Ediçao Da Semana

Nº 2741 - 05/08/22 Leia mais

i72742.jpgAleijadinho, o genial artista mineiro dono de uma biografia marcada por sofrimentos e gestos heróicos, não existiu. Assim pensa a historiadora mineira Guiomar de Grammont, para quem o seu conterrâneo Antônio Francisco Lisboa – conhecido por tal apelido pouco generoso devido a uma doença degenerativa e desconhecida no século XVIII – pode ser de fato o fabuloso criador de algumas obras mundialmente consagradas, mas não o criador de todas que a ele são atribuídas. No livro Aleijadinho e o aeroplano: o paraíso barroco e a construção do herói colonial (Civilização Brasileira, 322 págs., R$ 45), ela contesta clara e diretamente a autoria de alguns trabalhos: "Não encontrei, por exemplo, comprovação de que tenha estado em São João del Rei ou que seja autor de riscos arquitetônicos." Guiomar refere-se à cidade onde fica a Igreja da Ordem Terceira de São Francisco de Assis cujo projeto é chancelado como sendo de Aleijadinho. Diretora do Instituto de Filosofia, Artes e Cultura da Universidade Federal de Ouro Preto, a autora questiona essa "história tornada verdade pela repetição" sobre a extensão da genialidade do artista mineiro.

i72743.jpgA intenção, garante, é reconstituir a sua vida por meio de documentos. Nessa empreitada, desconsidera e derruba os tradicionais verbetes sobre aquele que é um dos maiores nomes do barroco brasileiro.

Os documentos que Guiomar analisou foram reunidos pelo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan, que hoje corresponde ao Iphan) a partir da década de 1930. Rodrigo Melo Franco de Andrade, diretor do órgão, e uma equipe de pesquisadores vasculharam os arquivos de Minas Gerais em busca de todo tipo de registro que comprovasse os fatos narrados na primeira biografia do artista, publicada por Rodrigo Ferreira Bretas em 1858. São histórias que o escritor teria ouvido da nora do escultor, Joana, e de moradores de Vila Rica, antiga Ouro Preto. Segundo Guiomar, já naquela época havia a intenção de se construir uma imagem heróica de Antônio Francisco Lisboa.

"O Bretas escrevia para um público de sábios, alguns deles oriundos de Portugal. Afirmar que Aleijadinho era filho de um português tornava o relato muito mais interessante", diz ela, referindo-se ao suposto pai do artista, Manuel Francisco Lisboa.

i72744.jpgO Sphan nunca comprovou que Aleijadinho era mesmo filho de um português e de uma escrava. Nem se sabe ao certo a data exata de seu nascimento, se 1728 ou 1730. "Foi feita uma leitura desses documentos de forma a dar veracidade a essa biografia, mas analisados separadamenteeles contam uma história bem diferente", diz Guiomar. Isso porque tal narrativa serviria à construção de uma identidade nacional, tanto política como artística, segundo a pesquisadora.

A doença que teria deformado Antônio Francisco Lisboa, obrigando- o a ser carregado e a trabalhar com as ferramentas amarradas aos braços, também é envolta em dúvidas. O quanto de mitificação há nesse relato não se sabe. Se ele estava mesmo tão doente, argumenta a historiadora, como poderia ter criado as 66 esculturas da Paixão de Cristo, em Congonhas, uma de suas últimas realizações? "Seria impossível que ele fizesse uma viagem tão difícil no lombo de um burro e realizasse tudo aquilo com a saúde tão debilitada."

i72746.jpgGuiomar também ampara suas teses em lacunas de documentos, contradições e questionamentos que nunca foram feitos anteriormente. Ela lembra que na época em que Aleijadinho viveu não havia uma preocupação com a originalidade.

O objetivo era transmitir a mensagem religiosa da melhor maneira possível. Assim, os critérios (baseados no suposto estilo do escultor) usados para dizer se essa ou aquela peça foi feita por ele não seriam adequados: "A idéia de autoria é uma preocupação contemporânea, quando a obra começou a ter valor.

Fixa-se um modelo e tudo o que não se encaixa deixa de ser Aleijadinho." Como o trabalho naquele tempo era coletivo, fica difícil saber quem fez o quê. Ou seja, ela insinua que Aleijadinho pode não ser uma só pessoa, mas o resultado do trabalho de diversos artistas do mesmo estilo. Algo parecido com a produção do escritor grego Homero e do dramaturgo inglês William Shakespeare. "É até risível quando alguns historiadores separam a mesma obra em partes, dizendo que a cabeça é de Aleijadinho e os pés, não", diz Guiomar. Ex-conservadorchefe do Masp, o crítico de arte Fábio Magalhães discorda: "Mesmo que não tenha feito determinada peça com as próprias mãos, a presença do mestre sempre induz o resultado final."

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