Comportamento

Heróis eternos

Ayrton Senna, Che Guevara, Renato Russo, Beatles e tantos outros se imortalizaram por conta de seu talento, determinação e valores como solidariedade. E, hoje, onde estão nossos ídolos?

No domingo 21, Ayrton Senna da Silva completaria 44 anos. Completaria. Não fosse aquela curva no meio do caminho. O brutal choque contra o muro da Tamburello completará uma década no próximo 1º de maio. O desaparecimento precoce do piloto, aos 34 anos, provocou um vazio na alma dos brasileiros. Senna, um Silva que simbólica e tragicamente morreu no Dia do Trabalho, foi o último grande catalisador coletivo de emoção nacional. O derradeiro herói de um povo que, aos domingos, pulava da cama cedo, atrás de uma dose de esperança para a dura batalha semanal. Os dez anos sem Senna serão lembrados numa série de eventos.

A começar pelas homenagens ao tricampeão de Fórmula 1, 2004 poderia ser eleito o ano da veneração ao ídolo morto. Além de Senna, o revolucionário cubano-argentino Che Guevara e os músicos Renato Russo e Cazuza ressurgirão nas telas de cinema e em lojas de discos. O lançamento mais esperado é Diários da motocicleta, a nova produção de Walter Salles. O road-movie mostrará um Che jovem em seu périplo pela América do Sul. Não bastasse o filme, chegará às livrarias em abril Vida, morte e ressurreição do Che, um relato do médico e jornalista Reginaldo Ustariz Arze, o primeiro a denunciar ao mundo o assassinato do guerrilheiro. A rebelde melancolia de Renato Russo será mais uma vez ouvida em As quatro estações ao vivo, registro em CD de um show da Legião Urbana gravado no Parque Antarctica, em São Paulo, em 1990. Para o mês de junho está prevista a estréia de Cazuza – o filme, de Sandra Werneck e Walter Carvalho, uma cinebiografia do gênio tresloucado, autor de petardos carregados de poesia e emoção, como as canções Todo o amor que houver nessa vida e Ideologia.

Mas a grande estrela do ano é Ayrton Senna. É impressionante como, dez anos após sua morte, o tricampeão continua despertando sonhos. A ponto de até mesmo quem só o viu em vídeos e DVDs o apontar como ídolo. De fato, assim como Che e tantos outros mitos Senna reúne algumas características peculiares: garra, espírito de liderança e capacidade de superar limites. Por tudo isso, tornou-se uma figura distinta e atingiu o olimpo do reconhecimento. Denise Gimenez Ramos, psicóloga e professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), explica que ídolo é aquele que quebra um padrão coletivo de comportamento. “É o personagem que dá um passo à frente, que tem coragem para desafiar a ordem vigente”, diz. Com muito trabalho, obstinação e talento, ainda muito jovem Senna conseguiu brilhar no circuito mundial. E logo na Fórmula 1, a categoria top do automobilismo mundial. Essas características levaram muita gente a ver em Senna um modelo a ser seguido. “O herói mostra algo que às vezes está dentro dos indivíduos. Faz brotar sentimentos escondidos. As pessoas vão no embalo, tentam imitá-lo”, diz Denise.

Garra – Obviamente não se vêem milhares de Sennas por aí. Mas a sua trajetória de garra e determinação deve ter feito muita gente se mexer na cadeira. O tricampeão pilotou na contramão do estereótipo do brasileiro preguiçoso, acomodado. Aquele que, em vez de ir atrás de seus objetivos, fica esperando ajuda da divina providência. Para o psicanalista Fábio Hermann, de São Paulo, Senna teve o mérito de sonhar mais alto que a maioria dos brasileiros. “Sempre nos consideramos inferiores e, naquele momento, ele foi uma resposta à nossa baixa auto-estima. Ele provou que um de nós poderia, sim, vencer no Primeiro Mundo”, diz. Uma passagem da vida do piloto revela sua extrema dedicação. Ainda adolescente, ele disputou uma corrida de kart debaixo de forte chuva. Rodou várias vezes na pista e acabou a prova entre os últimos. Determinado a nunca mais passar por esse vexame, ao mínimo sinal de garoa pegava seu capacete e voava para os treinos no kartódromo de Interlagos. Por meses a fio, treinou repetidas vezes em pista molhada. Anos depois, venceria inúmeras corridas sob tempestade cerrada, o que renderia o apelido de “O rei da chuva”.

