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Entrevista

Íris Abravanel

“Estou pensando em negociar um aumento no SBT”

“Estou pensando em negociar um aumento no SBT”

Autora do remake de "Carrossel", sucesso com as crianças, a mulher de Silvio Santos conta como driblou a desconfiança quando começou a escrever novelas na empresa do marido

por Rodrigo Cardoso
Edição 12/12/2012 - nº 2248

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Evangélica, Íris foi convertida pelo copeiro de sua casa

Íris Abravanel, mulher do dono do SBT, Silvio Santos, já havia encarado várias aventuras ao lado do marido. Havia sido amiga, afilhada (o empresário foi padrinho do primeiro casamento dela), namorada, virou esposa e mãe de quatro filhas dele. Cinco anos atrás, tornou-se também sua funcionária ao dar o pontapé inicial na carreira de autora de novelas no SBT. Desde então, a teledramaturgia da emissora paulista foi revitalizada. Mil empregos diretos e indiretos foram gerados por esse setor. Quinta trama de Íris, “Carrossel” é sucesso absoluto entre as crianças e incomoda a concorrência. O SBT tem ficado em segundo lugar no horário nobre graças à média de 12,5 pontos de audiência alcançada pela novela, no ar desde maio. O bolso de Silvio Santos também inflou. A perspectiva de faturamento de “Carrossel”, que ficará no ar até meados de 2013, é de R$ 100 milhões. Natural do Rio de Janeiro, Íris, aos 63 anos, 18 a menos do que o marido-patrão, trabalha dez horas por dia para entregar seis capítulos ou 240 páginas de roteiro por semana.

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"Arregaçamos a manga (quando viajamos). Eu faço a comida
e o Silvio limpa a cozinha. Ele limpa melhor do que eu"

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"Com o sequestro da minha filha (Patrícia, em 2001),
aprendi a demonstrar mais amor, carinho.
Mas continuamos a viver sem seguranças"

ISTOÉ

Onde a sra. busca inspiração para escrever? 

Íris Abravanel

Impossível escrever uma história e não colocar um pouco do que você viveu, de livros que leu, de filmes a que assistiu. Uma vez cortei um pouco o cabelo das meninas (filhas) achando que isso fortaleceria o cabelo delas. As quatro chegaram à escola com cabelos tipo tigelinha. Aí, voltaram para casa p. da vida. Revivi um pouco disso em “Carrossel”. Nessa novela, insisti em cenas que mostram as crianças mais distantes de computadores, games, e mais dispostas a criar brincadeiras.  

ISTOÉ

Coisas que a sra. fazia com as suas filhas? 

Íris Abravanel

Sim. Então, você vê chapéu sendo feito com jornal e coisas do tipo, para despertar a criatividade delas. Mexer com fantasia da criança é sempre saudável. Quando somos pequenos, criamos um amigo imaginário e isso é positivo porque, assim, resolvemos conflitos, diferenciamos o bem e o mal. A gente está conseguindo passar coisas edificantes para a criançada. Fui professora durante cinco anos. Sempre gostei de trabalhar com criança. Por mim, eu teria dez filhos. 

ISTOÉ

Por que a sra. resolveu iniciar uma nova carreira perto dos 60 anos?  

Íris Abravanel

Eu vinha percebendo a dificuldade do Silvio em contratar autores de novelas. Os melhores estavam na Globo ou na Record. E o contrato do SBT com a Televisa (emissora mexicana parceira do SBT) havia terminado. Aí, em um jantar, ele lamentava a dificuldade que vinha enfrentando. E eu disse: “E se eu escrever?” Na hora, eu pensava em resolver um problema dele. E acabei ganhando um problemão! Sofri preconceito no início. Muita gente dizia: “Ela vai ficar dois meses nessa e não vai aguentar, vai para o shopping”. Mas, como diz o Chaves (personagem de uma série televisiva mexicana), “não contavam com a minha astúcia”!  

ISTOÉ

Qual foi a reação do Silvio Santos? 

