Medicina & Bem-estar

A farra do viagra

Jovens tomam o remédio contra impotência por curiosidade, diversão e para não falhar na hora H

A farra do viagra

A farra do viagra


O Viagra, a pílula contra a impotência fabricada pela Pfizer, deixou de ser usado apenas por homens com dificuldades de ereção. O medicamento está virando febre entre jovens sem problemas de disfunção erétil. Eles tomam o remédio por diversão, curiosidade e por medo de falhar na hora H. Na maioria das vezes, o Viagra é ingerido nas “baladas” em conjunto com drogas – as mais comuns são álcool e ecstasy.

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A moda não acontece só no Brasil. Nos Estados Unidos, os jovens também estão abusando do medicamento, entre eles, muitos homossexuais. Um levantamento recente feito na cidade americana de San Francisco pelo Departamento de Saúde Sexual local comprovou o fenômeno e mostrou que os gays estão ingerindo Viagra e ecstasy com uma frequência preocupante. De acordo com a pesquisa, eles se sentem eufóricos e potentes depois de recorrer à mistura. Um dos problemas é que muitas vezes os consumidores relaxam na prevenção e mantêm relações sexuais sem preservativo.

Por aqui, não há estudos a respeito do assunto, mas alguns médicos tiveram notícias de casos de consumo irregular do medicamento por jovens. “Sabemos que o problema acontece, mas esses usuários não nos procuram”, conta o urologista Celso Gromatzky, de São Paulo. O Viagra, que só deveria ser entregue a quem possui receita médica, é obtido por esses novos consumidores de várias maneiras. No Brasil, por exemplo, pode-se comprá-lo pela internet ou em farmácias que não exigem a prescrição médica.

O medicamento pode ser usado por jovens, mas somente aqueles que apresentarem dificuldades de ereção. Afinal, o problema não é privilégio dos mais velhos. “O remédio é uma opção aos jovens que têm dificuldades emocionais, como forte insegurança. O Viagra é aliado à terapia psicológica até que o paciente restabeleça sua segurança”, afirma Eric Wroclawski, presidente da Sociedade Brasileira de Urologia.

Tomar a droga sem necessidade não traz benefícios, pois o remédio deve ser usado só para quem precisa estimular a ereção. Ele não aumenta o prazer na hora da relação. Por isso, é uma bobagem o jovem achar que se transformará em super-homem. Ao contrário. As consequências podem ser sérias. Se for ingerida sozinha, a pílula pode causar um problema chamado priapismo prolongado – uma dolorosa e indesejada ereção que dura horas ou dias. Raríssimo, é verdade, o mal pode acometer pessoas de qualquer idade e para resolvê-lo pode até ser necessário fazer cirurgia.

Quando combinado com álcool, a bebida pode, no princípio, potencializar o efeito do remédio. Os dois relaxam os vasos sanguíneos do pênis, facilitando a ereção do órgão. Mas o fenômeno não passa de ilusão. A relação não ficará melhor por causa disso. Até porque Viagra e álcool, justamente por atuarem de formas semelhantes, também resultam em efeitos colaterais parecidos. Entre eles, estão dores de cabeça mais fortes. Isso sem falar que o uso abusivo do álcool, mesmo com o Viagra, diminui a libido. O excesso da bebida inibe o funcionamento de uma parte do sistema nervoso central que estimula a vontade sexual e a ereção.

Se o Viagra for consumido com o ecstasy, a princípio a sensação parece ser boa. A droga atua no sistema nervoso central e estimula a intensidade e a duração da relação sexual. “Ela aumenta a vontade e o vigor”, explica Anthony Wong, toxicologista do Hospital dos Clínicas de São Paulo. Porém, depois do efeito alucinógeno, o ecstasy provoca a constrição dos vasos sanguíneos, dificultando a ereção. Além disso, há chances de ocorrer um problema cardíaco, pois, juntos, Viagra e ecstasy sobrecarregam o coração.

Para a psiquiatra Carmita Abdo, de São Paulo, especialista em sexualidade, existem algumas razões para o fato de os jovens
recorrerem ao Viagra. Uma delas é o velho medo de não dar conta do recado. “É comum falhar algumas vezes quando se está começando a vida sexual. Mas deve-se procurar o médico se o problema persistir”, aconselha a especialista.

Depoimentos

Pedro Batista Silva*
23 anos, publicitário, homossexual e morador de Nova York

“Fui para uma balada com os amigos. Às cinco horas da manhã, tomei um ecstasy. Meia hora depois, outro. Estava me sentindo o máximo. Depois da festa, fomos para a casa de uns colegas. Chegando lá, dois deles queriam ter relações comigo. Não estava a fim e me sugeriram tomar um Viagra por volta das 7h30.

Transei até as 14h com os dois. Foi indescritível. Tive a melhor sensação de prazer da minha vida. Estou esperando a próxima oportunidade de repetir isso. É muito fácil conseguir o Viagra. Recebo vários e-mails por dia me oferecendo o remédio.”



Marcelo Mercedes Dias*
28 anos, professor, habitante de São Paulo

“Já experimentei Viagra com álcool pelo menos dez vezes. Algumas para turbinar a relação sexual. Outras por pura diversão. Quando misturo os dois, sinto um calor tremendo, inchaço nas mãos e a sensação de que a cabeça vai expandir. Mas não sinto dor.

O Viagra funciona como um pano de fundo luxuoso para uma outra droga protagonizar a cena. Acho que minha namorada não sentiu muita diferença porque ela não comentou nada. Tomarei mais vezes, com certeza. Ainda tenho duas pílulas na minha bolsa.”

*Nomes fictícios

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