Ediçao Da Semana

Nº 2741 - 05/08/22 Leia mais

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PARA VOLTAR A ANDAR
Dilma é recebida pelo rei Juan Carlos e propõe à
Espanha o oposto do que prega Angela Merkel

Fotografias funcionam como recortes da realidade. A imagem que ilustra esta reportagem é o retrato pronto e sem molduras dessa afirmação. Captada na última semana no Salão dos Tapetes, uma das 2,8 mil divisões do Palácio Real de Madri, a foto revela uma Europa rica que caminha com dificuldades. Mais que isso. Ela expõe o que o Rei espanhol Juan Carlos disse à presidenta Dilma Rousseff pouco tempo depois de posar para os fotógrafos: Que a Europa precisa da ajuda do Brasil para locomover-se e sair da crise. O receituário de Dilma contra a recessão, porém, colide frontalmente com as amargas medidas de austeridade fiscal adotadas pela Espanha de Juan Carlos e demais países europeus como Portugal, Irlanda e Grécia. Para a presidenta do Brasil, o problema econômico da região é que a Europa rica, leia-se Alemanha, exige dos seus vizinhos pobres a aplicação de “soluções inadequadas para a crise”, como aumentos de impostos e cortes de benefícios e salários, cujo resultado será, irremediavelmente, uma “recessão brutal”. Para Dilma, a Europa só sairá do buraco em que se meteu com investimento público e estímulos ao crescimento. Ao apresentar a receita desenvolvimentista, em encontro da 22a Cúpula Ibero-Americana, que ocorreu em Cádiz, sul da Espanha, Dilma firmou-se na arena global como a antítese da chanceler alemã Angela Merkel.

Em direção diametralmente oposta ao que tem pregado Merkel, a presidenta brasileira cobrou dos mandatários presentes ao encontro um “horizonte de esperança” contra perspectivas de uma década de sofrimento, como prevê o Fundo Monetário Internacional (FMI). “Temos assistido, nos últimos anos, aos enormes sacrifícios por parte da população dos países que estão mergulhados na crise: reduções de salários, desemprego, perda de benefícios. Mas, se todo o mundo restringe gastos de uma vez, o investimento não chegará.” A presidenta aconselhou a Europa a não repetir os erros passados dos governantes da América Latina, que eram reféns da política ortodoxa implementada pelo FMI. “Nós já vivemos isso. O FMI impôs um processo que chamaram de ajuste, agora dizem austeridade. Tínhamos de cortar todos os gastos. Asseguravam que assim chegaríamos a um alto grau de eficiência. Esse modelo levou a uma quebra de quase toda a América Latina nos anos 80.” Dilma fez menção à Cúpula de Guadalajara, a primeira ibero-americana, nos anos 90, para lembrar que os governantes de então, aconselhados pelo FMI, acreditavam erradamente que, apenas com drásticos e fortes ajustes fiscais, seria possível superar as dificuldades econômicas e sociais. “Levamos assim duas décadas de ajuste fiscal rigoroso tentando digerir a crise da dívida soberana e a crise bancária que nos afetava.”

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O pronunciamento de Dilma foi considerado por especialistas o mais duro discurso proferido até agora pela presidenta brasileira diante de estadistas europeus. Não por acaso, na manhã seguinte ao encontro, o jornal “El País”, um dos principais periódicos da Europa e o maior da Espanha, estampava uma entrevista com ela em que a chamou de “Dilma, a forte”. O jornal espanhol chegou a publicar que ninguém se espante caso vierem a classificar a mandatária brasileira como a “nova Dama de Ferro”. A alusão à ex-primeira-ministra inglesa Margaret Thatcher, no entanto, parece equivocada. Adepta de uma política de rigor orçamental, Thatcher diminuiu a despesa pública e praticou uma política de austeridade. Estaria, neste caso, afinada com Angela Merkel. O inverso do que prega Dilma Rousseff.

Foto: DANIEL OCHOA DE OLZA / AFP PHOTO