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Quadrilheiros

Condenados pelo STF por formação de quadrilha, Dirceu, Delúbio, Marcos Valério e Genoino agora lutam para tentar sobreviver financeira e politicamente

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Na segunda-feira 22, após 39 sessões, os ministros do Supremo Tribunal Federal confirmaram a denúncia da Procuradoria-Geral da República ao condenar o ex-ministro José Dirceu, o publicitário Marcos Valério, o ex-presidente do PT José Genoino e o ex-tesoureiro do partido Delúbio Soares pelo crime de formação de quadrilha. Não bastasse serem enquadrados como quadrilheiros pelo STF, os réus do núcleo político petista sofreram outro revés na última semana. O anúncio, na quarta-feira 24, da pena de 40 anos de prisão imposta a Marcos Valério mostrou que a corte será rigorosa com os demais réus condenados no processo do mensalão, o que fatalmente levará muitos outros deles para a prisão. Como os critérios utilizados para punir o empresário servirão de parâmetro, tanto Dirceu como Genoino e Delúbio já avaliam os estragos que uma possível condenação em regime fechado trará.

Conforme apurou ISTOÉ, a preocupação dos réus com o futuro passa pela sobrevivência financeira e política. Hoje atuando como consultor, Dirceu, por exemplo, acredita que irá perder clientes internacionais, até então dispostos a pagar uma fortuna por seus serviços. Nos próximos dias, o ex-ministro pretende concluir trabalhos já iniciados. Mas não tem previsão de novos contratos. Outro petista condenado, José Genoino deixou o cargo de assessor especial do Ministério da Defesa e amigos próximos temem pela sua saúde. Ao menos do ponto de vista financeiro Genoino provavelmente não será abalado. Seus seis mandatos de deputado federal lhe garantirão uma aposentadoria de R$ 19 mil paga pela Câmara dos Deputados. Delúbio, por sua vez, diz oficialmente que seguirá sobrevivendo da imobiliária virtual que abriu.

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Na seara política, os réus petistas montam estratégias para tentar disseminar a imagem de que são pessoas injustiçadas, punidas em nome de uma causa. Mesmo que esse discurso seja aceito apenas entre a militância petista e alguns amigos da época da ditadura, eles sabem que resta pouco a fazer. “É preciso buscar a redenção, nem que seja dentro dos grupos que favoreceram”, diz um cardeal petista. Nos últimos dias, a estratégia começou a ser posta em prática. Diante da iminência da prisão, Dirceu e Genoino começaram a frequentar eventos de apoio a eles organizados por correligionários. Também já estudam os termos de uma carta aberta para ser divulgada na internet logo que as penas forem definidas. Os textos serão elaborados com a ajuda dos advogados e seguirão o padrão do memorando que já vinha sendo divulgado por Delúbio Soares, o ex-tesoureiro do partido, antes do início do julgamento. A ideia dos antigos caciques do governo Lula é transformar a ida para a cadeia em um ato político e dar publicidade às reações dos críticos à decisão do STF.

Na semana passada, Dirceu foi recebido com festa por petistas de Osasco, em um jantar organizado pelo prefeito Emídio de Souza (PT). Ao lembrar sua conduta como guerrilheiro e sua “fidelidade ao partido”, o ex-ministro recebeu apoio dos convidados e se mostrou resignado. Sorriu algumas vezes, mas era impossível disfarçar o semblante tenso. Houve alguns momentos em que parecia aéreo, como se estivesse ausente, contam alguns dos comensais presentes ao evento. A iniciativa do prefeito de Osasco foi elogiada pela cúpula nacional do partido e pelo ex-presidente Lula. “Somos amigos e foi um encontro entre amigos”, resumiu Souza. Dias antes, Dirceu e Genoino já haviam participado de um almoço com um grupo de colegas de 1968, que incluía escritores e militantes sociais.

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Apesar das buscas por apoio, o cenário para os comandantes do mensalão é sombrio. Dirceu, Genoino e Delúbio são corréus de Marcos Valério nos crimes de formação de quadrilha e corrupção ativa. A soma das penas pelos dois delitos somou dez anos e sete meses para o empresário e deve ser a mesma para a antiga e poderosa cúpula petista. Valério também terá de pagar R$ 2,8 milhões de multa aos cofres públicos, além da possibilidade de ser condenado a devolver à União os R$ 37 milhões distribuídos aos parlamentares.

O que pode servir de alento para o núcleo petista, na atual circunstância, é a possibilidade de os personagens do mensalão terem uma sobrevida antes da execução das penas. O julgamento ficará suspenso por dez dias para que o relator Joaquim Barbosa faça tratamento de coluna em Düsseldorf, na Alemanha. Em novembro, os ministros devem acabar de definir as punições, e a prisão dependerá da publicação do acórdão, que é o resumo da decisão. A elaboração desse texto final do julgamento é outro obstáculo burocrático que pode favorecer os réus. Em média, os ministros levam três meses para revisar os votos e liberá-los para publicação. Desta vez, a expectativa é que esse processo leve cinco meses. Nos bastidores, há preocupação com o tempo que o revisor Ricardo Lewandowski levará para terminar o trabalho. O prazo até a execução das penas será ampliado ainda mais com a sequência de recursos que os advogados dos condenados já começaram a preparar. “Vamos esgotar o direito de defesa que o réu faz jus, apresentando embargos”, admite Luiz Fernando Pacheco, que defende Genoino.

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Sob a ótica da sobrevivência política, outra notícia deixou os petistas condenados menos preocupados. Eles já foram informados pela cúpula do PT que as chances de expulsão da legenda são nulas. Apesar de o estatuto do partido prever a saída de réus condenados em última instância e que tenham praticado crimes infamantes, o presidente da legenda, Rui Falcão, deve se pronunciar ao final do julgamento para explicar que esse não seria o caso dos mensaleiros. Por incrível que possa parecer, no entendimento dos petistas, usar dinheiro público do Fundo Visanet, do Banco do Brasil, e fazer empréstimos fraudulentos para comprar apoio de parlamentares ao governo não seria uma conduta reprovada pela sociedade.

Fotos: Alexandre Moreira/Brazil Photo Press/Folhapress; MARCELO PRATES/HOJE EM DIA/AE; CRISTIANO BORGES e NILTON FUKUDA/O POPULAR/ESTADãO CONTEúDO; Charles Silva Duarte/O Tempo/Ag. O Dia