Pode-se dizer que Senna, Pelé e Ronaldo são os únicos ídolos brasileiros reconhecidos mundialmente. Não há, por exemplo, um grande ídolo histórico ou político amado pela maioria da população. Zumbi dos Palmares, por exemplo, só é visto como herói pela comunidade negra brasileira. Tiradentes, apesar de ter morrido em nome da Independência, só é lembrado no feriado de 21 de abril. Nem mesmo os ídolos do século XX pareciam interessantes. Santos Dumont é mais idolatrado na França do que aqui. “O País carecia de personagens históricos, míticos. A falta dessas figuras gerava uma espécie de carência coletiva”, diz a psicóloga Denise. A morte de Senna aos 34 anos – a juventude é ingrediente essencial na construção do mito – causou uma comoção que o elevou a uma condição de semideus.

Historicamente, o desaparecimento trágico
do herói potencializa sua imagem póstuma.
A morte no campo de batalha, em plena
luta, eterniza a imagem do guerreiro que exauriu suas forças. Na Grécia Antiga, esse sacrifício era chamado de Sparagmos, o “despedaçamento do mito”. Cristo morreu na cruz. A guerreira Joana D’Arc, queimada na fogueira da Inquisição. Guevara, metralhado nas selvas da Bolívia. Na opinião de Murilo César Soares, professor de sociologia da comunicação na Unesp, mortes espetaculares, que interrompem trajetórias no seu auge, contribuem para a eternização do herói. Esse elemento dramático comove”, diz Soares.

A trajetória do garoto que entrou pela primeira vez em um kart aos quatro anos de idade, teve uma avassaladora passagem pelas categorias de base do automobilismo inglês, chegou à Fórmula 1 aos 24 anos e se tornou tricampeão mundial aos 31 foi amplamente documentada pelos meios de comunicação. Mas, apesar da exposição, Senna conseguiu manter uma certa aura de mistério em torno de sua personalidade. Esse requisito é visto como fundamental para a manutenção do interesse sobre o ídolo. Pouco se sabia sobre as andanças do comandante Guevara quando ele e seus guerrilheiros semeavam a revolução nas selvas da África e da América do Sul. Essa tática, fundamental numa guerrilha, fustigava a imaginação daquela geração em transe dos anos 60 e o tornava uma lenda. Mesmo ídolos pops como Renato Russo e Cazuza, por exemplo, sempre guardaram segredos e mantiveram algumas portas fechadas à curiosidade coletiva. Ao contrário, por exemplo, de Michael Jackson. O cantor é tido como modelo de pop star que foi engolido pela impiedosa indústria do show biz. Não soube desvincular a fantasia do real e se perdeu nas inúmeras armadilhas da indústria do pop. Para o publicitário Washington Olivetto, um notório especialista em imagem, o desmedido desejo de estar sempre sob os holofotes é o atalho mais rápido para a derrocada. “É preciso saber administrar a biografia. Preservar detalhes da intimidade e recusar projetos que não estejam de acordo com o que se acredita. Não dá para mudar de opinião ao sabor do vento. O ídolo não é só a imagem, talento e trabalho de marketing. É a junção da figura pública com a verdade que ela passa”, diz. Olivetto, inclusive, é o responsável pela estratégia promocional do primeiro CD de Maria Rita, filha do mito Elis Regina.

