Medicina & Bem-estar

A um passo da eternidade

Técnicas que permitem a fabricação de células para reparar órgãos doentes revolucionam a medicina e se juntam a um fabuloso arsenal que promete pôr fim a muitas das principais doenças do ser humano

O sonho de viver 100, 150 anos, sempre povoou os corações humanos como um desejo secreto, desses que não se contam para ninguém com medo de parecer ridículo. E chegar a essa idade com saúde parecia supremo delírio. Felizmente, não é mais preciso ter vergonha de sonhar. No futuro, o adjetivo "jovem" será coisa de um passado imperfeito. O futuro é o não envelhecimento. A perspectiva dessa boa nova está sustentada por pesquisas realizadas em todo o mundo, num esforço para garantir ao homem soluções contra as doenças que o castigam. As mais festejadas, anunciadas no final do ano, são de três grupos de cientistas, autores de descobertas que podem resultar no rejuvenescimento constante dos tecidos que compõem um organismo. Levantou-se pela primeira vez a possibilidade de seres humanos ganharem do relógio e também trocarem tecidos, órgãos e ossos como quem substitui carburador e pára-lamas de um automóvel.

Quem largou primeiro nesta corrida foi James Thomson, da Universidade de Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos. Ele conseguiu manter em cultura células-tronco embrionárias, as stem cells. As células-tronco são as pedras fundamentais na construção do organismo, comparáveis a tijolos na construção do edifício. Com tijolos é possível construir cozinha, sala. Com as stem cells, teoricamente, se podem fazer tecidos que compõem coração, fígado, medula óssea, glóbulos sanguíneos e toda a alvenaria humana. Por isso, os cientistas acreditam que, com elas, será possível desenvolver tratamentos para quase todas as doenças causadas pela morte ou doença das células. "Cultivadas em laboratório, elas seriam injetadas num paciente com problemas cardíacos, por exemplo. O próprio órgão do doente faria com que as células se desenvolvessem em novos e saudáveis tecidos do coração da pessoa", explica Thomas Okarma, vice-presidente de pesquisas da empresa privada californiana Genorn Inc., que financiou os estudos de dois dos grupos envolvidos.

A dificuldade para cultivá-las é que elas só permanecem como stem cells momentos antes de se transformar em "células especialistas", que vão, cada uma com suas características, criar os diversos tecidos do corpo. Mas a ciência parece ter superado esse obstáculo. John Gearhart, da Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins, de Baltimore, revelou que criou exemplares de células-tronco por meio de outro método. Gearhart isolou suas células-tronco a partir de outras células – já especialistas – provenientes de tecidos de feto humano, que iriam formar óvulos ou esperma. "A partir dessas técnicas, um farto suprimento de células-tronco irá provocar uma revolução na medicina de transplantes", disse Gearhart a ISTOÉ.

O problema é que os estudiosos ainda não conseguem controlar a diferenciação (a evolução natural das células-tronco para células especialistas). "Cientistas conseguiram progresso implantando células-tronco de camundongos. Mas temos muitos anos pela frente até que se consigam os mesmos resultados com células humanas", lamenta Thomson. Outra dificuldade para a aplicação das células-tronco é a rejeição, já que elas seriam feitas a partir de outro material genético. "Podemos tentar injetar na célula material genético do próprio doente", explica Jon Odorico, do grupo de Thomson. Outra solução seria criar um banco com vários tipos de células embrionárias que desse conta da diversidade genética entre o ser humano.

Todas essas barreiras, entretanto, podem ter ido abaixo. Um grupo de pesquisadores americanos disse ter conseguido criar células-tronco a partir da fusão de células humanas com óvulo de vaca. Caso seja comprovado, o trabalho driblará a rejeição e ainda terá a vantagem de vir de uma fonte inesgotável: a população bovina. Quem primeiro ousou este experimento foi o argentino Jose Cibellis, da Universidade de Massachusetts. Em 1996, usando 52 exemplares de suas próprias células, Cibellis as fundiu com óvulos bovinos cujos núcleos e DNA (material genético) tinham sido retirados. Segundo Jim Robl, parceiro de Cibellis, um dos embriões cresceu e se dividiu cinco vezes, gerando células-tronco embrionárias. A vantagem do método é contar com material genético da própria pessoa.

