Cultura

O cão como metáfora

Em Timbuktu, Paul Auster cria uma boa fábula sobre um vira-latas humano e outro canino

Transformar animais domésticos em protagonistas de romances não é exatamente uma idéia original, mas Paul Auster se lança à empreitada com sucesso em seu mais recente romance Timbuktu (Companhia das Letras, 354 págs., R$ 29,50). Trata-se da história da amizade entre dois vira-latas, um canino e outro humano – Mr. Bones e Willy, dois deserdados sociais, dois perdidos no território hostil da pragmática cena americana.
O próprio Auster dá a chave ao falar do “cão como emblema dos oprimidos”, ainda que Bones seja “real pra cachorro”. O forte do romance, então, não está nos seus aspectos estritamente “caninos”, mas no talento abulativo de Auster, em sua capacidade de criar personagens com histórias patéticas, cheias de coincidências que se entrelaçam com as de outras personagens do enredo. A rigor, com uma ou outra alteração, os diversos monólogos de Willy poderiam figurar em outros livros de Auster, como Palácio da lua ou A música do acaso.

Isso quer dizer que Paul Auster se repete? Sim, mas é uma repetição de alta qualidade. O impacto de seus “truques” como escritor diminui a cada novo livro, mas não a verdade interior de suas histórias. Talvez não seja o grande renovador da ficção americana que se esperava, mas é o que mais se aproxima.

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