O clamor por figuras que conduzam a massa fez com que alguns considerassem a jovem cantora apta a ocupar imediatamente o posto da mãe. Pode até ser que isso venha a acontecer. Mas o que se tem é a impressão de que hoje não há mais personalidades com carisma e talento suficientes para atingir tal status. A superexposição, que acaba provocando o desgaste, a banalização da imagem, é certamente uma das razões para essa ausência. Mas certamente não a única. O professor do departamento de história da Universidade de São Paulo (USP) Elias Saliba aponta o exacerbado individualismo e a falta de utopia como elementos determinantes para a ausência de indivíduos geradores de atração. “Não temos mais propósitos coletivos. Como diz Eric Hobsbawm (historiador, autor do célebre livro A era dos extremos), nos anos 60 os nossos propósitos individuais estavam diluídos nos coletivos. Vivemos numa sociedade que não tem utopia. Faltam perspectivas de futuro”, diz Saliba.

Os efeitos dessa falta de modelos ainda não foram plenamente sentidos. Mas alguns sinais começam a aparecer. O imediatismo é um deles. “Essa geração quer satisfazer seus desejos de uma forma muito artificial. Não há vontade
de construir estruturas sólidas e determinadas. É tudo meio vazio”, diagnostica Fábio Hermann. O psicanalista ainda identifica um outro fator, bastante curioso por sinal, elemento revelador dessa geração big brother: “Como não há um foco muito nítido, busca-se apego em outras coisas. Uma que me chama a atenção é o culto exagerado ao corpo. Não se quer simplesmente habitá-lo, mas tratá-lo como espetáculo. Há uma obsessão pelo físico perfeito. Nesse aspecto, ironicamente voltamos à Grécia Antiga. Mas sem o estofo intelectual que marcou aquela época.”

Mesmo num mundo carente de ideologia e utopia surgem figuras que despertam admiração e
desejo. Os Rolling Stones, que surgiram nos efervescentes anos 60, continuam rolando suas pedras com dignidade. Na terceira década de carreira, Madonna segue absoluta no posto de musa do pop. O Brasil também produz suas figuras carismáticas, atraentes. Sandy, Gisele Bündchen e Zeca Pagodinho arrebanham milhares de fãs e – o que seria um desespero para o comandante Che – alimentam um expansivo mercado. Afinal, são ídolos dos novos tempos. O caso
de Sandy e Junior é exemplar. Vindos de uma família de músicos, os irmãos cresceram apregoando valores como a união fraterna, o respeito às regras e o bom comportamento. Mesmo durante a adolescência, quando é comum o filho desafiar os pais, Sandy continuou propagando a
sua castidade e seu amor à
família. Como efeito disso, permaneceu popular entre as crianças e
pré-adolescentes. Apesar da queda de vendas dos últimos CDs, continuam um sucesso comercial. A dupla tem cerca de 300 produtos com seus nomes, que movimentam R$ 300 milhões.

Entre o público feminino Gisele Bündchen reina absoluta. Nos últimos anos, ela soube construir a imagem de uma mulher que subiu na vida com o próprio esforço, conquistou o namorado ideal, o galã Leonardo di Caprio, e ainda está de bem com a própria imagem. É o que toda mulher de vinte e poucos anos, público-alvo das indústrias de moda e de cosméticos, gostaria de ser. Marcos Saraiva, proprietário da agência de licenciamentos Marcas, afirma que grifes como a Grendene ou a C&A contratam Gisele porque sua imagem vende. “Nas áreas de vestuário e beleza, ela é imbatível: tem carisma e credibilidade para convencer qualquer pessoa a comprar um produto”, analisa Saraiva. Além de ser fonte de lucro, ela causou um boom nas agências de modelos. Todas querem ser Gisele.

