Brasil

Milú Villela

Temos que colocar a semente da solidariedade na cabeça das crianças e dos adolescentes para poder sonhar com um futuro diferente

Uma ponte que ligava a casa dos pais à dos avós maternos é uma imagem de infância que agrada à psicóloga Milú Villela, 54 anos, presidente do Museu de Arte Moderna de São Paulo. Era ali o palco preferido para as mil brincadeiras inventadas pelo irmão querido, que perdeu em um acidente de helicóptero em 1982. Hoje, simbolicamente, pode-se dizer que ela assume esse papel de interligação entre o Brasil próspero e abonado, da 13ª economia mundial, e o Brasil real, que tem mais de 50 milhões de brasileiros vivendo abaixo da linha da pobreza. Nascida Maria de Lourdes Egydio Villela, ela se reconhece como Milú, a persistente, batalhadora e idealista senhora que não tem vergonha de pedir dinheiro para as causas que abraça. E não são poucas, diga-se. Além de dirigir o MAM e ter comandado em 2001 o comitê brasileiro para o Ano Internacional do Voluntário, Milú é presidente do Centro de Voluntariado de São Paulo e está à frente da Associação Comunitária Despertar, que atende sete mil pessoas da periferia da cidade com cursos e assistência médica e psicológica. Ainda arruma tempo para participar como conselheira de várias fundações e instituições. Uma das maiores acionistas do Banco Itaú, o segundo maior banco privado do País, ela se orgulha de dizer que trabalha 24 horas pelo social. No próprio banco, cuida do Itaú Cultural. E é por esse empenho que quer ser reconhecida.

Seu desejo tem sido atendido. Prova disso aconteceu no mês passado, numa das raras vezes em que um representante da sociedade civil teve assento em uma sessão da Organização das Nações Unidas. Milú foi chamada a representar o Brasil na 57ª sessão da Assembléia Geral da ONU, que mereceu o destaque pelo exemplo de mobilização social demonstrado no programa comandado por ela. Nada mal para quem era extremamente tímida e enrubescia facilmente em público até há pouco tempo. A timidez foi um dos primeiros obstáculos que Milú teve de enfrentar quando assumiu em 1994 a presidência do MAM, depois do término de um casamento de 20 anos. “Logo que casei, eu tinha uma escola, a primeira a usar o método Piaget em São Paulo. Depois, vieram os filhos e eu acabei me dedicando totalmente à família. Jamais pensei em me tornar uma figura pública”, conta ela.

Mas o MAM se mostrou o desafio de que Milú precisava para redescobrir seus talentos. “Havia goteiras no prédio e a frequência era pequena. Eu queria um museu não como um simples acervo cultural, mas como algo vivo e educativo. Hoje, temos projetos com escolas e com comunidades carentes. O público cresceu muito, de dez mil em 1994 para 280 mil no ano passado. E temos fila para as grandes obras nacionais, diferentemente do que a maioria pensa”, relata. Com o sorriso de Milú a angariar fundos que chegaram a quase US$ 5 milhões, o museu chegou aos 52 anos com um novo conceito de público, ateliê de artes, auditório, restaurante e grandes exposições. “O MAM me devolveu a auto-estima. Eu percebi o quanto eu era capaz”, conta Milú.

Seu olhar solidário, no entanto, esteve presente mesmo antes de assumir-se como figura pública. Ao falar sobre sua família, Milú conta que a avó materna é uma inspiração. “Sempre a vi às voltas com a casa que mantinha para mães solteiras. Ela lhes ensinava uma profissão, como passadeira, arrumadeira, etc., e cuidava de seus filhos até os seis anos. Era um grande trabalho, numa época de tanto preconceito contra as mulheres nessa situação”, lembra ela. Milú tem grandes referências familiares. Filha do médico Eudoro Villela, morto em abril do ano passado aos 93 anos, e de Maria de Lourdes, filha de Alfredo Egydio de Souza Aranha, fundador do Itaú, Milú diz que foi com eles que aprendeu a valorizar a cultura e a educação. Seu pai era filho do pesquisador Eurico Villela, que com Carlos Chagas diagnosticou a doença que leva o nome do cientista. “Não tinha essa coisa de consumismo. A primeira viagem de avião que fiz foi aos dez anos. Viajamos de classe econômica. Eu levava uma saia cinza e duas blusas brancas. Lavava uma de noite e vestia a outra de dia”, conta ela. Seu pai havia morado na França por quatro anos na década de 30 e trabalhado com Marie Curie, do Institute du Radium de La Fundacion Curie. Ele, que era um cavalheiro da Legião de Honra da França, quis consultar alguém de lá para tentar resolver o problema de asma que atormentava a filha. E, mesmo depois de casada, a vida continuou comedida. “Se tinha uma festa para ir, pedia roupa emprestada para a minha mãe’, lembra ela.

