Mundo

Sob o domínio do caos

Vácuo de poder deixado pela queda do regime obriga tropas americanas a tentar controlar onda de saques e acertos de contas

A liberdade é o caos. A assertiva é do secretário de Defesa dos Estados Unidos, Donald Rumsfeld. Como prova de sua tese, exibe-se a práxis das ruas de Bagdá que entraram em estado geral desordenado e indiferenciado de elementos que antecedem a intervenção do demiurgo, por meio do qual, um dia, ficará estabelecida a ordem universal. O demiurgo, para quem não está ligando o nome à pessoa, é o organizador divino que implanta a imitação de modelos eternos e perfeitos. O modelito sem jaça, explique-se, é a democracia à americana que o general da reserva Jay Garner, o futuro interventor – demiurgo? – enviado por Washington ao Iraque, implantará. Por enquanto, vive-se o caos. Saques, acertos de contas feitos à bala, tomadas de posse de zonas da capital e de outras freguesias no país, por gente com ou sem ligações ao ancien régime, mas que pretende estabelecer reinado próprio em seus domínios. Saddam Hussein caiu, mas ninguém ainda tomou o seu lugar. Os esbirros do regime se foram e o que ficou foi a bagunça.

Caos, numa urbe, é isso: falta de água e eletricidade, quebra da infra-estrutura hospitalar e sanitária. Do depósito de vacinas do Ministério da Saúde foram roubadas todas as doses de uso pediátrico. Lath Akran, guarda do estoque, estimava que cerca de sete mil crianças vão morrer por causa disso. Doentes e feridos de todas as idades já morriam diariamente às centenas. Corpos ficam insepultos. Na semana passada, a retirada de dinheiro em banco era realizada à base de picareta, arrombando-se paredes e cofres, e o numerário sendo levado em sacos, defendidos a tiros de fuzil, pistolas e facadas diante da turba ignara que tomou as vias públicas.

Impor a ordem – A população indefesa, mesmo aqueles que receberam com beijos os pracinhas americanos, começa a se revoltar. Exige-se ordem, estabelecida por quem tem excesso de armas e homens, mas somente na terça-feira 15 começava a esboçar um patrulhamento no estilo policial. “Aqui, a noite pertence aos monstros”, dizia o xeque Karim al-Moussawi, mulá xiita de uma mesquita pobre, na imensa favela que é o bairro chamado Cidade Saddam. Esse homem de Alá, notou-se, empunhava um rifle automático AK-47, certamente para não terminar como um colega seu que foi varado de balas recentemente. “Os tiroteios são promovidos por gangues que disputam território. Estamos vivendo entrevados, pois os americanos não vêm aqui depois das 18 horas”, disse o xeque Karin. Na verdade, ele escamoteia também a participação de grupos xiitas, justiçando rivais sunitas, ex-donos do poder, que agora têm de brigar pela sobrevivência. “Os paramilitares saem às ruas para promover o terror. Eles querem criar uma situação na qual a população comece a pensar que com Saddam as coisas eram melhores”, diz o major David Holahan, da 1ª Força Expedicionária de Marines, responsável por aquele setor da cidade. O que o oficial talvez não saiba é que entre a maioria xiita há muita gente que reza pelo Alcorão dos fundamentalistas, que fornece “mártires” contra o “grande satã” ianque.

É claro que nem todos os habitantes da capital têm planos de radicalização islâmica na mente. A cidade tinha uma afluente classe média, que sempre assumiu sua secularidade. Muitos deles, agora, estavam ocupados em proteger suas casas dos saqueadores. Ou de seus vizinhos, pois entre os legítimos ladrões de Bagdá estão muitos profissionais liberais, homens que até a queda de Saddam eram cidadãos impolutos. Por exemplo, um casal entrevistado pela rede americana NBC se esforçava carregando no lombo dois sofás estilo faux Luís XV e três pneus de automóvel. Ele era um oftalmologista e ela uma farmacêutica. “ Eu paguei por tudo isso. Trata-se de uma desapropriação!”, justificou-se o irado oculista, cego em seu furor bucaneiro. Os dois, aliás, haviam desapropriado uma mansão particular. É que os prédios públicos ou haviam sido demolidos pelos bombardeios americanos ou por saqueadores. A maioria das repartições ainda ardia na semana passada. Do jeito que anda, a liberdade iraquiana lembra o slogan espanhol dos anos 1808-14: “Morte à liberdade!” Em situação semelhante aos iraquianos, os espanhóis haviam sido invadidos por forças estrangeiras prometendo a graça da Liberdade, mas que trouxeram mortes, estupros e saques. Eram os soldados de Napoleão Bonaparte. Depois disso, os espanhóis criariam outro lema: “Hay gobierno? Soy contra!”

Veja também

+ Jovem morre após queda de 50 metros durante prática de Slackline Highline
+ Conheça o phloeodes diabolicus "o besouro indestrutível"
+ Truque para espremer limões vira mania nas redes sociais
+ Mulher finge ser agente do FBI para conseguir comida grátis e vai presa
+ Cirurgia íntima: quanto custa e como funciona
+ MasterChef: Fogaça compara prato com comida de cachorro
+ Zona Azul digital em SP muda dia 16; veja como fica
+ Estudo revela o método mais saudável para cozinhar arroz
+ Arrotar muito pode ser algum problema de saúde?
+ Tubarão é capturado no MA com restos de jovens desaparecidos no estômago
+ Cinema, sexo e a cidade
+ Descoberta oficina de cobre de 6.500 anos no deserto em Israel