As pesquisas com as células embrionárias prometem, portanto, um futuro praticamente sem doenças. Mas em medicina não se pode apostar em uma única saída. É enorme a quantidade de estudos realizados a cada dia para dar fim a problemas sérios e assustadores, como câncer, Aids, diabetes e obesidade. E muitos deles são tão promissores como esse realizado pelos cientistas americanos. "Do jeito que a ciência avança, não tenho dúvidas de que o ser humano poderá viver 150 anos até 2050", afirma o clínico Wagner Fiori, especializado em medicina ortomolecular. "Em 1796, a vida média era de 24 anos, em 1896 passou para 48 anos e em 1996, para 70. É só fazer a projeção", diz. Conheça algumas das técnicas que estão sendo estudadas e prometem deixar o homem a um passo da eternidade.

 

CORAÇÃO
Compasso bem mais afinado

A cada ano, cerca de 2.600 americanos trocam de coração em hospitais especializados em transplantes. Neste exato momento, nos Estados Unidos, uma média de quatro mil pessoas espera por doadores. Esses números trágicos, porém, devem diminuir a cada ano que passa. Os avanços no tratamento de moléstias cardíacas são tantos que é possível se imaginar o próximo milênio quase livre desse perigo. Pegue-se, por exemplo, o modo quase corriqueiro como, no início de novembro, uma equipe de cirurgiões do Cornell University Medical College, nos Estados Unidos, anunciou ter usado a engenharia genética numa operação de ponte de safena. Os médicos simplesmente fizeram com que vasos sanguíneos crescessem no coração do paciente. Essa técnica (chamada de angiogenesis) é uma das mais promissoras para se substituir as complicadas e perigosas cirurgias de peito aberto. "Os candidatos mais apropriados para a angiogenesis são aqueles pacientes com o coração tão abalado pela doença que o sangue já não consegue circular normalmente", diz Maxwell Miller, professor da Cornell University.

Outro avanço é no tratamento da arritmia – o desvio da normalidade das contrações cardíacas. Milhões de pessoas sofrem desse mal e milhares delas morrem por isso. Agora, pesquisadores da Utah University, também nos Estados Unidos, descobriram mutações genéticas hereditárias que alteram o equilíbrio eletroquímico do coração. Isso seria a causa da desarmonia nas contrações cardíacas. Através de novos testes, é possível descobrir que indivíduos são portadores desse tipo de gene e o tratamento pode começar antes que uma situação mais grave ocorra. E também com base nessas informações os laboratórios estão desenvolvendo novas drogas contra arritmia. Isso é apenas um exemplo que mostra claramente que as técnicas envolvendo a genética estão decididamente revolucionando as terapias cardíacas.

 

CÂNCER
Suplício do passado

 

Dentro de 15 anos, o câncer será lembrado como a doença do século passado. Essa é o opinião da oncologista Nise Yamaguchi, vice-presidente da Associação Brasileira de Cancerologia. "Acredito que a rapidez de aquisição de conhecimento possibilitará descobrir todos os mecanismos das células tumorais. Com isso chegaremos à cura do câncer. Daqui a 15 anos, a doença será quase totalmente eliminada", assegura. O otimismo da médica é justificado. Algumas estratégias de tratamento que estão sendo estudadas mostram resultados bastante animadores. A terapia da diferenciação celular é um exemplo. Os cientistas usam uma substância chamada retinóide, proveniente de vitamina A, para fazer com que as células doentes se transformem em células sadias. Dessa forma, as células tumorais perdem sua inesgotável capacidade de proliferação – o que caracteriza o câncer – e, com o tempo, acabam morrendo, como acontece com as células normais.

Outra linha de tratamento que entusiasma é a terapia genética. Existem genes capazes de provocar o aparecimento de um câncer e outro que combaterá essa espécie de gene mau. A doença se desenvolve quando acontece uma deficiência no gene guardião, chamado supressor. A terapia genética pretende consertar esse erro colocando dentro da célula tumoral esse gene supressor. Ele, então, determinará a produção de substâncias que combaterão e matarão o câncer. A quimioterapia – uso de drogas que destroem o tumor – também se aperfeiçoa e, no futuro, promete causar menos efeitos colaterais. Hoje, o tratamento provoca, entre outras coisas, queda de cabelo, vômito e muita indisposição. Agora, estão-se criando remédios que cada vez mais atingem somente as células doentes, preservando, dessa forma, as células sadias. Além disso, há esperança também já no diagnóstico. Espera-se que, nos próximos anos, os métodos de detecção da doença se sofistiquem ainda mais. E, como se sabe, quanto mais cedo o câncer for descoberto, mais fácil para o organismo derrotá-lo.

