Comportamento

Casamento ou… tesão?

Em seu livro, Conversas na varanda, a sexóloga Regina Navarro Lins diz que todo casal acaba virando irmão

A psicanalista e sexóloga carioca Regina Navarro Lins tem teorias pouco convencionais. Para começar, acha que casamento e tesão são incompatíveis. Fidelidade, ela decreta, não existe. Regina, com dois casamentos desfeitos, uma filha de 24 anos e uma neta de dois, aconselha os parceiros a partirem para outra ou, como diz, pendurarem as chuteiras da sexualidade e viverem como irmãos. Em 1995, ela reuniu parte dessas idéias no livro A cama na varanda, que está na sétima edição. Ano passado, escreveu Na cabeceira da cama, já na terceira edição. Regina acaba de colocar nas livrarias sua terceira obra, Conversas na varanda, uma coletânea de artigos e entrevistas. A sexóloga dedica-se a palestras e workshops pelo Brasil. Ela falou a ISTOÉ em seu apartamento e consultório, em Copacabana, no Rio.

 

ISTOÉ Quais as queixas mais frequentes que chegam a seu consultório?

Regina Navarro Lins –O problema que eu mais escuto em 26 anos é a falta de tesão no casamento. Muitos casais continuam se amando. Mas é difícil entenderem que amor e sexo são coisas distintas. Isso acontece com a imensa maioria dos casais. Quanto mais aumenta o carinho, a solidariedade, a amizade, mais diminui o tesão. O lugar onde se faz sexo de pior qualidade é o casamento. É o sexo burocrático.
 

ISTOÉO casamento então é a antítese do tesão?

Regina – Os casamentos encurtaram depois que o amor entrou na história. Durante muitos séculos, as uniões duravam porque não existia expectativa de romance ou de prazer sexual. Ninguém se decepcionava. O marido tinha de prover e respeitar. A esposa tinha de ser boa dona de casa e boa mãe. No momento em que se passou a procurar realização afetiva e prazer, o casamento melou.
 

ISTOÉ A sra. aconselha as pessoas a não se casarem?

Regina – Acho que o casamento é a pior maneira de se relacionar a dois. Mas cada um escolhe o que quer. Se estiver feliz vivendo como irmão…
 

ISTOÉ A infidelidade pode ajudar o casamento?

Regina – Fidelidade ou infidelidade não passam pela sexualidade. Já tive paciente que falava mal do marido, mas nunca traiu, e conheço pessoas que estão casadas porque curtem estar junto com o parceiro, fazer sexo com ele, mas acham que transar com outro não desrespeita o casamento. Fidelidade não existe. Você pode até se reprimir, mas o desejo existe. Acho que abrir mão de um desejo é pior para o casamento do que uma relação extraconjugal. Não era preciso que o príncipe Charles ou o Bill Clinton mostrassem no fim do século que fidelidade é ficção.
 

ISTOÉEstamos transando bem?

Regina – A mulher quer corresponder à expectativa do homem, ajustar sua imagem ao que ela imagina que seja o desejo do homem. E ele vai para a cama com ansiedade, para cumprir um papel. Tive um paciente que queria se matar aos 26 anos porque broxou três vezes. O homem ainda faz sexo com medo de falhar. Então ele é rápido e só precisa de 20 a 30 centímetros cúbicos de sangue para irrigar seus órgãos genitais. A mulher precisa de três vezes mais tempo do que o homem para estar no mesmo nível de excitação. A mulher não tem orgasmo algum e muitas vezes tem cistite. As pessoas não têm noção do que é um bom sexo.
 

ISTOÉ O que é o bom sexo?

Regina – O sexo no Ocidente é muito ansioso. É preciso ir para a cama sem pressa, sem a idéia de ter de cumprir uma missão, sem vergonhas e preconceitos. Sem a preocupação de ter orgasmo. Quando o objetivo é procriar, sexo não tem problema. Quando o que se busca é o prazer, o sexo é um aprendizado. A pior pessoa de cama no mundo é o machão, porque ele não se entrega às sensações.
 

ISTOÉ Depois dos anos 60 e 70, buscamos hoje mais estabilidade?

Regina – Não acredito que as pessoas optaram contra a liberdade sexual. A contracultura propunha uma evolução espiritual pela liberdade sexual. O sistema se apoderou desse movimento. Jogou na televisão um sexo de baixo nível, a pornografia. Isso é um golpe para reprimir a liberdade sexual e ela foi aprisionada novamente. Poucos transam com naturalidade. Como se pode transar bem numa cultura em que todas as ofensas e palavrões são ligados a sexo?
 

ISTOÉ Qual foi o impacto da Aids no sexo?

Regina – Em toda a história da humanidade, o sexo só foi livre no perído entre a pílula e a Aids. Existe uma negação da doença. Todo mundo sabe que ela é contagiosa e fatal. No entanto milhares de mulheres aceitam transar sem camisinha. Mesmo que elas exijam camisinha, depois de um mês de namoro já liberam. Mas não foi só a Aids que travou a liberdade sexual. Houve um movimento de repressão do sexo. Um dos problemas da Aids hoje são os maridos que têm relações bissexuais e contaminam suas esposas. A culpa não é da bissexualidade, é da monogamia hipócrita que faz o homem não usar camisinha com a mulher em casa.
 

ISTOÉ A sra. diz em seu livro que nunca foi tão fácil ser só. Mas muitas mulheres se queixam de solidão…

Regina – Eu montei um grupo de trabalho com dez pessoas que se sentiam sozinhas. Dessas, oito eram casadas, uma era solteira e outra viúva. As pessoas adoram dizer que antigamente era melhor. Não era. Hoje o idoso tem muito o que fazer. Ter ou não um parceiro não tem nada a ver com solidão.
 

ISTOÉQue novos modelos de comportamento sexual poderiam satisfazer o ser humano?

Regina – Não tem de ter modelo nenhum. Modelo é uma coisa imposta. E a gente está acostumado a procurar modelos para se enquadrar. Os modelos aniquilam com as singularidades. As pessoas não são iguais. O condicionamento cultural faz você chegar à idade adulta sem a menor idéia do que você deseja realmente e do que aprendeu a desejar. É um perigo.

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