Íris Abravanel

Quando perguntei ao Silvio o que achava de eu escrever novelas, ele me disse para ir em frente, mas para não retroceder depois. O nome da primeira novela, “Revelação”, foi o Silvio quem deu. Porque (eu fazer novela) seria uma revelação (risos). No começo, eu não era contratada pelo SBT. Trabalhei seis meses sem receber nada, até provar que eu seria capaz. Eu tinha um computador que não era de última, mas da primeira geração (risos). Eu fui montando a minha equipe com pessoas que conhecia. Éramos um exército de pernetas! Uma das colaboradoras, por exemplo, de professora de matemática passou a fazer cenas. Nós almoçávamos na minha casa. Foram seis meses de deserto, sem nenhum recurso. Hoje, sou funcionária do SBT. Tenho registro em carteira. Fazia pelo menos 30 anos que não tinha registro. Tive apenas um aumento, muito reivindicado, em cinco anos no SBT. Agora, com “Carrossel”, estou pensando em negociar de novo. Eu nunca tinha ido, por exemplo, sozinha ao SBT 

ISTOÉ

E como foi a experiência?  

Íris Abravanel

Cheguei na portaria um dia para uma reunião. Disse que eu me chamava Íris e tinha uma reunião marcada. Aí, me disseram: “Pois não, pode encostar ali do lado e aguardar.” E foi o que eu fiz. Fiquei ali aguardando até que a pessoa com quem eu ia falar avisou na portaria: “Vocês sabem quem é que está aí esperando?” Não sei bem o que aconteceu, ao certo, mas as portas se abriram e eu entrei (risos). E aí começou o respeito por mim, desde a portaria. Nunca falei “você sabe com quem está falando?” para alguém. Cada um no seu lugar, né? Logo depois, a minha equipe toda passou a ter crachá para entrar no SBT. Aí, não queriam dar um para mim, disseram que eu não precisaria. Eu chiei: “Como não preciso? Já fui barrada (risos)!” Aí, fui lá tirar foto e exigi crachá. 

ISTOÉ

Como foi iniciar uma carreira na empresa do marido? 

Íris Abravanel

À medida que você vai se relacionando, as pessoas vão esquecendo quem está por trás de você e passam a enxergar o lado profissional. Algumas pessoas, quando veem que há coisas a serem modificadas no meu trabalho, ainda têm dificuldade de dizer isso para mim. Mas com o tempo a gente (ela e Silvio) vira doce de festa e as pessoas se acostumam com a nossa figura.  

ISTOÉ

Ainda consegue administrar a casa como fazia antes? 

Íris Abravanel

Todos os nossos funcionários estão com a gente há mais de dez anos. Então, cada um já sabe o que fazer e eu não preciso ficar em cima. A coisa só muda quando a gente viaja. Aí, eu e o Silvio arregaçamos a manga. Eu faço a comida e o Silvio limpa a cozinha. Ele limpa a cozinha melhor do que eu. Limpa o fogão direitinho… Ele gosta de fritar bife. Tem o ponto da carne lá que ele gosta. E ele ama o Walmart, porque nesse supermercado tem de tudo.
 

ISTOÉ

Gostou quando Silvio assumiu os cabelos grisalhos na tevê?  

Íris Abravanel

Eu estou acostumada, porque, quando a gente viaja, ele está assim. Mas achei o máximo ele se mostrar do jeito que é de verdade. Sabe por que gosto do grisalho? Porque o tom de pele dele fica mais suave, bonito. Mas tenho a impressão de que ele voltou a pintar o cabelo por causa da opinião das pessoas também.  

ISTOÉ

 O que aprendeu com o episódio do sequestro da sua filha Patrícia?

