Comportamento

Doces subversivos

Quem são os novos revolucionários brasileiros e quais são suas táticas inusitadas para mudar o mundo

Uma torta de cereja, que custou R$ 6,13, espatifou no rosto do ministro Ricardo Berzoini, na semana passada, em Fortaleza, no Ceará, e a cena – digna de pastelão – ganhou a capa dos jornais. O quitute subversivo foi comprado numa confeitaria por integrantes do grupo Crítica Radical, um entre tantos no País que moldam um novo estilo de ser oposição a tudo que está aí. Suas armas incluem gestos agressivos e condenáveis, sempre contra a autoridade de um governo eleito democraticamente. Mas a torta que besuntou o ministro não é uma atitude isolada. Faz parte de um barulhento artifício que nos jargões dos novos subversivos é conhecido como “mídia tática”. Conta com a surpresa, expõe a autoridade ao ridículo e se materializa numa vasta exposição na mídia. O próprio grupo faz questão de agir com surpreendente transparência. Eles mesmos apresentaram a ativista Verônica Maria de Souza, 32 anos, à Polícia Federal, mas assumiram em conjunto a autoria do atentado. Mais: transformaram o episódio numa marchinha carnavalesca.

Sem vínculos partidários ou com sindicalistas, o Crítica Radical ocupa um casarão no centro histórico de Fortaleza, comprado por R$ 70 mil, dinheiro de doações. Parte delas, vindas do grupo alemão Krisis, parceiro ideológico dos cearenses que destinou à organização um total de 7.486,50 euros, cerca de R$ 27 mil. Ambos têm seus fundamentos ideológicos contidos nas mil páginas de manuscritos de Karl Marx, publicados postumamente e conhecidos por Grundrisse ou melhor, Elementos fundamentais para a crítica à economia política. Ou seja, por trás de uma torta, há muita teoria. Um dos mais influentes ideólogos do Krisis é o sociólogo alemão Robert Kurz, autor de O colapso da modernização. Não por acaso, um dos escritores preferidos de Jorge Romeu Paiva, 60 anos, um dos integrantes do Crítica Radical, ex-militante estudantil, perseguido pelo regime militar. “O que fizemos com o ministro foi um ato salutar. De desobediência, para quebrar a monotonia e fazer cair a máscara deste governo de esquerda que está à deriva.”

Mistério – Parte do pensamento do Krisis está disponível no Manifesto contra o trabalho, um dos dez títulos da coleção Baderna, publicada pela editora Conrad, uma aposta editorial ousada por se calcar em textos anarquistas e transgressores. “Normalmente só saem no Brasil os livros que passaram pelo aval dos acadêmicos ou dos supermercados americanos. Por isso, é preciso uma certa dose de irresponsabilidade para lançar estes textos”, diz Rogério de Campos, responsável pela coleção. Um dos best-sellers da coleção, é o livro TAZ – Zona Autônoma Temporária, do misterioso autor Hakim Bey, que foge de entrevistas, jamais foi fotografado e pelo que consta em sua suposta biografia é um poeta indiano, que teria se exilado na Inglaterra, depois vivido em Nova York e morado certo tempo no Irã. As zonas autônomas são enclaves de liberdade, sem nenhum controle autoritário, que podem ser desde ilhas clandestinas de piratas até as atuais raves. Hakim Bey não se preocupa com direitos autorais, como boa parte dos autores da coleção, cujos textos são sempre disponibilizados na internet. O lançamento mais recente, Apocalipse motorizado – a tirania do automóvel em um planeta poluído, discute os “nefastos efeitos colaterais” da onipresença dos carros. Um dos próximos lançamentos será a antologia de textos de proletários ingleses, denominada Class war e que foi obtida de graça numa feira de livros anarquistas em Londres. Os textos conservam a fúria hooligan de ser. Tanto que, quando um dos príncipes britânicos nasceu, estamparam: Vem aí mais um verme real.

