Brasil

Antes tarde do que nunca

FHC demite Gustavo Franco, deixa o real flutuar e muda o rumo da economia para baixar juros e retomar o crescimento. A questão crucial é saber se a inflação vai voltar

No centro da tempestade financeira mundial, o Brasil deu uma guinada na sua política econômica. Na mais dramática semana do Real, a perda de credibilidade empurrou o governo a derrubar o grande pilar do plano de estabilidade: a âncora cambial, a variação controlada da cotação do dólar. A atrapalhada desvalorização de 8,26%, na quarta-feira 13, em vez de acalmar os mercados internacionais, gerou uma fuga de capitais sem precedentes – US$ 4 bilhões saíram do País em três dias. Investidores não se sentiam seguros por aqui, especuladores apostavam que o real poderia perder mais valor e inúmeros brasileiros tentavam proteger suas fortunas. Na verdade, a mudança tímida no câmbio, que veio no bojo da substituição de Gustavo Franco por Francisco Lopes na presidência do Banco Central, foi o último erro de uma série de tropeços da equipe econômica.

O dólar começou a semana avaliado em R$ 1,21 e terminou negociado por R$ 1,42, numa alta de 17%, depois de alcançar picos de R$ 1,60. Uma verdadeira explosão, detonada a partir da revogação do regime de bandas, na sexta-feira 15, o que permitiu a livre oscilação da moeda americana, sem interferência do BC. Definitivamente, o real não é mais o mesmo. Agora um novo cenário se apresentou para os brasileiros: a acentuada desvalorização do real vai provocar a volta do fantasma da inflação, que o governo tentará controlar com altas taxas de juros e o desaquecimento da economia. A recessão é inevitável em 1999, o desemprego deve se acentuar e os assalariados vão perder poder de compra. Por outro lado, abre-se caminho para o crescimento das exportações, o fim do déficit na balança comercial, uma menor dependência dos investimentos externos e a adoção de uma política econômica mais voltada para a retomada do crescimento a partir do segundo semestre.

Serra vence A mudança de rumo marca, sobretudo, a troca do pensamento dominante dentro da própria equipe econômica. FHC deixa para trás a política monetarista baseada num real forte, defendida pelo ministro da Fazenda, Pedro Malan, e o ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco (leia mais sobre sua saída à pág. 24). Perde terreno, assim, a estratégia de financiar o astronômico déficit público de 8,42% do PIB com a atração de dinheiro de fora do País, graças às maiores taxas de juros do planeta. Ganha espaço os que pregam, como o ministro da Saúde, José Serra, que a economia brasileira deve andar com as próprias pernas. Na verdade, o presidente pretendia fazer esta correção de rota com André Lara Resende e os irmãos Luiz Carlos e José Roberto Mendonça de Barros, mas o escândalo do grampo no BNDES adiou seus planos e o alijou de seus principais colaboradores. Nem por isso FHC deixou de esvaziar o poder de Malan neste segundo governo. Para a presidência do Banco do Brasil avalizou o economista Andrea Calabi, ligado a Serra, e para a Caixa Econômica Federal o pefelista Emilio Carrazai, ligado ao vice-presidente, Marco Maciel.

"Serra, você só vai virar ministro da Fazenda quando estourar uma crise, e a sua hora está chegando", previu, há dias, o ministro do Trabalho, Francisco Dornelles. O ministro da Saúde, porém, nega ter interesse em assumir o comando da economia em meio a um colapso. "Adverti para não levarem o carro para perto da região dos abismos. Levaram. Depois, disse para não colocarem o carro junto do abismo. Colocaram. Aí, avisei para não acelerarem. Aceleraram. Agora, não sou louco para assumir o volante", descartou Serra em conversa com tucanos. É por motivos assim que muita gente no governo acredita que a saída de Malan será só questão de tempo. Por enquanto, FHC mantém suas fichas no ministro da Fazenda, particularmente pelo seu excelente trânsito na comunidade financeira internacional. Tanto que, na mesma sexta-feira, Malan rumou para Washington na companhia de Chico Lopes para renegociar os termos do acordo de socorro firmado em novembro passado.

O fato é que o governo estava sentado sobre um barril de pólvora. Promessas não cumpridas e a insegurança na adoção de medidas de correção esfacelaram a confiança externa no País, que perdeu desde outubro US$ 40 bilhões de suas reservas. Na semana passada, estimava-se que o Banco Central tinha cerca de US$ 30 bilhões, não computados os dólares do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Antes mesmo daquela fatídica quarta-feira, quando Chico Lopes elevou o teto da banda cambial de R$ 1,22 para R$ 1,32, o mercado financeiro já tinha acendido o estopim. Na véspera, os dólares deixavam o País numa velocidade incomum. "Estou boquiaberto", espantava-se em Nova York Thomas Trebat, principal estrategista do Citigroup para mercados emergentes, ao ser informado que cerca de US$ 1 bilhão havia deixado o Brasil. "A crise de confiança agora também é interna." No dia seguinte, a mexida do câmbio levou à implosão do modelo econômico. Retardado em uma hora, o pregão da Bolsa de Valores e São Paulo (Bovespa) recuou 10% em 12 minutos e as operações foram paralisadas por meia hora. Ao final, a Bovespa perdeu 5,06% e US$ 1,2 bilhão saiu do País, menos que os US$ 4 bilhões previstos por analistas.

