Brasil

O Brasileiro do século

Fernando Henrique entrega títulos às personalidades que mais se destacaram no século escolhidas por leitores de ISTOÉ

Em tapete vermelho de 50 metros foi estendido em frente ao Palácio do Itamaraty, em Brasília, na tarde da terça-feira 14. O sinal de boas-vindas não se destinava a chefes de Estado ou aos convivas de eventos da corte brasiliense. Era dirigido aos brasileiros que os leitores de ISTOÉ elegeram como os mais destacados dos últimos 100 anos ou seus descendentes. Mais de 300 pessoas participaram da festa que encerrou o projeto O Brasileiro do Século, desenvolvido ao longo dos últimos 12 meses com a publicação de fascículos mensais, encartados em ISTOÉ, com as biografias das personalidades eleitas. Entre os convidados do editor e diretor responsável da Editora Três, Domingo Alzugaray, estava o presidente Fernando Henrique Cardoso, que fez questão de entregar pessoalmente os diplomas concedidos pela revista a cada um dos agraciados em 11 categorias – Márcia Kubitschek, filha de Juscelino Kubitschek, recebeu em nome de seu pai o título de O Brasileiro do Século. “Com líderes como esse, não temos o que temer, pois somos capazes, como povo, de seguirmos adiante. Pedimos a JK que continue a nos inspirar”, afirmou FHC. Ao lado de Alzugaray e FHC, compuseram a mesa que presidiu a cerimônia o diretor de redação de ISTOÉ, Hélio Campos Mello, o subsecretário-geral do Itamaraty, Gilberto Velloso, e o governador do Distrito Federal, Joaquim Roriz.

Habituado a apagar incêndios em sua base de apoio político, o presidente assistiu bem-humorado à polêmica sobre a eleição dos brasileiros do século entre os ministros presentes na cerimônia. Um dos mais satisfeitos com o resultado era o ministro das Comunicações (e mineiro convicto), Pimenta da Veiga: “JK é inspiração como homem e político.” Sem saber, ele alimentou uma das controvérsias que marcaram o projeto. “Não concordo. Votaria em Getúlio Vargas, Campos Sales ou Rui Barbosa”, pal-pitou o cientista político Francisco Weffort, da pasta da Cultura. O ministro da Saúde, José Serra, elogiou o método adotado para a indicação das personalidades. “Ao apresentar uma lista preliminar feita por um júri, ISTOÉ permitiu que as pessoas refletissem sobre o País e só depois fizessem sua escolha.”

Sete ministros compareceram à cerimônia – também estavam lá Eliseu Padilha (Transportes), Alcides Tápias (Desenvolvimento, Indústria e Comércio), José Sarney Filho (Meio Ambiente) e Andrea Matarazzo (Comunicação Social). “Os premiados têm algo em comum: são todos visionários”, afirmou Matarazzo, sobrinho-bisneto de Francesco Matarazzo, o Empreendedor do Século. Chorando, Márcia Kubitschek não conseguiu conter a emoção ao fazer o discurso de agradecimento. “Foi um reconhecimento de milhares de leitores anônimos em nome do povo brasileiro.” José Roberto Marinho, vice-presidente das Organizações Globo, disse que seu pai, Roberto Marinho, sentiu-se comovido com o título de Comunicador do Século. “Foi uma iniciativa muito feliz de ISTOÉ e um trabalho de ótima qualidade. Os brasileiros, especialmente os mais jovens, puderam ter noção de quem foram os homens que construíram o País.”

Viviane Senna, irmã de Ayrton Senna, o Esportista do Século, explicou que o tricampeão de Fórmula 1 subverteu a imagem convencional do herói brasileiro. “Não era como Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, personagem de Mário de Andrade. Ayrton venceu pelo esforço, garra e disciplina.” Entre os homenageados, não puderam comparecer Chico Buarque (Músico do Século) e Oscar Niemeyer (Arquiteto do Século), que tem medo de avião e foi proibido pelo médico de viajar de carro. Quem deu banho de charme foi Fernanda Montenegro, Atriz do Século. Ao ser anunciado o nome de Juscelino como o grande vencedor da noite, ela tomou a inicia-tiva de levantar e bater palmas, puxando a ovação da platéia. Depois, explicou: “JK cometeu um ato de coragem ao construir Brasília e trazer o País para o Oeste, o que acarretou ganhos incalculáveis e também algumas crises. Mas fiquemos com os ganhos.” Maria Rita Lopes Pontes, sobrinha e atual superintendente das obras sociais de Irmã Dulce, a Religiosa do Século, revelou que o projeto de ISTOÉ contribuirá para acelerar a beatificação da freira baiana. “A partir de janeiro, o Vaticano começará a ouvir as pessoas que relatam os milagres de minha tia.” Alfredo Rui Barbosa, bisneto do jurista, elogiou o caráter didático da iniciativa: “A memória dos grandes personagens da nossa história só se perpetua quando os mais jovens têm oportunidade de conhecê-los.”

Festa – Antes da cerimônia no Itamaraty, ISTOÉ reuniu num almoço sete dos homenageados. A irmã da Religiosa do Século, Dulcinha Lopes Pontes, recordou que o marido foi amigo de JK por 20 anos. “JK dizia a ele que comprasse uma terrinha no Planalto Central, porque iria construir lá a nova capital.” Quem não economizou sorrisos foi a advogada Maria Thereza de Albuquerque, sobrinha-trineta de Machado de Assis, o Escritor do Século. “A família, envaidecida, parabeniza ISTOÉ.” Heloísa Oswaldo Cruz, neta de Oswaldo Cruz, o Cientista do Século, relatou que o avô não parou de pesquisar, mesmo quando estava muito doente, em Petrópolis. “Pouca gente sabe que ele deixou inacabado um estudo sobre a saúva.” Se para os homenageados foi um dia de alegrias e revelações, para ISTOÉ a terça-feira 14 foi uma data histórica, como ressaltou o editor e diretor responsável da Editora Três: “Retratamos um século que começou com o presidente Campos Sales tentando arrumar as finanças do Brasil e termina com o presidente Fernando Henrique Cardoso enfrentando o mesmo desafio”, afirmou Alzugaray. Ele anunciou o projeto Brasileiro do Ano 2000, mais uma iniciativa de ISTOÉ. “Em dezembro de 2000, estaremos reunidos aqui, novamente, para homenagearmos a personalidade mais destacada do próximo ano.”

Colaboraram: Ines Garçoni, Daniel Rittner e Eduardo Hollanda, de Brasília