 

OBESIDADE
A solução está nos genes

O tratamento para a obesidade deverá vir das descobertas genéticas. Com a conclusão do Projeto Genoma, prevista para 2005, a maioria dos genes humanos estará mapeada. Assim, será possível detectar o que causa a obesidade e, a partir daí, tratá-la. "Muitos genes já descobertos nos levam a tratamentos da obesidade e de doenças relacionadas", afirma o médico Walter Staller, do Obesity Research Institute, um centro de tratamento de obesidade no Arizona, Estados Unidos. Na última década de pesquisas, os cientistas descobriram uma variedade de genes que são responsáveis pela obesidade em ratos, camundongos e outros roedores. Mas já foram verificados outros genes em seres humanos. "Descobriu-se que uma mutação do gene leptina era a causa da obesidade num par de primos paquistaneses", exemplifica o médico Steve Lamm, autor do livro Enfim magro e dietista das celebridades americanas. "Além disso, num caso de três irmãs francesas, o mesmo gene era responsável por um quadro de imaturidade sexual e obesidade", afirma. Recentemente descobriu-se uma nova anormalidade genética que pode ser responsável pela causa da obesidade em 4% de algumas populações. "Esse gene, peroxisome-proliferator-actuated receptor (ou PPARy2), contribui para a obesidade mandando sinais para que o organismo faça mais células de gordura. Há laboratórios tentando compor inibidores para o PPARy2."

As companhias farmacêuticas estão até mesmo se unindo num esforço para desenvolver medicamentos para o tratamento da obesidade, seja qual for a causa do mal. E as terapias genéticas parecem ter sido mesmo as escolhidas como armas mais potentes do arsenal nessa guerra. Algumas dessas armas são apenas versões de antigos medicamentos, mas outras representam novas descobertas e soluções. O problema é que pode demorar entre 10 e 20 anos para que uma nova droga chegue ao mercado. Algumas, porém já estão em fase mais adiantada e representam grandes promessas. "A obesidade é um mal que atinge entre 30% e 40% da população americana. E, sendo assim, os laboratórios estão numa corrida desenfreada para encontrar tratamentos efetivos para o problema. Tenho esperanças de que em mais dez anos teremos praticamente vencido esta batalha.", afirma Staller.

 

AIDS
Xeque-mate mais perto

alar em cura para Aids hoje soa como irresponsabilidade, mas em 15 anos talvez se esteja perto de festejar essa vitória. É o que esperam os pesquisadores que se esforçam para dar o xeque-mate no HIV, o vírus que provoca a doença. E eles estão quase lá. Os remédios disponíveis atualmente, que integram o chamado coquetel, diminuem em até 99% a quantidade de vírus no organismo. E contra o 1% restante estão sendo testadas diversas estratégias. Uma delas é o uso de substâncias capazes de fazer com que este vírus, que está "escondido" no corpo, apareça. Assim, ele fica vulnerável ao ataque das drogas e, portanto, passível de ser destruído. O HIV também está sendo cercado pelos novos remédios em desenvolvimento. Hoje, os que estão disponíveis bloqueiam duas das etapas da reprodução do vírus. Agora, estão sendo pesquisados os inibidores de integrase, enzima que atua na fase intermediária de multiplicação do vírus. "Era a etapa que faltava para o combate ao HIV ser mais eficaz", diz o infectologista Celso Granato. Alguns pesquisadores apostam ainda numa vacina eficiente contra o HIV. Afinal, a Aids é uma das doenças mais estudadas do mundo e muitos afirmam que será possível driblar a mutação constante do HIV.

 

CÉREBRO
Reparo nos neurônios

A evolução do conhecimento sobre o cérebro na última década permite prever boas perspectivas para as doenças que afetam o órgão. As chances de se obter a cura do mal de Parkinson, por exemplo, são grandes. Hoje sabe-se que a doença é causada pela deficiência dos neurônios que produzem a dopamina, neurotransmissor responsável pela comunicação entre várias partes do cérebro. Sem a substância, o cérebro não consegue comandar a musculatura e há tremor, rigidez e dificuldade de movimentos. Substituir as células nervosas danificadas por meio de implante de células embrionárias novas é, portanto, uma das técnicas mais promissoras. "Se o enxerto pegar bem estará resolvido o problema, mas precisaremos esperar para ver se esse corpo estranho não provocará reações", pondera o neurologista Henrique Ballalai Ferraz, professor da Universidade Federal do Estado de São Paulo. Novas pesquisas já estão se encarregando de encontrar uma solução para o problema. Em poucos anos deverá estar concluído um estudo que usa a engenharia genética para modificar o código de células do próprio organismo para que elas passem a produzir dopamina.