Milú revela que não era hábito falar de dinheiro em casa. A maior preocupação dela e de seu irmão Alfredo era mesmo estudar. Ela fala do irmão que perdeu com admiração e grande saudade. “Ele era um talento. Criava coisas, montava e desmontava. Éramos muito unidos”, diz ela. Além do acidente em Paraty que levou seu irmão e sua cunhada, do fim de seu casamento e da morte do pai no ano passado, Milú ainda enfrentou outro grande baque: o diagnóstico de um câncer de mama no final de 2000. “Quando descobri, tive a reação normal de todo mundo. Chorei, mas dez minutos depois estava ao telefone. Liguei para o meu amigo, o médico Raul Cutait, para saber onde eu poderia receber o melhor tratamento. Ele me aconselhou e ainda disse que ia comigo para os Estados Unidos. Foi coisa de irmão mesmo”, comove-se ela. Milú foi, fez a operação e seis semanas de tratamento depois estava de volta. Superou o drama enquanto preparava o calendário de ações do Ano do Voluntariado. Atormentava-lhe pensar que se ela não conseguira fazer um exame preventivo de câncer nos últimos dois anos por falta de tempo, o que aconteceria com alguém que trabalha o dia inteiro e utiliza quatro conduções do serviço para casa, como acontece com muitas mulheres. “Minha idéia fixa era colocar um mamógrafo num ônibus e levá-lo à periferia. Todo mundo, médicos e técnicos, me desestimulou, dizendo que não ia funcionar, que o equipamento quebraria numa rua esburacada e que até o ônibus poderia ser roubado”, relembra.

Frustrado o intento, Milú resolveu concentrar forças na infância e na juventude. Não foi à toa que fundou o Instituto Faça Parte e criou o Projeto Jovem Voluntário para dar sequência ao programa de voluntariado iniciado no ano passado. Por meio de parcerias com o Ministério da Educação, com o Conselho Nacional dos Secretários de Educação e com a União Nacional de Dirigentes Municipais de Ensino, Milú pretende envolver estudantes de unidades públicas e particulares de ensino fundamental e médio em sua rede solidária. “Precisamos colocar a semente da solidariedade na cabeça das crianças e adolescentes para poder sonhar com um futuro diferente”, diz ela.

Este é apenas o início de mais um novo projeto, porque Milú realmente não pára. Ela quer contaminar as políticas sociais com o seu comprometimento. Faça chuva ou faça sol, vive cruzando a capital paulista de lá para cá para atender a sua agenda múltipla. Há sempre alguém a convencer. Tanta energia impressiona. Com certeza não vem apenas das refeições frugais que a ajudam a manter a linha. “Ela passa o dia com frutas e uma saladinha entre um compromisso e outro”, conta a fiel escudeira e secretária Ana Maria Pereira. “Ana é meu anjo da guarda. Foi secretária do meu pai, está conosco há anos”, diz Milú. Mas seus olhos brilham mesmo quando fala dos projetos que tem em mente. Como diz o amigo de mais de dez anos Raul Cutait, ela é uma mulher extremamente ativa, que conseguiu a proeza de levar para a roda de conversa do empresariado a preocupação com o social. “Ela teve grande sensibilidade ao usar sua força na sociedade e sua competência para motivar as pessoas. O voluntariado virou conversa de executivo. Hoje, muita gente procura achar um espaço em sua empresa para a solidariedade. Milú é uma grande liderança e um exemplo’, finaliza.