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O eterno retorno

Com o fim do regime iraquiano, a questão palestina volta à agenda de americanos e europeus, que reavivam esboço de plano de paz

“A queda de Saddam Hussein representa uma chance para acabar com o conflito entre israelenses e palestinos. No final, haverá um Estado palestino.” A frase é do primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, em entrevista publicada domingo 13 no jornal israelense Haa’retz, numa aparente intenção de voltar à mesa de negociações com os palestinos. Sharon também prometeu retirar alguns assentamentos judaicos, uma marca de sua administração. O problema é que ninguém sabe ao certo quando será esse “final” e se a criação de um Estado palestino realmente acontecerá. E, se acontecer, em que moldes será configurado. No pós-guerra do Iraque, como já se previa, ficaram expostos os nervos do Oriente Médio: a questão dos palestinos. Se antes, essa temática era evitada por George W. Bush, que a todo custo tentou não meter as mãos nesse vespeiro, agora, mais uma vez, as abelhas correm na direção de Washington. Na voz de Colin Powell, secretário de Estado americano, a Casa Branca afirmou que desta vez é para valer. “Nós temos uma nova oportunidade… isso se deve à remoção de Saddam Hussein do poder”, disse Powell.

A nova chance citada por Powell é o plano de paz conhecido por road map, elaborado pelo denominado Quarteto – os Estados Unidos, a Rússia, a União Européia e as Nações Unidas. Basicamente, o objetivo maior
do plano trifásico é o surgimento de um Estado independente para os palestinos até 2005. Na primeira fase, o foco seria o fim da violência,
com a declaração dos palestinos de um cessar-fogo e uma profunda reforma em suas instituições. Entre essas reformas, um novo gabinete.
A segunda etapa seria o estabelecimento de um Estado provisório palestino e, por último, viria um acordo final com os maiores nós do conflito palestino-israelense completamente desatados: o status de Jerusalém, a definição das fronteiras e o problema dos refugiados, espalhados há décadas pelos países da região. No papel, tudo muito claro. Fora dele, ações difíceis de ser executadas.

A começar pelo novo gabinete. Os Estados Unidos querem como
primeiro-ministro da Autoridade Nacional Palestina (ANP) o moderado Mahmoud Abbas, conhecido como Abu Mazen. Ele foi indicado ao cargo na terça-feira 15 pelo Comitê Central da al-Fatah, mas caiu no desagrado de Yasser Arafat, presidente da ANP e líder da Fatah. A idéia de israelenses e americanos é ir aos poucos colocando o histórico líder palestino de escanteio. “Arafat não está contente com o fato de seus homens estarem sendo colocados de lado e, ao mesmo tempo, ver os
que marginalizou serem promovidos”, afirmou Khalil Shiqzaqi, analista palestino em Ramalá. Um dos partidários de Arafat que estão prestes a cair é o ministro do Interior, Hani al-Hassan, responsável pelos temíveis serviços de segurança da ANP. Mesmo sendo até hoje o mais popular
líder entre os palestinos, Afarat enfrenta resistência até entre as lideranças políticas. E tanto americanos como israelenses o querem
longe da mesa de negociações. O governo de Sharon também entregou
à Casa Branca uma lista das demandas que esperam que os americanos exijam da Síria. Entre elas está o desmantelamento dos braços das organizações terroristas palestinas em Damasco, como o Hamas e
a Jihad Islâmica; a saída da Guarda Revolucionária Iraniana do Líbano;
o fim da cooperação da Síria com o Irã, incluindo as tentativas de transferência de armas para a Autoridade Nacional Palestina. Para
os israelenses, a prioridade é a segurança.

Bush finalmente anunciou urgência na resolução do conflito palestino-israelense. Desde o início da guerra do Iraque que o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, vem insistindo com ele sobre a questão palestina. Na Europa, há uma grande simpatia pela causa; afinal, nada menos
que 15 milhões de muçulmanos vivem no Velho Continente. Além disso
, a União Européia sozinha é o maior doador para a causa palestina.
De acordo com pesquisa do Conselho de Relações Exteriores de Chicago, 40% dos americanos são favoráveis a um Estado independente
palestino, contra 70% dos europeus. “O abismo separando europeus e americanos na questão de Israel e palestinos é um dos grandes impedimentos para o entendimento transatlântico hoje”, afirmou
o historiador Tony Judt à revista Newsweek.

Dissolver o imbróglio pode ajudar ou prejudicar a política americana na região. A criação do Estado palestino é o único tema que, pelo menos formalmente, une os países árabes. Mesmo satisfeitos com a queda da ditadura de Saddam Hussein, muitos desses países não escondem o incômodo de ver os falcões colocarem suas garras no Oriente Médio. Há muita desconfiança em relação a Washington, tanto por parte de alguns Estados quanto das populações do Oriente Médio. Os governos árabes se sentem ameaçados de ser desmascarados em suas políticas autoritárias, e as populações vêem os americanos como invasores e aliados incondicionais de Israel. Desde o surgimento do Estado de Israel, em 1948, cinco grandes guerras árabe-israelenses foram travadas e, em sua maioria, vencidas esmagadoramente por Israel. A percepção dos palestinos é que eles são humilhados pelos israelenses e parte dessa humilhação é provida pelos cofres americanos.

Segundo alguns analistas, a resolução do conflito árabe-israelense não traduz a estabilidade na região. Eles afirmam que os Estados Unidos estão interessados na conduta dos países do Golfo Pérsico, donos das maiores reservas e grandes produtores de petróleo do mundo. Essa sim seria a grande preocupação de Washington, e toda vez que algum desses países estivesse ameaçado de sair de escopo – como o Iraque –, aí então haveria um grande motivo de preocupação e uma justificativa de uma nova invasão pelos seguidores da Doutrina Bush.

Presa fácil
O terrorista palestino Abu Abbas, 54 anos, que comandou o sequestro do cruzeiro italiano Achille Lauro em 1985, foi preso em Bagdá, onde estava exilado desde o ano 2000, por tropas de elite americanas na terça-feira 15. Ele nem sequer se deu ao trabalho de correr depois da tomada da cidade. Foi a bordo do navio, já sob seu comando, que os terroristas mataram Leon Klinghoffer, 69 anos, e depois jogaram o corpo no mar. Leon morreu porque era judeu-americano, e sua condição de paraplégico não foi suficiente para salvá-lo. O sequestro foi planejado pela Organização para a Libertação da Palestina (OLP), mas Abbas depois romperia com ela.

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