Outro ícone da coleção é um sujeito inexistente chamado Luther Blisset, personagem criado por anarquistas italianos, que assina o livro Guerrilha psíquica. Qualquer pessoa pode assumir a alcunha de Blisset. Uma das funções de Blisset é propagar notícias falsas na mídia, algo que o site www.cocadaboa.com.br faz com muito humor. O site, produzido por jovens cariocas, prega peças em figurões da imprensa, atormenta serviços de atendimento ao consumidor e sofreu ameaças de processos de grandes corporações. Não é à toa que, para escapar deste tipo de pressão jurídica, o site está hospedado na Eslovênia.

Como se vê, os neo-subversivos vieram mais para confundir do que para explicar. Em comum, apenas uma imensa raiva canalizada contra o capitalismo, a globalização, qualquer modelo político vigente, as grandes corporações, o fervor consumista, a cultura publicitária – tanto que uma de suas referências é a revista canadense Adbusters, algo como propaganda detonada, ou o
livro Sem logo – a tirania das marcas em
um planeta vendido
, da canadense Naomi Klein. Uma das origens desta onda rebelde vem da batalha de Seattle, nos Estados Unidos, quando jovens enfrentaram a polícia em 1999, durante a reunião da Organização Mundial de Comércio. Desde então, os tais coletivos começaram a aparecer. No Brasil, há registros deles até em extremos como o Amapá, mas é difícil quantificá-los. Eles são independentes e cada um age a sua maneira.

O Radioatividade, de São Paulo, aposta no que chama de “teatro político”. Recentemente, invadiu a praça Benedito Calixto, na zona oeste de São Paulo, num sábado. Seus integrantes vestiam roupas coloridas e carregavam placas com a inscrição “todos têm poder”. O grupo foi incorporado por meninos de rua, que ganharam bombas de mentira para brandir contra os consumidores. “Nossa tática é criar uma ruptura da razão. Causar medo, ansiedade. Fazer um bombardeio sensorial desconexo e transformar a realidade em dúvida. E nossa arte não tem ego”, diz Flávio Neves, um de seus integrantes. Mas o barulho já foi maior. Dez coletivos – entre os quais Radioatividade, Formigueiro, Calma e A revolução não será televisionada – ocuparam um edifício na avenida Julio Prestes, também em São Paulo, que abrigava duas mil famílias sem teto. Misturados às famílias, fizeram intervenções artísticas e musicais e até implantaram uma rádio no local.

Festas – Dos coletivos atuais, um dos mais organizados é o Revolução não Será Televisionada, que tem entre seus integrantes o artista plástico Daniel Lima. Com um estúdio caseiro batizado de Perda Total, eles produziram um curioso e provocador programa de televisão, A revolução não será televisionada, com oito episódios exibidos pela TV USP. Os vídeos normalmente são o registro de suas próprias performances, como vender cápsulas de balas deflagradas calibres 22 e 12 nos semáforos. Também levaram ao descontrole um grupo de pastores religiosos ao estender uma faixa enorme com a inscrição Liberte-se. Embora o núcleo do Revolução, como são mais conhecidos, tenha apenas quatro pessoas, pelo menos umas 15 orbitam em torno dele, membros de outros coletivos como Contra Filé, Cia. Cachorra e Bijari entre outros, formando uma espécie de comunidade criativa.

O Revolução já foi convidado para encontros na Argentina e em Cuba. Talvez o lado mais divertido dos neo-subversivos sejam as festas Temp (do inglês, Temporary Eletronic Music Party), que reúnem até 500 pessoas, embaladas num som que costuma misturar música eletrônica pesada com percussão de tambores, performances e exibição de vídeos de protesto. “É um bombardeio dos sentidos, um questionamento pelos poros”, empolga-se Neves, do Radioatividade. As Temps acontecem no País há mais de dois anos. No ano passado, os coletivos tiveram seu maior momento no festival organizado pelo Sesc, Território antiespetáculo, que trouxe ao País o grupo de artistas francês Cavage, misto de DJs, videomakers que costumam fazer performances nas galerias subterrâneas de Paris. A extravagância é pequena comparada ao que aconteceu na Inglaterra, Suécia e Alemanha. Um grupo autodenominado Porsche Torcher protestava queimando modelos da famosa marca alemã.