"A alteração no câmbio criou uma incerteza sem resolver uma incoerência", definiu o administrador de fundos Renato Soriano. "O Brasil fez uma aposta muito arriscada", completou Reinaldo Le Grazie, chefe da tesouraria do Lloyds Bank. "Quem decide agora é o mercado", previa o economista Jorge Simino, do Unibanco. Todos acertaram. A quinta-feira 14 foi caótica. Na queda-de-braço entre o Banco Central e o mercado financeiro escoaram para fora do País mais US$ 1,7 bilhão, o índice da Bovespa desabou outros 10%, os títulos da dívida externa voltavam a cair – um deles, o C-Bond, era negociado por 48% de seu valor de face. Estava claro que a estratégia de alterar lentamente a banda cambial não funcionaria mais.

 

Inflação de 8% E não faltavam críticos. Aqui: "Se o Brasil não ficar menos dependente do capital internacional, vai acabar em moratória técnica", atacava Luiz Inácio Lula da Silva, presidente de honra do PT. E no Exterior: "Esta desvalorização não vai adiantar nada. Trata-se de um blefe do governo brasileiro", lascava o eterno crítico Rodiger Dornbusch, professor do Massachusetts Institute of Technology. Segundo o jornal The New York Times, ao mesmo tempo que o vice-diretor do FMI, Stanley Fischer, e o secretário do Tesouro dos EUA, Robert Rubin, faziam ponderações com FHC, o governo americano escalou Lawrence Summers, adjunto de Rubin no Tesouro, para falar duro com Malan. Em coro, advertiram que o Brasil, se insistisse numa desvalorização limitada, corria o risco de queimar suas reservas sem conseguir aplacar os especuladores. Enfim, a equipe econômica jogou a toalha. Deixou a cotação do dólar oscilar na sexta-feira. "Fechou-se a porta do purgatório. Estamos entre o céu e o inferno", resumiu o deputado Antônio Kandir (PSDB-SP). Quem apostou contra o real, ganhou o céu. A reação do mercado foi de euforia. A Bovespa fechou em alta de 33,4%.

A alta do dólar tem seus efeitos negativos imediatos. Cerca de 21% da dívida federal está atrelada ao dólar e, em apenas três dias, subiu US$ 13 bilhões. A dívida das empresas brasileiras também cresceu em cerca de US$ 30 bilhões. Mas o pior é a ameaça da volta da inflação. "O Brasil pode terminar o ano com altas dos preços entre 5% e 10%, o que não seria tão mal", avaliou o economista Albert Fishlow. O agravamento da recessão também é outro efeito colateral garantido. "Estimava que o PIB fosse encolher 3%, agora acho que poderá chegar a uma queda de 5% em 1999", calcula o economista-chefe do Citibank no Brasil, Carlos Kawall. E o mais grave: espera-se também que as taxas de desemprego saltem dos atuais 7,5%, conforme dados do IBGE, para cerca de 12% ou 15%.

O governo fez, no entanto, uma avaliação positiva da crise. "A enorme disparada do dólar não aconteceu", disse, com alívio, Malan, depois de se reunir na tarde de sexta-feira com FHC. Depois de uma noite de tensão, Chico Lopes terminou o dia agradavelmente surpreso com a reação dos mercados. A equipe econômica estuda medidas complementares, como controle da entrada de dólares e taxação dos importados em 5%. É certo que o dólar seguirá com cotação livre na segunda-feira 18 e os juros não baixam tão cedo para conter a inflação. A maior preocupação, porém, é reforçar a idéia de que o câmbio não resolve os problemas. "Somente com o ajuste fiscal os juros poderão baixar", afirmou FHC, em rede de televisão na própria sexta-feira. Antes de gravar o pronunciamento, o presidente pediu ao líder do governo na Câmara, Arnaldo Madeira, que consultasse algumas fontes do mercado financeiro para saber qual era a avaliação da desvalorização do real. "Eles acham que estamos no rumo certo", reportou Madeira. Pela primeira vez na semana, Fernando Henrique pareceu tranquilo.

Colaboraram: André Vieira, Angela Klinke, Maria Fernanda Delmas e László Varga (SP); Osmar Freitas Jr. (NY)

 

Argentina na corda bamba

 

CLÁUDIO CAMARGO

Durante os anos de hiperinflação, os analistas costumavam usar a expressão publicitária "efeito Orloff" ("eu sou você amanhã") para designar as repercussões negativas que a instabilidade econômica da Argentina provocava no Brasil e vice-versa. A estabilidade dos dois países tirou o termo de moda, mas não a interdependência a que ele fazia alusão. Agora, o "efeito Orloff" volta a mostrar o ar de sua graça. A desvalorização da moeda brasileira deverá ter um forte impacto sobre a economia do país vizinho, porque vai encarecer os produtos argentinos exportados para o Brasil, principalmente nos setores automobilístico e de laticínio. Hoje, cerca de 33% das exportações da Argentina se destinam ao Brasil, um montante de US$ 8 bilhões. Até agora, a economia argentina tem resistido – as reservas, inclusive, cresceram de US$ 23 bilhões para US$ 25 bilhões. Mas já se teme que, se a desvalorização do real sair do controle, a Argentina terá que rever a rígida política cambial adotada pelo presidente Carlos Menem, que igualou o peso ao dólar. Refletindo o nervosismo com a crise brasileira, o índice Merval caiu 10% na quarta e 4,37% na quinta, embora tenha voltado a subir na sexta-feira 15 (+9%). No mesmo dia, o ministro da Economia da Argentina, Roque Fernández, admitiu que poderá ocorrer "um ataque especulativo à moeda argentina na próxima semana", mas garantiu que "é impossível que qualquer ataque contra o peso seja bem-sucedido". Já está com cara do Brasil de ontem.

LEIA MAIS: