Economia & Negócios

Para não dizer que não falei de flores

O empreiteiro Cecílio do Rego Almeida afirma que nada tem a ver com grampos telefônicos e terras griladas

O polêmico empresário Cecílio do Rego Almeida passou a figurar no noticiário desde dezembro, sempre como suspeito de negócios irregulares, da compra de grandes extensões de terras no Pará a grampo de conversas de ex-sócios. Na quarta-feira 13, ele decidiu dar sua versão a estes fatos. Aos 68 anos e prestes a deixar a presidência da empreiteira C.R. Almeida, o empresário parece disposto a mostrar que está, como ele mesmo definiu, "mais light". Enquanto sua empresa concentra forças nas áreas de energia, concessões de rodovias e telecomunicações, ele se diz interessado em projetos ecológicos, como o Amazon Dream, tocado pela sua Rondon Projetos Ecológicos em quase 60 mil quilômetros quadrados do Pará.

ISTOÉ – O sr. comprou terras griladas?
Cecílio do Rego Almeida – Esta gleba de terras (trata-se da maior que o empresário possui, com 4,772 milhões de hectares) foi anunciada em inúmeros órgãos de imprensa do País e tive dois grandes motivos para adquiri-la: primeiro, a extensão. É muito difícil encontrar uma terra com 50 mil quilômetros quadrados. Em segundo, o proprietário. O governo do Pará foi o proprietário dessas terras, através de seu braço financeiro, o banco do Estado. Na verdade, uma empresa tomou dinheiro emprestado, colocou as terras como garantia, não conseguiu saldar a dívida e o banco levou a propriedade a leilão. O próprio banco arrematou-a e mais tarde os antigos proprietários recuperaram as terras com o pagamento da dívida. Friso: as terras foram do governo do Estado do Pará. Tudo isso está documentado. Além do mais, nossos advogados não encontraram nenhum litígio no foro de Altamira sobre essas terras, logo, eu como brasileiro tenho o direito de comprá-las.

ISTOÉ – Parte do seu território também não pertencia ao Incra?
Rego Almeida – Não constava na matrícula da propriedade, então, não é propriedade do Incra. É fácil dizer: "Pertence ao Incra." Ou então: "Pertence ao Estado-Maior das Forças Armadas ou à Funai." Não consta nada disso em cartório.

ISTOÉ – O sr. ficou devendo dinheiro para quem lhe vendeu as terras?
Rego Almeida – Isto é tão interessante… Este senhor que diz isso, Emiliano de Oliveira, é irmão de Umbelino e Sebastião de Oliveira, os dois donos da empresa Indústria, Comércio, Exportação e Navegação do Xingu Ltda., proprietária das terras (a gleba de 4,7 milhões de hectares). Este Emiliano não tem absolutamente nada a ver com as terras. Eu tenho aqui a escritura pública de quitação da compra (mostra o documento) desta empresa e de seus ativos, o que inclui esta propriedade, pelo meu filho, Roberto Beltrão de Almeida, que ficou com 5% e a Rondon Projetos Ecológicos, que ficou com o restante. Eu sou o responsável por tudo, mas através do meu filho, que é jovem e tem mais tempo do que eu de fazer a total montagem do negócio. Este Emiliano é um tolo, um marginal, está entre o bobo e o são, não foi prefeito de Altamira. Tanto Umbelino e Sebastião, como os irmãos Heleno e Eliezer Moura, que também aparecem como reclamantes, vão me entregar declarações rebatendo as denúncias.

ISTOÉ – Se, conforme a sua versão, está tudo dentro da lei, quem quer lhe prejudicar?
Rego Almeida – Em 1996, um diretor técnico do Iterpa (Instituto de Terras do Pará) enviou ao presidente dessa entidade, Ronaldo Barata, uma carta dizendo: "Sugiro que antes, mas independentemente do cancelamento – como se eles tivessem poderes para cancelar o meu registro! –, se convide o engenheiro Cecílio do Rego Almeida para saber se, ainda sem o domínio do imóvel, financiaria ele um projeto ambiental em parceria, sob o controle do governo do Estado…" Ia-se fazer uma estrutura com diversos funcionários, ar condicionado, jatinho… Esta é a forma de pensar cartorial e atrasada. Queriam formar uma empresa para fazer tudo o que eu tinha sugerido com a participação do Estado na administração. Para que eu preciso do Estado na administração de uma coisa que é minha?

ISTOÉ – O sr. enfrenta resistências no Pará?
Rego Almeida – A terra foi comprada legalmente, foi paga e as dificuldades na Justiça começaram muito posteriormente à aquisição, a partir do momento em que enfrentamos os madeireiros malaios, pois havia a propensão de maus paraenses de entregar essas terras para devastação pelos malaios. Fatos que acredito nunca tenham chegado ao conhecimento do governador Almir Gabriel. Não para mim, mas para minha funcionária, perguntaram: "Por que vocês não fazem um acerto com os malaios?" Estes madeireiros destruíram o Sudeste Asiático, estão destruindo a Colômbia, o Peru, entraram pelo Amazonas e querem pegar nossa floresta.

ISTOÉ – Por que o sr. precisa de uma área tão grande?
Rego Almeida – Não lhe chamaria a atenção um projeto de 100 mil hectares, que é o tamanho de uma grande fazenda. O que chamaria a atenção para a Amazônia é um grupo de brasileiros protegendo, não 50 mil quilômetros, mas 100 mil quilômetros quadrados.

ISTOÉ – Logo, o sr. compraria mais terras no Pará.
Rego Almeida – Sim.

ISTOÉ – No momento, o sr. garante a preservação desta área com homens armados?
Rego Almeida – Veja como é idiota isso. Você acha que uma meia dúzia de revólveres e quatro espingardas de caçar tatu defendem um perímetro de mil quilômetros? Armar índio? Nós ajudamos as duas tribos de lá e oferecemos à Funai a demarcação de terras para eles. Disseram também que estamos em terras do Emfa. Eles erraram por mais de 70 quilômetros. Eu chequei com a Aeronáutica e o Exército porque gostaria mesmo de comprar esta propriedade. Ou fazer um comodado para cuidar desta área. O fato é que gastamos cerca de R$ 10 milhões anuais para manter a região e a toda hora eles vêm com alguma coisa.

ISTOÉ – Quem?
Rego Almeida – A Abril.

ISTOÉ – Por quê?
Rego Almeida Há negócios de satélites em que nossos interesses são conflitantes (tem participação na KTV, empresa de operação de tevê por assinatura via satélite, que compete com a DirecTV, do Grupo Abril). Aí que começou isso também, de maneira grosseira. Defendo meus direitos. Se existe um poder Judiciário para dizer quem está certo, eu vou a ele. Sempre.

ISTOÉ – O sr. não teme invasões dos sem-terra em suas propriedades lá?
Rego Almeida – Não, eles seriam bem aceitos. Eu faria até assentamentos se se acostumassem ao nosso conceito de exploração daquelas terras. Esclarecendo definitivamente: o meu projeto não é de colonização, não é de exploração mineral, não é madeireiro e também não é agropecuário. O que eu quero é a preservação da Amazônia.

ISTOÉ – É curioso ver um empreiteiro dizer isso. Afinal, estradas sempre foram o caminho para a devastação…
Rego Almeida É verdade, mas o Brasil era um arquipélago antes de Juscelino. Isto era bom para o brasileiro ou seria preferível interligar o País?

ISTOÉ – O sr. grampeou seu ex-sócio no consórcio Tess, que ganhou a banda B do interior paulista, José Castanheira, da Eriline?
Rego Almeida Quem responde não sou eu, é a Polícia Federal e a polícia de São Paulo. Eu pedi certidões e nada consta (mostra certidão da Polícia Civil de São Paulo que diz nada constar contra ele e uma certidão de bons antecedentes emitida pela Polícia Federal em 11 de dezembro de 1998). Nunca utilizei este expediente (grampo), nossa empresa não precisa disso, é ágil, está apontada entre as melhores do Brasil. A sua revista já publicou que eu ameacei de morte o Sérgio Motta. Por que ameaçá-lo, se ele nunca se meteu na minha vida? Depois, ele se tornou um grande homem público que está fazendo falta ao País.

ISTOÉ – Ele não pressionou o consórcio Tess a tirá-lo do negócio?
Rego Almeida – Não. Dizem, não sou eu quem está afirmando, que ele pressionou a Tess a não ficar no negócio. E realmente nós entramos na Justiça três vezes até ele aceitar a Tess. Também se diz que o ex-governador do Paraná Álvaro Dias abriu um processo por escuta telefônica (contra Cecílio do Rego Almeida). Eu faço um desafio para que encontrem esse processo. Se alguém ligar ao Álvaro Dias, ele vai dizer que não tem absolutamente nada contra mim. (Através da ação de intermediários, Cecílio e Álvaro Dias decidiram terminar com uma briga pessoal antiga. O empreiteiro retirou oito ações judiciais que movia contra o político, que também mandou suspender outras 12 ações).

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