 

 

Cliente é serpente

Se você quer rir? Acesse o site www.cocadaboa.com.br, fundado pelo economista carioca Wagner Martins, 25 anos. O endereço, batizado em referência à canção Overdose de cocada, de Bezerra da Silva, concentra humor virtual com altos índices de deboche e incorreção política. A pérola das inúmeras brincadeiras criadas por Martins – e mais seis colaboradores instalados no bairro da Penha, no subúrbio do Rio de Janeiro – é o demolidor SACneie, brincadeira criada para infernizar os famosos SACs (Serviço de Atendimento ao Consumidor). O Cocada estimula seus leitores a enviar e-mails com as mais absurdas dúvidas aos serviços do consumidor. Prontamente respondidas com aquele estilo de empolada eficiência, o que torna a piada ainda mais engraçada. Imagine alguém escrevendo para a Souza Cruz e perguntando: quantos cigarros eu tenho que fumar para receber algum tipo de indenização milionária? E vir a resposta, educada. Há perguntas que afundam na escatologia, como a de um imaginário malabarista flatulento-incendiário que requisitava de uma marca de isqueiros a sugestão do melhor modelo para suas vaporosas labaredas. Uma leitora escreveu a uma empresa de ônibus alegando que, ao chegar em determinada linha, derretia-se em orgasmos múltiplos. Recebeu como resposta uma enxurrada de e-mails de intenções duvidosas e assédio explícito. Segundo Martins, um memorando informando sobre o SACneie foi distribuído entre os operadores de telemarketing que atende aos SACs. Mas a norma é que todas as dúvidas devem ser respondidas. E, segundo Martins, os funcionários do telemarketing também se divertem. Em três anos, foram enviados 500 e-mails, renovados de dez em dez dias. Abaixo um divertido exemplo, num diálogo virtual.

– Meu nome é Maristela e no fim de semana viajarei para a serra do Cipó (MG), com mais quatro amigas. Iremos acampar e estamos com uma dúvida. Possuímos celulares Nokia, sendo dois 8260, um 6120i, um 5125 e um 5120i. Há algumas semanas, li uma reportagem sobre as radiações emitidas pelos aparelhos, na qual um especialista recomendava uma distância entre a cabeça e o telefone e dizia que a exposição prolongada às microondas poderia resultar num processo de cozimento do cérebro e de tecidos da orelha. Daí, a dúvida: seria possível, ativando os cinco aparelhos ao mesmo tempo, cozinhar porções pequenas de comida, como, por exemplo, um frango médio? E qual o tempo ideal de exposição para melhor cozimento? Um grande abraço! Maristela Helena.

– Prezada sra., Maristela. Em atenção ao exposto em sua mensagem, esclarecemos: todos os produtos Motorola estão dentro das normas estabelecidas por competentes órgãos do Brasil e USA, não causando danos à saúde (…) Tendo em vista que o módulo transceptor não se destina a essa finalidade (cozinhar), estamos impossibilitados de lhe fornecer tal informação. Atenciosamente, Denize Cassorla. Central de Atendimento e Vendas Motorola.

– Prezada sra., Maristela Helena, … informamos que (…) todos os celulares portáteis da Ericsson são projetados para não exceder os limites de exposição aos sinais de radiofrequência (…) O padrão de exposição emprega uma unidade de medida conhecida como Índice Específico de Absorção (Specific Absorption Rata), ou SAR. O limite do Sar é de 2w/kg em média por 10 gramas de tecido (…). Obrigado por ter escolhido a Sony Ericsson

– Deixe-me ver se entendi bem toda essa conversa de SAR…
Não é possível, de maneira alguma, cozinhar alimentos com as microondas emitidas pelos celulares em conversação??? Atenciosamente, Maristela Helena.

– Prezada sra. Maristela Helena, não é possível, como foi lhe informado no e-mail anterior. Caso necessite mais informações, por favor, entre em contato com a Central Sony Ericsson de Atendimento, nos telefones (…). Obrigado por ter escolhido a Sony Ericsson.