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Rufar de tambores

A Casa Branca prepara provas do envolvimento do Iraque com a al-Qaeda para iniciar uma ofensiva contra bagdá

As botas de caubói – salto carrapeta, é claro – estavam enterradas na neve até o alto do calcanhar. No hediondo inverno de novembro de 1999, no Estado de New Hampshire, George Walker Bush mantinha o pé quente. Ele era então candidato a candidato republicano à Casa Branca e governador do Texas, terrão quente do planeta, lembre-se. “Tenho duas folhas do The New York Times servindo de palmilhas”, disse Bush a ISTOÉ, ensinando o segredo do milagre. A frase, além de mostrar antipatia à imprensa, abriu caminho para uma dedução insuspeitada. O futuro presidente dos EUA contava, desde as peregrinações de campanha, com dúvidas sobre sua capacidade. “Eu sempre cresci ao ser menosprezado por tolos”, disse com verbo e inglês irregulares. “Eles acham que não sou esperto, até que provo o contrário. Aí, estão perdidos.” Na semana passada, o presidente W. Bush reconfirmou esta e outras convicções próprias. Ao reunir lideranças do Legislativo de Washington, na quarta-feira 4, para explicar sua urgência em atacar militarmente o Iraque, ele mostrou que ali é uma toca de raposa. Afirmou que não mandará os marines rumo a Bagdá antes de “consultar” o Congresso. Note-se que consulta não é pedido para a ação. Também garantiu que pediria à Organização das Nações Unidas o apoio para uma derrubada, ao rufar de tambores, do governo de Saddam Hussein. O ditador do Iraque pode se preparar para a porrada. Agora, como disse o outro, é guerra.

Por agora, entenda-se como sendo além de setembro ou outubro, final de verão no Hemisfério Norte, onde estão as latitudes de Bagdá e Washington. O tempo vai esquentar para Saddam & cia, paradoxalmente, a partir de novembro, quando as temperaturas no país de Nabucodonosor baixam a níveis próprios para a guerra. “Imagine um quarto com a temperatura de uma tostadeira e 200 mil pessoas fardadas e carregando 24 quilos de equipamento”, exemplificou o general Wesley Clark, ex-comandante da Organização do Atlântico Norte (Otan) e crítico de aventuras tresloucadas no deserto da Babilônia. “Minha suposição é que o Pentágono vá datar qualquer operação para depois de dezembro. É bom lembrar que o Ramadã (mês sagrado do calendário islâmico) é em (6 de) novembro. Já foi uma difícil decisão a de continuar os bombardeios no mesmo período do ano passado no Afeganistão. Imagine uma reprise agora em Bagdá. Como você se sentiria se um país cristão fosse bombardeado por uma força islâmica no período do Natal?”, indaga Clark.
 

Ele pode ter acertado no alvo com esta previsão de impedimentos. Da Arábia Saudita vêm mensagens urgentes e mal-humoradas, contrárias a qualquer açodamento americano para a derrubada de Saddam. O resto do mundo árabe segue a bússola de Meca ou Riad, onde estão os palácios da monarquia Saud. Já na Europa, com a opinião pública contrária a impulsos guerreiros americanos, as chances de apoio desejados por W. Bush e seus falcões são, no mínimo, escassas. Há a exceção de sempre, o Reino Unido, mas o fiel aliado Tony Blair terá que levar em conta as pesquisas que apontam enorme antipatia a qualquer apoio a cavalgadas de caubóis ao largo dos rios Tigre e Eufrates. A insistência de Blair no apoio americano veio em discurso em Sidgefield, na Inglaterra, onde ele prometeu a breve divulgação de um dossiê contra Saddam Hussein. Espera-se que o mundo seja convencido.

É aí que os analistas políticos descobrem a inteligência insuspeitada de George W. Bush, provando sua teoria de astúcia própria. A carta debaixo das asas dos falcões de Washington é exatamente o drama de 11 de setembro. O que se planeja para breve é a revelação de dados sobre a participação do Iraque nos ataques daquela data. E mais: a Casa Branca tem torcido orelhas e braços em todos os setores de inteligência do país para angariar fatos que comprovem o apoio concreto de Saddam aos meninos da al-Qaeda. “Não vai ser fácil arrancar estas confissões da CIA e do FBI”, disse a ISTOÉ a senadora Hillary Clinton. “A Comissão de Inteligência do Legislativo tem recebido relatos de toda a comunidade de inteligência do país, apontando exatamente para o caminho oposto do que quer o Executivo”, disse. Mas Hillary é senadora democrata por Nova York.

Por mais que o mundo deseje desacreditar os falcões de Washington, capitaneados pelo vice-presidente Dick Cheney e pelo secretário de Defesa Donald Rumsfeld, as evidências contra o Iraque apontam para o caminho do inferno. ISTOÉ obteve informações de que o mesmo maquinário portátil de hemodiálise encomendado por Osama Bin Laden, nos bons tempos de hospedagem no Afeganistão, foram entregues a alguém do governo de Bagdá. “Essas máquinas são muito específicas. Foram desenhadas para servir de equipamento de apoio para pacientes com problemas renais. A fábrica japonesa licenciada para manufatura e comercialização do produto recebeu no ano 2000 uma encomenda feita para um cliente na Tailândia. O negócio foi completado. Soubemos, depois, que aquela carga havia seguido para Cabul”, diz uma fonte da comunidade de inteligência. “Estamos convencidos de que este maquinário foi parar nas mãos de Osama Bin Laden, que tem – ou tinha – um sério problema renal. Agora, com a corrida que esta turba da al-Qaeda deu do Afeganistão, é curioso que o mesmo cliente da Tailândia tenha encomendado o mesmo produto, passando pelo mesmo percurso, só que com endereço de destino no Iraque”, diz a fonte de ISTOÉ. Ou seja, Osama Bin Laden, a quem o presidente Bush havia prometido captura ou morte, pode estar se escondendo sob as asas de titio Saddam. Este seria o tiro de misericórdia do presidente nos pombos da paz.

O pior é que durante todo o tempo, no Salão Oval da Casa Branca se traçava o roteiro desta tragédia. “Acho que, desta vez, George W. Bush enganou o mundo com esta história de brigas intestinas em seu governo. Creio que essas supostas desavenças fazem parte de um esquema maior para nos levar à guerra”, conclui o senador democrata Chuck Schummer. Assim, as botas de caubói de W. Bush estariam em pés ideais. Afinal, elas têm o selo de fabricação de B.H.& N. Shoes and Boots, a mesma indústria que fornecia calçados a outro George, este o Custer, comandante da Sétima Cavalaria. E todos sabem como foi seu fim no Estado de Dakota, em 1876.