O mal de Alzheimer, doença degenerativa que leva à demência, também é um dos problemas mais pesquisados da última década. Por isso, a previsão é a de que alguém que entre em um consultório médico com sintomas como a perda de memória dentro de 15 anos poderá sair de lá com um medicamento que evite a progressão do quadro. "Quando se compreender as causas e os mecanismos da degeneração cerebral será possível chegar a uma droga que corrija o problema", diz, otimista, o neurologista Paulo Caramelli, do Hospital das Clínicas de São Paulo. E muita coisa já se sabe. Foram localizados genes relacionados a formas familiares e raras da doença e outros que atuam como fatores que aumentam a suscetibilidade. A partir disso, as pesquisas poderão centrar fogo na tentativa de entender os danos que esses genes provocam e como evitá-los por meio de drogas. Outras pesquisas pretendem tornar viável o uso de substâncias como o fator de crescimento neural, que estimulam o crescimento de neurônios. Isso porque, assim como o mal de Parkinson, o Alzheimer também está associado à redução de um neurotransmissor – no caso, a acetilcolina – produzido por neurônios.

 

DIABETES
Transplante sem rejeição

A melhor perspectiva para a cura do diabetes também vem das células embrionárias. Implantadas no pâncreas dos diabéticos tipo 1 (os que dependem da insulina), essas células compensariam a deficiência desses doentes porque aprenderiam a fabricar insulina, substância responsável pela quebra da glicose. Hoje, uma das opções de tratamento é o transplante de pâncreas, mas não é tão eficaz porque existe risco de rejeição. "Com as células fetais, o paciente recuperaria a insulina com menor chance de rejeição, que obriga o transplantado a tomar medicamentos debilitantes do sistema imunológico", explica Antônio Carlos Lerário, secretário-geral da Sociedade Brasileira de Diabetes. Os dependentes de insulina poderão comemorar mais cedo o fim das agulhas. Em poucos anos estará no mercado a insulina em spray e os aparelhos que medirão o nível de glicose por meio de sensores, sem que o doente precise espetar o dedo para colher uma amostra de sangue. Para os diabéticos do tipo 2, que produzem insulina, mas não conseguem aproveitá-la bem, as esperanças estão nas novas drogas capazes de potencializar a ação da insulina disponível.

Colaboraram: Carla Gullo, Cilene Pereira, Cláudia Pinho e Kátia Stringueto

 

Vitória da prevenção

 

O futuro também é promissor no que toca à prevenção de doenças infecto-contagiosas. Nos últimos anos, foram desenvolvidas vacinas para combater doenças importantes, como sarampo, catapora, meningite por haemophillus, hepatite A e B. Outras doenças praticamente sumiram da face da Terra, como a poliomielite e a varíola. Para o próximo ano, espera-se a chegada no Brasil da vacina contra rotavírus, a principal causa de diarréia em crianças, e também uma vacina mais eficaz contra pneumonia. A que existe hoje só é eficiente para crianças acima de dois anos, por causa do sistema imunológico pouco desenvolvido. "Essa nova vacina vai ajudar também a proteger contra otite e sinusite", diz o pediatra Pedro Takanori Sakane, do Hospital das Clínicas de São Paulo. Outra boa nova para os pequenos será uma vacina contra um vírus que leva à bronquiolite – uma doença mais grave do que a bronquite. Não bastasse, espera-se para daqui a cinco anos uma proteção mais eficaz para tuberculose, já que a BCG não é tão eficiente. "Em no máximo dez anos haverá vacina para grande parte das doenças infecciosas", afirma Sakane.

Algumas delas, entretanto, são mais difíceis de se produzir. Um exemplo é a da dengue. Há três tipos de vírus que provocam a doença. Hoje, existe uma vacina somente contra o tipo dois. Mas não pode ser aplicada porque, como a vacina nada mais é do que a colocação do vírus atenuado no organismo, fica-se protegido contra esse tipo de dengue, mas se se contrair um outro tipo corre-se o risco de ter a dengue hemorrágica – que acontece quando há reincidência de contágio. "O que se tenta descobrir é o ponto comum entre os três tipos de vírus. Depois disso, fica mais fácil produzir a vacina", explica Sakane. Outra doença que se tornou um desafio para os cientistas é a hepatite C. Nos últimos anos, o mal cresceu muito e nos Estados Unidos já está sendo considerado um problema de saúde pública. Infelizmente, por enquanto não há um estudo que possa prever quando virá a vacina contra o vírus. "A hepatite C é uma doença considerada nova, portanto é preciso mais tempo para combatê-la", diz o infectologista Marcos Boulos, do Hospital das Clínicas de São Paulo. De qualquer maneira, os estudos para essa e outras doenças infecciosas avançam e não param. "A vacina é a maneira mais barata e eficaz de se combater uma doença infecto-contagiosa", lembra Sakane. "Vai chegar um dia em que uma criança sairá do berçário vacinada contra vários males", aposta. É esperar e torcer.