Comportamento

De quem e a bola?

A venda do craque Fábio Jr. para a Roma expõe a rápida valorização dos passes de jogadores operada por empresários que ganham comissões astronômicas e questionáveis

Ao consumar na segunda-feira 11 a venda do atacante Fábio Júnior, um dos destaques do Campeonato Brasileiro de 1998, ao clube italiano Roma por US$ 15 milhões, o Cruzeiro, de Belo Horizonte, fez mais que um bom negócio. Fechou a transação mais rentável do futebol brasileiro. No final de 1997, o jogador de 21 anos saiu do Democrata, um modesto time de Governador Valadares, interior de Minas, ao preço de R$ 300 mil. Bastou uma temporada para que sua cotação subisse mais de 5.000%. "A proposta foi muito boa e não poderíamos deixar de vender o jogador", argumentou Zezé Perrela, presidente do clube mineiro. A autoria dessa negociação milionária, no entanto, não cabe aos dirigentes do Cruzeiro. Os artífices foram os empresários do jogador – ou agentes, como preferem ser chamados. Depois que se transformou em uma mina de ouro, Fábio Júnior, que era representado por apenas um profissional – o mineiro Adelson Duarte –, passou a ter quatro agentes. Entraram na parceria os badalados Alexandre Martins, Reinaldo Pitta – os mesmos que administram a carreira de Ronaldinho – e o italiano Giovanni Branchini. Foram Martins, Pitta e Branchini que costuraram a transação. A remuneração é quase tão polpuda quanto a de Fábio Jr., que receberá 15% sobre o preço do passe. Na verdade, os principais agentes ganham mais dinheiro do que qualquer atleta em atividade no Brasil. Eles recebem comissões sobre a venda, salário, contratos publicitários, etc e de vários jogadores ao mesmo tempo. No caso de Fábio Júnior os empresários se reuniram por algumas horas, fizeram algumas consultas e embolsaram cerca de US$ 1,5 milhão.

É nesta época do ano, em que os clubes aproveitam o intervalo entre uma temporada e outra para comprar e vender jogadores, que esses profissionais conseguem lucrar mais. O objetivo é colocar seus "clientes" em algum grande time e descobrir embriões de craques que possam render bons dividendos – a recompensa é uma comissão que muitas vezes ultrapassa 10% dos passes e salários. Essa lucratividade crescente, no entanto, é acompanhada de acusações de cobrança de comissões extorsivas, corrupção e falta de ética. "Os bons profissionais são aqueles que orientam e acompanham o jogador, se preocupam com ele. Mas há os que só pensam em fazer um bom negócio e esquecem o lado humano", reclama Rinaldo Marturelli, presidente do Sindicato dos Atletas de Futebol de São Paulo.

Não faltam exemplos para demonstrar que a rentabilidade do negócio é maior que qualquer investimento financeiro. O jogador Edmundo, atualmente no Fiorentina, da Itália, tinha o passe avaliado US$ 8 milhões no início de 1998 e está hoje cotado em US$ 13 milhões. O lateral-esquerdo Roberto Carlos foi comprado pelo Real Madri, da Espanha, por US$ 7 milhões em 1996 e atualmente tem o passe avaliado em US$ 35 milhões. As cifras são astronômicas, mas é claro que nem todos os empresários ganham fortunas. A grande maioria fatura pouco. Os lucros monumentais são privilégio de uma elite formada por menos de quatro dezenas de profissionais. No time de agentes brasileiros, Reinaldo Pitta e Alexandre Martins formam a dupla de ataque mais habilidosa. Fazem negócios com quase todos os grandes clubes, representam no Brasil agremiações estrangeiras de primeira linha e têm sob contrato desde um batalhão de jogadores iniciantes a estrelas do porte de Ronaldinho. Transações internacionais são rotina para os dois. Ao mesmo tempo que fechavam com a Roma a venda de Fábio Jr., Pitta e Martins consumavam outra negociação para o futebol italiano. Conseguiram transferir o lateral esquerdo Gilberto (que jogou no Flamengo e no Cruzeiro) para o Internazionale, de Milão. Para fechar o negócio, no entanto, tiveram que fazer estranhos malabarismos.

