Economia & Negócios

O mercado que salva o mundo

Com anúncios de novas fábricas e a prorrogação da redução do IPI, o setor automotivo brasileiro puxa a recuperação da indústria e atrai cada vez mais investimentos estrangeiros

O mercado que salva o mundo

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SUCESSO
Salão do Automóvel em São Paulo: exposição de 49 marcas e 500 modelos

Na semana passada, o setor automotivo brasileiro deu uma demonstração impressionante de sua força. Pela primeira vez na história, participaram da abertura do Salão Internacional do Automóvel de São Paulo os presidentes mundiais de algumas das maiores montadoras do planeta. Mais do que a simples presença dos CEOs, o que chamou a atenção foi o que eles disseram. “O Brasil tem sido considerado há muito tempo um País do futuro, mas hoje prova que é um país do presente”, afirmou o alemão Martin Winterkorn, presidente da Volkswagen. “O Brasil será um dos líderes do mercado mundial e nós queremos ter presença forte aqui, com produtos globais”, declarou o americano Dan Akerson, presidente da GM. O País é um dos mercados mais pujantes da indústria automobilística – e a 27ª edição do Salão de São Paulo é prova disso. Com a exposição de 49 marcas e 500 modelos e a expectativa de receber 750 mil visitantes até 4 de novembro, o evento paulista já rivaliza em importância com os principais do mundo, como os de Detroit e Frankfurt. “Adentramos o Primeiro Mundo nesse salão e agora só falta um espaço mais adequado para recebê-lo”, diz o consultor André Beer, ex-vice-presidente da GM, que frequenta o evento desde a primeira edição, há 52 anos. “De repente, o mundo todo ficou interessado no Brasil.”

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O setor, responsável por 20% do Produto Interno Bruto (PIB) da indústria nacional, retomou neste ano o crescimento das vendas, que já acumulam alta de 5,5%, segundo a Fenabrave. Atentas a isso, grandes montadoras aceleraram os planos de se instalar definitivamente aqui. “O Brasil é um mercado com um potencial tremendo para nosso futuro”, disse o alemão Ian Robertson, chefe de vendas e marketing da BMW, na segunda-feira 22, ao anunciar a construção de uma fábrica na cidade de Araquari, em Santa Catarina. “Por isso, estamos fortalecendo nosso compromisso de longo prazo com esse país.” A desaceleração da economia chinesa e a crise na Europa explicam parte desse movimento. Em setembro, o mercado automotivo europeu retraiu 10,8%, no ritmo mais rápido dos últimos 12 meses.

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Em mais uma demonstração da chegada do Salão de São Paulo a um novo patamar, o lançamento de dois conceitos globais foi programado para essa edição. A Nissan apresentou o esportivo Extrem e a Volkswagen o crossover Taigun, ambos sem previsão de fabricação. Para o analista do setor automotivo da América Latina da IHS, Guido Vildozo, os brasileiros gostam de modelos com “sabor local”. “Os executivos estrangeiros cometem muito o erro de comparar os países do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) sem entender suas peculiaridades”, afirmou à ISTOÉ. “O consumidor brasileiro quer um carro feito em seu país – não só produzido, mas desenhado para ele –, o que não acontece nos outros países, que compram modelos globais.” É o caso do HB20, produzido pela Hyundai na nova planta em Piracicaba, interior de São Paulo, pensado e concebido exclusivamente para o mercado local. Para Vildozo, o interesse das montadoras no Brasil cresceu na mesma proporção que o tamanho desse mercado. Se há dez anos, diz o economista, ele era o décimo maior do mundo, hoje disputa com a Alemanha o quarto lugar, com um volume de vendas de 3,5 milhões de unidades no ano passado. A previsão da IHS é que o setor cresça 6% em 2012, mais do que o triplo do que se espera para a expansão do PIB.

Embora os carros populares respondam pela maior parte do mercado nacional, as marcas de luxo também enxergam oportunidades no Brasil. A exemplo da BMW, Jaguar Land Rover, Kia, Audi e Mercedes-Benz também estudam estratégias para ampliar sua presença no País. A GM analisa trazer sua linha da Cadillac. Em 2015, a Acura, marca premium da Honda e pioneira do segmento no Japão, deve estrear no mercado brasileiro. Se o plano for concretizado, o Brasil será o primeiro país da América do Sul a comercializar os carros da marca. Enquanto isso, a Porsche oferece descontos de até 12%, a Rolls-Royce vai abrir sua primeira loja e Lexus e Aston Martin montaram estandes próprios em São Paulo de olho nas faixas de alta renda.

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Numa tentativa de evitar um esfriamento no setor, a presidenta Dilma Rousseff aproveitou sua ida ao evento paulista para anunciar a prorrogação do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) reduzido até o fim do ano. “Esse mercado é muito sensível a preço, qualquer alteração no imposto e nas condições de financiamento gera um boom de compras”, diz Rodolfo Salomon, gerente de vendas da Jato Dynamics, consultoria especializada em estudos automotivos. “O grande desafio é crescer sem medidas artificiais.” Mas foi a redução do IPI, anunciada originalmente pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, no fim de maio, que deu o empurrão para baixar os preços dos carros populares em quase 10% e, assim, permitir que a rota para o crescimento das vendas fosse retomada. No início de 2012, os bancos ficaram mais criteriosos na concessão de crédito, e as previsões davam conta de que este seria um ano de desaceleração. Até maio, as vendas de carros e comerciais leves recuaram na comparação com 2011 e os estoques elevados causavam preocupação aos empresários e trabalhadores do setor. Em junho, essa trajetória se reverteu.

A despeito de decisões pontuais como a do IPI, o governo foi eficaz em atrair investimentos de novas fábricas (leia quadro) na esteira do estabelecimento de um novo regime automotivo no início de outubro. O Inovar-Auto, como foi chamado o regulamento válido a partir de 2013 até 2017, tem o objetivo de “criar condições de competitividade e incentivar as empresas a fabricar carros mais econômicos e seguros”, de acordo com o governo. O incentivo para a inovação se dará com descontos progressivos no IPI. Para Salomon, os principais benefícios para o consumidor serão o aumento da eficiência energética (em outras palavras, mais quilômetros rodados por litro de combustível) e carros mais equipados (freios ABS e airbags serão itens obrigatórios). Espaço para tecnologia defasada, nunca mais.

Foto: Epitacio Pessoa/AE
Fotos: FILIPE ARAUJO/AE; EPITACIO PESSOA/AE; Roberto Stuckert Filho/PR