Décadas atrás, este desejo recaía sobre alguns jovens que começavam a mudar a música brasileira. Até hoje, eles são admirados por quase três gerações. Já dizia Belchior, na música Como nossos pais, imortalizada na voz da Elis Regina: “Nossos ídolos ainda são os mesmos.” Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Roberto Carlos são, sem sombra de dúvida, referências de bom gosto e criatividade. São artistas que cresceram num mundo em que a palavra celebridade queria dizer pouca coisa e calcaram sua trajetória no sonho e no talento. Assim como o eterno Ayrton Senna.
A expressão de um Brasil que deu certo
     
      “Não quero lembrar a morte do Ayrton, mas resgatar os valores que fizeram dele um campeão”
São tantas as homenagens que para
estar presente em todas,Viviane Senna
vai precisar ser tão rápida quanto o irmão.
O ano será marcado por vários eventos em memória de Ayrton. Além do Senna in concert, no estádio do Pacaembu, em São Paulo, outro ponto alto da programação será a exposição Ayrton Senna do Brasil. Na mostra, que passará por São Paulo, Curitiba e Rio de Janeiro, os visitantes poderão interagir com objetos do piloto e até sentir a emoção num F-1 virtual. Nesta entrevista, Viviane, à frente do Instituto Ayrton Senna, que em quase dez anos de atuação realizou ações que beneficiaram mais 3,9 milhões de crianças, fala do legado deixado por Beco, o apelido de Senna.

ISTOÉ – Quem seria Ayrton Senna hoje?
Viviane Senna – Nas pistas, ele teria sido tetra, penta, hexacampeão mundial da Fórmula 1. Fora delas, acho que teria ampliado a sua participação no projeto de mudança do País. Ele queria muito que o Brasil desse certo. Prova disso foi o desejo de criar o Instituto.

ISTOÉ – O que fez de Senna um mito?
Viviane – Ele atingiu coletivamente as pessoas. Mas não foi só o piloto que as tocou. Elas admiravam o homem. Cada vitória dele tinha uma carga muito grande de trabalho e determinação. O Ayrton mudou a cultura da Fórmula 1. O Gerhard Berger (ex-companheiro de Senna na Mclaren) me contou que uma vez ele ligou nas férias para o Ayrton e perguntou: “E aí. O que você está fazendo?” O Ayrton respondeu. “Estou correndo, me exercitando.” Aí o Berger soltou um palavrão e disse “Pô, vou ter que correr também…”.

ISTOÉ – Qual a maior lição que Senna deixou para o Brasil?
Viviane – Ele realizou os seus próprios potenciais. O Brasil tem um potencial imenso, mas ainda não conseguiu utilizá-lo. Para transformá-lo em realidade é necessário trabalho, disciplina, determinação e oportunidade.

ISTOÉ – Em 1º de maio completa-se uma década da morte
de seu irmão. Por que a primeira homenagem foi no dia
do aniversário?
Viviane – Não quero lembrar a morte do Ayrton, mas resgatar os valores que fizeram dele um campeão, num espelho para o País.

ISTOÉ – Qual era o defeito do Ayrton?
Viviane – O defeito às vezes é a potencialização de uma qualidade. E isso pode atrapalhar. Exigia 300% dele e 300% das pessoas.

SEXY
sensual até o último fio de cabelo, Marilyn Monroe vendia a imagem de burra e materialista. Conquistou o então presidente John F. Kennedy, mas morreu sozinha em sua cama, vítima de overdose de medicamentos           REBELDE
Com letras incendiárias e cara de quem foi expulso do colégio, Mick Jagger incitava os fãs a quebrar todas as regras. À frente dos Rolling Stones, provou que ser careta não está com nada          

OUSADA
Nos anos 80, Madonna chocou ao mexer com tabus como virgindade e religião. Camile Paglia disse que ela contribuiu tanto ou mais para a emancipação das mulheres do que as feministas
 
   
PIONEIRO
Nascido na segregacionista Memphis, no Tennessee, Elvis Presley foi o primeiro artista branco com voz e suingue de negro. Tornou-se o rei do rock’n’roll e conquistou status de lenda          

VISIONÁRIOS
Com cabelos compridos e músicas que falavam de amor e sexo, os Beatles ajudaram a enterrar a mentalidade repressora dos anos 50. Eles liberaram a juventude para amar e ser alegre