Metade do passe do jogador, avaliado em US$ 3 milhões, pertencia ao Flamengo e a outra metade era dos próprios empresários. Em dezembro, Pitta e Martins adquiriram a parte do time carioca em troca da transferência do atacante Beto e mais uma compensação de US$ 300 mil. Feito isso, venderam então metade do passe do jogador ao Internazionale, por US$ 1,5 milhão. "O Gilberto era nosso. Pra nós foi um ótimo negócio vender só 50%. Ele vai se valorizar na Itália e passará a ter preço de jogador europeu", comemora Pitta. Mas, o problema é que pela lei empresários não podem ser donos de passes de jogadores. Isso é prerrogativa dos clubes. Mas no mundo real, impedimentos legais podem ser contornados com um simples contrato de gaveta. "O jogador era vinculado ao Flamengo, mas nós tínhamos um contrato que previa o pagamento ao Pitta e ao Martins", revelou a IstoÉ o gerente de futebol do clube carioca, Gilmar Rinaldi. De acordo com uma auditoria realizada por Edmundo Silva, novo presidente do clube, os dois agentes foram os que mais trataram com o Flamengo nos últimos quatro anos em que a presidência era ocupada pelo empresário Kléber Leite. Autor de mais de 130 negociações de jogadores, Leite não vê nada demais na preferência. "Pitta e Martins são confiáveis e não há como viabilizar negócios sem os empresários." Isso só é verdade no futebol atual. Antes os jogadores eram negociados diretamente pelos dirigentes e as transações ocorriam sem nenhum problema.

Saber o quanto faturam agentes mais conhecidos não é fácil, já que os números quase nunca se tornam públicos. Uma rara oportunidade se deu em novembro, quando o presidente do Grêmio, Luiz Carlos Silveira Martins, divulgou o contrato de venda do jogador Guilherme para o Vasco. O clube carioca pagou pelo atleta US$ 3,3 milhões, dos quais nada menos que US$ 495 mil foram parar no bolso do onipresente Reinaldo Pitta, como comissão. Uma remuneração de 15% em troca de alguns telefonemas dados aos dirigentes. Pitta parecia mal-humorado ao explicar sua lucratividade ao jornalista Paulo César Teixeira, de ISTOÉ. "Cada um ganha de acordo com sua capacidade." Não é bem assim. O regulamento da Fifa limita o ganho do agente, por mais capacitado que seja. "Pelo estatuto, a comissão não pode exceder a 10% do valor total do negócio", explica Francisco Dambros, presidente da Associação Nacional dos Agentes de Futebol (Anabol). Segundo a regulamentação da Fifa, a negociação que envolver uma comissão maior que o previsto deverá ser considerada nula.

Na verdade, Dambros e Pitta estão em lados opostos. Enquanto o primeiro preside a Anabol, o segundo é filiado à Associação Brasileira de Agentes da Fifa (Abaf). As duas entidades entraram em confronto, desde que a Abaf passou a defender que a intermediação das negociações só pode ser feita por agentes credenciados junto à Fifa. "Quem não tiver o credenciamento, está atuando ilegalmente", ataca o presidente da Abaf, Léo Rabello. Esse critério transformaria o milionário mercado do futebol brasileiro em monopólio dos 13 profissionais que detêm essa documentação. Dambros não aceita a exclusividade. "O credenciamento na Fifa garante o privilégio apenas para negociações com clubes estrangeiros", argumenta. "O nosso objetivo comum deveria ser a moralização da profissão e a defesa dos atletas daqueles agentes que só visam o lucro", defende. O jogador do Flamengo, Iranildo, sabe bem o que é isso. Seu passe está preso ao procurador João Pinheiro. O empresário tem plenos poderes para decidir o destino do atleta e ainda recebe 30% sobre seus ganhos. "Fui ingenuo quando assinei o meu contrato", lamenta o jogador.

Alguns usam métodos sujos para tentar colocar seus contratados em grandes clubes. Um dos que sofreram com esse assédio foi Antonio Gonzales, que de maio a agosto do ano passado ocupou a diretoria de futebol do Fluminense e deixou o cargo reclamando dos empresários. "Se tivesse concordado com as propostas escusas que me fizeram, ganharia dinheiro suficiente para comprar um apartamento na Vieira Souto." Gonzales ouviu muita coisa podre, como convites para faturar em cima dos salários e dos passes dos jogadores. "O jogador queria ganhar X de salário e o agente propunha que eu estipulasse o salário dele em X + 2. O excedente seria dividido entre mim e ele." O ex-dirigente lembra com ironia de um dos pilantras que o procuraram para oferecer um atleta. Depois de ouvir o preço do passe, Gonzales perguntou, referindo-se à remuneração do agente: "Quanto é a comissão?" E o homem respondeu ingenuamente: "A sua a gente vê depois."