Mundo

A raposa do deserto

Em manobra para evitar ataque americano, Saddam Hussein permite a volta de inspetores da ONU, mas George W. Bush insiste em ação para derrubar o ditador

Saddam Hussein, a raposa do deserto, atacou novamente. Numa contramanobra às ações americanas para legitimar investida militar contra o regime de Bagdá, o líder iraquiano abriu, na segunda-feira 16, as portas do país para investigadores da Comissão de Desarmamento da Organização das Nações Unidas. Em uma carta enviada aos membros do Conselho de Segurança da ONU, Saddam disse que aceitava a volta de inspeções em seu território, sem restrições ou condições, na busca de armas de destruição em massa. Deste modo, deixou o presidente George W. Bush resmungando sozinho na comunidade internacional, que pretende explorar mais o caminho diplomático. “Saddam só está ganhando tempo”, disse, irritado, o secretário de Estado americano, Colin Powell. A sentença, diga-se, está na cabeça de todos: ninguém se ilude com a oferta do ditador iraquiano. Mas o propósito do gesto hospitaleiro já foi alcançado. Se a oferta resultar em genuína cooperação, terá o poder de esvaziar a aprovação que Bush foi buscar na ONU para sua guerrinha particular. Caso os iraquianos voltem a aplicar o jogo de gato e rato durante a inspetoria, como imagina o
senso comum, já se terá passado um tempo precioso para os planos de ataque americanos. De todo modo, porém, o calendário de Saddam está perdendo folhas. Com ou sem o apoio internacional, os Estados Unidos pretendem atacar o Iraque.

“Dois mil fuzileiros navais vão estar desembarcando no Kuait no começo de outubro para exercícios de manobras conjuntas naquele país”, alertou Ari Fleischer, o porta-voz da Casa Branca, na terça-feira 17. É claro que dois mil homens não formam uma tropa de invasão ao Iraque, mas seu deslocamento para as areias do Golfo Pérsico dá o primeiro passo no caminho de Bagdá. “Estes marines são os que vão criar condições para um desembarque maior de tropas”, disse a ISTOÉ uma fonte do Pentágono. Mas que ninguém espere rufar de tambores e toques de clarim neste 2002. “Antes de novembro, a região é muito quente, principalmente para quem for obrigado a usar uniformes de proteção contra ataques de armas químicas e biológicas. Além disso, a chegada de todo o material e contingente deve levar, pelo menos, 60 dias”,
diz a fonte militar. O consenso em Washington é que os primeiros tiros serão dados a partir de janeiro, ou fevereiro, de 2003. Os planos
de guerra falam em forças de até 250 mil soldados – ou até 180 mil, na versão mais urgente dos falcões do governo.

Este contingente seria distribuído entre a Turquia (um dos fronts da invasão, pelo Norte), o Kuait (a investida pelo Sul), em navios nas águas do Golfo (de onde desembarcariam na costa iraquiana) e mais um número de forças de reserva estacionado no Afeganistão. Das bases aéreas do Kuait,
Turquia e, principalmente, o novo comando aéreo inaugurado recentemente no Qatar, partiriam os aviões. A ultramoderna base aérea de Prince Sultan, na Arábia Saudita, de onde partiu a maior investida da aviação aliada durante a guerra de 1991, havia sido liberada para as ações militares americanas logo depois do discurso de Bush. A única condição para esta acolhida seria a chancela da ONU para a ofensiva. Mas Saddam, aceitando a volta dos inspetores, fechou aquelas pistas novamente. Como no passado, s bombardeiros devem abrir os trabalhos e pavimentar a estrada que leva a Bagdá. “Mesmo sem a base de Prince Sultan dá para obter  sucesso nas ações aéreas. Depois, por terra, imagina-se que seja possível chegar em Basra em três dias”, diz o almirante Stephen Baker, o Center For Defense Information. Depois disso, viria o cerco a Bagdá e a luta casa a casa, como promete Saddam.

