaturgo gerou outros tantos espetáculos irreverentes, a maioria em São Paulo, como Os coveiros, história inspirada no quinto ato de Hamlet, o príncipe da Dinamarca, aquele passado num cemitério e centrado em dois palhaços, em cartaz no teatro Ruth Escobar, e Rosalina, a deletada, na Funarte, que tira da obscuridade a prima de Julieta, primeira paixão de Romeu.

A começar por Suave veneno, novela global das 20h, com trama contrabandeada de Rei Lear, remexer o baú shakespeariano virou moda. E faz sucesso. Especialmente quando o propósito é simplesmente rir. Omelete conquistou o público carioca no ano passado e está repetindo o feito na capital paulista. Escrita em tom de paródia por José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta, a peça parte de uma idéia absurda. Mistura numa mesma história, além dos ressuscitados Romeu (Gulu Monteiro) e Julieta (Iris Bustamante), conhecidos casais elisabetanos como Otelo (Orã Figueiredo) e Desdêmona (Maria Paula) – de Otelo, o mouro de Veneza – e Petruchio (João Camargo) e Catarina (Lena Brito) – de A megera domada. De acordo com os autores, eles se conhecem em viagem a Mântua, durante a qual passam a viver lances saídos da deliciosa comédia Sonhos de uma noite de verão. Sob o efeito das diabruras do duende Puck (Marcos Breda), Julieta cai de amores por Petruchio, Otelo passa a perseguir Catarina e Desdemôna joga o charme para Romeu. "É uma comédia rasgada", adianta Hamilton Vaz Pereira. Torero também se divertiu fazendo o mix Shakespeare. "Gosto muito de Shakespeare, mas não tenho o menor pudor em mudar as situações de suas peças. Não se trata de uma avacalhação."

Preocupação parecida teve o trio paulistano Hugo Possolo, Raul Barreto e Alexandre Roit da trupe Parlapatões, Patifes & Paspalhões no espetáculo ppp@WllmShkspr.br, dirigido por Emílio di Biasi. Todas as situações, incluindo as mais dramáticas e trágicas, viraram textos escrachados mesmo preservando os versos autênticos. Em meio à pândega, o ciúme incontrolável de Otelo é narrado através de uma letra de rap enquanto o amor de Romeu e Julieta ganha forte conotação sexual. "Tivemos um certo receio nesta peça, mas isto foi bom porque tomamos cuidado de não esculhambar por esculhambar", explica Possolo.

Em seu corre-corre shakespeariano, o ator ainda arranjou tempo para dirigir Jairo Mattos e Eric Nowinski em Os coveiros, de Bosco Brasil, comédia sobre o confronto entre Derilo, administrador de um cemitério, e Abelardo, o esperto coveiro que ganha uns trocados explorando a peregrinação ao jazigo de uma suposta santinha. Aqui, as referências – não tão óbvias – se limitaram a Hamlet. "Fui beber lá porque todas as comédias passam por aquela ceninha", afirma Bosco Brasil. Mexendo com outro personagem periférico no melhor clima queijo com goiabada, Rosalina, a deletada, com Clarissa Drebtchinsky (Rosalina) e Heitor Goldflus (Frei Lourenço) foi mais longe. Escrita e dirigida por Miro Rizzo a peça conta a história dos famosos amantes de Verona sob o ponto de vista da prima de Julieta. Para quem não se lembra, era por Rosalina que Romeu se dizia apaixonado até bater os olhos na filha dos Capuleto. "Tudo o que na tragédia é obra do destino, nesta versão foi Rosalina que acabou metendo o bedelho", diverte-se Rizzo. Sob o oswaldiano tema "tupi or not tupi", a nova safra teatral pode até irritar os mais puristas. Mas que diverte, diverte.

Colaborou Clarisse Meireles (RJ)