Íris Abravanel

Doía muito (quando a filha estava em poder do sequestrador, em 2001). É como se tivesse arrancado um pedaço de mim sem anestesia. Com o sequestro, aprendi a demonstrar mais amor, carinho, pelas pessoas enquanto elas estão ao nosso lado. Disseram que a Patrícia estava com síndrome de Estocolmo (quando a vítima passa a ter simpatia e até sentimento de amor ou amizade pelo seu agressor). Ela não teve síndrome nenhuma. Ela, naquele momento, enxergou a diferença da vida de dois jovens, a dela e a dele (sequestrador). Esse episódio não mudou nada em nossas vidas. Continuamos vivendo sem seguranças por perto, nada. Nossa maior segurança é Deus mesmo.  

ISTOÉ

A sra. é evangélica. Como se deu a sua conversão?  

Íris Abravanel

Foi dentro da minha casa. Eu não sabia, mas todos os meus funcionários eram evangélicos. Fui convertida pelo copeiro de casa, o José. Ele se alfabetizou pela Bíblia e espalhava versículos pela casa. Eu olhava aquilo e achava legal, mas para o José. Em 8 de outubro de 1998, decepcionada com todas as outras religiões que havia experimentado, pedi para Deus que, se ele existisse, desse uma prova de sua existência. Estava em casa e pedi um café. O José me trouxe e logo foi dizendo: “Olha, dona Íris, ainda bem que a senhora me chamou. Eu estava lá no seu jardim e o meu Deus mandou eu te dizer que a senhora é muito amada por Jesus”. Comecei a chorar. Aí, ele me disse que todos os funcionários se reuniam para orar por mim e pela minha família. No dia seguinte, fui atrás de uma “Bíblia” para saber quem é Jesus. O José quis me dar a dele. E eu não quis. Aí, ele me disse: “Dona Íris, a senhora tem tudo. Esse é o melhor presente que eu posso lhe dar e a senhora não quer aceitar?!” Foi a primeira lição que tive. Como somos soberbos. 

ISTOÉ

Frequenta alguma denominação evangélica específica? A sra. tentou se converter ao judaísmo? 

Íris Abravanel

Não sigo uma igreja específica. Nunca imaginava que um dia eu seria crente na vida. Mas, desde a conversão, eu me enfiava em qualquer garagem onde se falava de Jesus. Queria aprender. A primeira igreja em que estive foi a Assembleia de Deus. A segunda, a Congregação. Lembro que fui de saia e “Bíblia” na mão (risos). Mas não tentei me converter ao judaísmo. Eu nunca seria judia. As meninas (filhas) aprenderam hebraico e fizeram Bat Mitzvá, acho bacana. O Silvio é judeu, vai à sinagoga, mas ele está quase vendo que o Messias…quando a gente ora, o Silvio se sente muito bem. Às vezes, ele pede para a Patrícia orar.  

ISTOÉ

Como conheceu o Silvio? 

Íris Abravanel

Eu o conheci em uma praia, no Guarujá (SP). Eu ainda dava aula e estava noiva. Tinha de 18 para 19 anos e ele o dobro da minha idade. Foi uma tragédia, porque, quando o meu pai soube, ficou doente. A gente começou uma amizade e demorou para a gente ficar junto. Eu me casei, antes, e o Silvio foi padrinho. Me separei depois de cinco anos. A família era contra eu me relacionar com homem de televisão.  

ISTOÉ

Quem de vocês dois foi mais tolerante em relação às idiossincrasias do companheiro?

Íris Abravanel

Eu era uma pessoa bem difícil, geniosa, meu ponto de vista tinha de prevalecer sempre, era teimosa. Hoje não. Como o Silvio, que também mudou, e hoje administra melhor o ciúme que ele sentia, por exemplo. 

ISTOÉ

A separação que vocês tiveram nos anos 1990 tinha a ver com o ciúme também?  

Íris Abravanel

Sim. Eu me sentia sufocada. Ele era muito ciumento, de controlar passo a passo. Depois desse episódio, ele aprendeu a administrar melhor. Foi uma briga de foice, de gigantes, eu com estilingue e ele com um exército (advogados foram contratados por ambas as partes). Depois que reatamos (permaneceram separados por cerca de seis meses), eu disse a ele: “Agora, não me separo nunca mais. Você vai ter de me aguentar para o resto da sua vida”.  

 

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