E quanto custaria essa briga? A resposta depende de quem faz o cálculo. As estimativas variam entre US$ 200 bilhões, na pior das hipóteses, o que implicaria uma estada prolongada das tropas para um esforço de reconstrução do país, até US$ 40 bilhões, na conta feita por otimistas. De todo modo, trata-se de dinheiro que o país não pode dispor neste momento de crise, não importa que digam o contrário os falcões do governo. “Os custos vão valer a pena, quando conseguirmos acabar com os esforços de Saddam em obter armas químicas, biológicas e nucleares”, diz o senador Trend Lott, líder da minoria republicana no Senado.
 

Rabo preso – A idéia fixa de que Saddam tenha em estoque armas de destruição em massa não é apenas paranóia da turma de Bush. Está bem documentado nos arquivos do Departamento de Comércio o fornecimento de agentes químicos
e biológicos – bactéria/fungos/protozoários – ao Iraque feito pelo governo Ronald Reagan, na década de 80. Ou seja: quem começou a fornecer germes para os brinquedos do ditador de Bagdá foram os Estados Unidos. Pode-se dizer que a “mãe” de todos os antrazes que Saddam mantém no estoque é de origem americana.

Por essas e outras, causou espanto entre os brasileiros – e muita gente ligada à Comissão de Desarmamento da ONU – a gritaria feita pela matéria no diário londrino Time sobre a venda de urânio do Brasil aos iraquianos. “Esta história é velhíssima, e não apresenta nenhum crime. O Brasil vendeu o material legalmente”, diz o ex-chefe da equipe de inspetores da ONU, Richard Butler. Ele poderia acrescentar que Itália, Portugal, França e Rússia também forneceram urânio para o mesmo cliente e os Estados Unidos venderam sofisticados equipamentos de análise química para a Comissão de Energia Atômica do Iraque. Em 1983, ainda durante o reinado Reagan, um alto emissário americano foi se entrevistar com Saddam, então considerado aliado contra os furiosos aiatolás iranianos. Depois deste encontro, os Estados Unidos começaram a fornecer, secretamente, fotos de satélite das posições das tropas iranianas que estavam em guerra contra o Iraque. Esta tremenda colher de chá logística permitiu que Saddam calibrasse as miras de seus bombardeios químico-biológicos (principalmente gás mostarda e antraz) contra alvos iranianos. O enviado especial de Reagan, por sinal, chamava-se Donald Rumsfeld, o atual secretário da Defesa americano  um dos maiores falcões do governo Bush.

Os analistas independentes não acreditam que Saddam já tenha conseguido a chave do sucesso para o refinamento do urânio. Sem isto,  bomba atômica iraquiana fica no campo da ficção. “Outro aspecto importante é a miniaturização das ogivas nucleares, para que possam ser levadas pelos mísseis que o Iraque possui. E isso Saddam talvez não consiga, mesmo que viva mais 50 anos”, diz Joseph Cirincioni, expert em proliferação nuclear do Carnegie Endowment for International Peace, um organismo de pesquisas em Washington.

Obsessão – Neste caso, por que o presidente George Bush usa a imagem do apocalipse nuclear para justificar uma investida na mudança de regime iraquiano? “Só ele sabe a razão”, diz o senador democrata Edward Kennedy. Mesmo assim, o líder da oposição na Câmara, deputado Dick Gephardt, já prometeu rápido voto de apoio à guerra do presidente: “Os democratas defendiam a consulta ao Congresso – para o caso de guerra – e a ida à ONU. O presidente fez as duas coisas. Agora, é nossa vez de retribuir o gesto”, disse. Já se diz no Congresso que a votação para a autorização de ação militar contra o Iraque será feita antes mesmo das eleições, em 5 de novembro. Já a subserviência a ONU será mais difícil de ser alcançada. Rússia, França, China e os países árabes exigem o caminho diplomático para, só depois, resolver sobre a guerra. Bush & cia estão impacientes, querem uma nova resolução dura, que não deixe vias de escape para o Iraque. De todo modo, já avisaram que os dias de Saddam Hussein no poder estão contados: a cavalaria americana já está galopando.