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Os reis do pastelão

Driblando esquemas de segurança, grupo belga especializou-se em jogar tortas na cara de gente famosa

Cinco segundos depois de uma tortada na cara e o verdadeiro caráter de uma pessoa vem à tona." O autor da frase sabe do que está falando. Ele é o belga Noël Godin, 53 anos, ator, escritor e precursor do movimento que se tornou conhecido por acertar tortas no rosto de gente famosa. A última vítima foi o ministro das Finanças da Holanda, Gerrit Zalm, atacado há duas semanas em Amsterdã. A imagem do ministro com o rosto lambuzado foi estampada nos jornais do mundo todo. "Esta é uma ação incompreensiva e antidemocrática", disse Zalm, que cinco segundos depois do ataque perdeu as estribeiras – uma reação comum, além do constrangimento, entre as personalidades que já foram alvo do grupo. A lista de vítimas é extensa. Inclui Bill Gates, da Microsoft, Robert Shapiro, presidente-executivo da Monsanto, Renato Rugiero, diretor-geral da Organização Mundial para o Comércio, só para mencionar os casos mais recentes. O que começou como uma manifestação isolada de Godin 30 anos atrás, hoje é conduzida pela organização anarquista autodenominada Brigada Internacional dos Confeiteiros. E o grupo não se restringe a atingir figuras do mundo econômico. "Antipáticos" de qualquer ramo – atores, jornalistas, políticos, historiadores – podem entrar na dança. "Há um motivo para atacar cada vítima", explica Godin.

Baseada na Bélgica, a organização se preocupa principalmente em manter o bom humor. "Existem milhões de formas de subversão, muitas interessantes, mas poucas, na minha opinião, podem se igualar ao imediatismo e à conveniência de uma torta de creme na cara", diz Godin, o cabeça da organização. Nascido e criado em Liège, Bélgica, Godin largou a universidade de Direito depois de esvaziar um tubo de cola sobre a cabeça de um palestrante que havia ajudado o ditador português Augusto Salazar a escrever a sua Constituição. "Eu acredito que temos que lutar pelo que acreditamos, fazer uma revolução através da risada", justifica ele.

O primeiro ataque com uma torta foi contra a escritora e diretora francesa Marguerite Duras, em 1969. O feito, de grande repercussão, deu impulso aos seguintes, que vieram logo. Começou a surgir, então, um sem-número de colaboradores, não só na Bélgica, como na França, na Holanda, na Inglaterra e nos EUA. Hoje em dia Godin vive numa casa modesta com sua namorada, cinco gatos e quatro mil vídeos de filmes antigos. É nesse lugar que ele e seus colaboradores se reúnem para traçar os planos seguintes. "Um bem-sucedido ataque de torta é precedido por um plano meticuloso", explica. "Precisamos de no mínimo quatro pessoas. Um cinegrafista, um fotógrafo, o atacante e um assistente para segurar a torta." Mesmo assim, muitas vezes o número de pessoas envolvidas tem que ser alto para garantir o bom resultado. No ataque a Bill Gates, em fevereiro de 1997, foram concentrados 30 agentes e 25 tortas, com o saldo de três tortas no rosto do multimilionário. E por que tantas tortas em Bill Gates? "Ele oferece sua criatividade e inteligência para o mundo de forma errada. Poderia ser um utopista, mas prefere ser o chefe do establishment", diz Godin.

A Brigada dos Confeiteiros conta geralmente com a colaboração de pessoas próximas à vítima. No caso de Bill Gates, um funcionário da Microsoft, que queria dar uma lição no chefe, passou todos os detalhes dos deslocamentos de Gates e de seu sistema de segurança. Apesar de contar com o apoio de pessoas de fora do movimento, eles se negam a aceitar dinheiro para tortear alguém. "Recebemos ofertas milionárias para atacar Sharon Stone e Catherine Deneuve, mas não temos nada contra elas. Somos livres, piratas com tortas, nunca seremos mercenários, porque senão seriamos patéticos também."

A maior vítima dos confeiteiros é o filósofo francês Bernard-Henry Levy, que por dez anos vem sendo atacado. "Ele só será perdoado no dia em que demonstrar o mínimo de humor depois de um ataque", decreta. Foi o que aconteceu com o diretor de cinema Jean-Luc Godard, em 1977. Foi torteado, limpou o rosto com a mão e experimentou a torta. "Gostosa", comentou. E nunca mais foi alvo dos confeiteiros.

As tortas utilizadas são compradas momentos antes em confeitarias perto do local do ataque. "Qualidade é tudo. Se o plano der errado, comemos as tortas", diz um dos colaboradores. "Vamos fazer grandes coisas em breve", conta Godin, que inclui na sua ambiciosa lista negra de futuros alvos Bill Clinton, Tony Blair, John Travolta e até o papa. Quem será o próximo?

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