Especial 40 anos

O general e o metalúrgico

O crescimento a qualquer custo do período militar foi substituído pela estabilidade monetária e pela redução da desigualdade entre os brasileiros

O general e o metalúrgico

POLIVALENTE Delfim com o general Médici, um dos presidentes do regime militar, e com Lula: em quatro décadas, o ministro do regime de exceção se tornaria interlocutor frequente do líder operário (acima, um encontro dos dois em 2010) ()

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POLIVALENTE
Delfim com o general Médici, um dos presidentes do regime militar, e com Lula:
em quatro décadas, o ministro do regime de exceção se tornaria interlocutor
frequente do líder operário (acima, um encontro dos dois em 2010)

Se fosse preciso eleger um único protagonista para a trajetória econômica do Brasil nas últimas quatro décadas, este personagem poderia ser o paulista Antônio Delfim Netto. Desde 1972, poucos brasileiros foram tão influentes nos caminhos que o País seguiria – para o bem ou para o mal. Também são raros os que trocaram de lado de forma tão contundente e que conseguiram sair ilesos dessa transfiguração. As duas fotos que estão nas páginas anteriores simbolizam a guinada na vida de Delfim, reviravolta essa que, sob diversos aspectos, é o retrato acabado do próprio Brasil nos últimos 40 anos. Na primeira imagem, o economista aparece ao lado do general Emílio Garrastazu Médici, um dos presidentes do regime militar. Em 1972, Delfim era o ministro da Fazenda de Médici e o principal condutor da política econômica que levaria o Brasil ao chamado “milagre” do desenvolvimento. Na segunda foto, de volta ao tempo presente, Delfim divide a cena com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um ex-metalúrgico que, durante anos, encarnou as esperanças da esquerda nacional e era observado com desconfiança pelos homens da ditadura. Suprema ironia, o ministro da Fazenda do regime de exceção se tornou mais tarde interlocutor frequente de Lula, que admitiu publicamente consultá-lo para debater assuntos econômicos. Mudou Delfim ou mudou o Brasil? “A minha convicção sempre foi uma só: com o tempo, até a esquerda aprende”, afirma Delfim, com a mesma língua afiada de sempre.

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MUDANÇA
"Hoje considero um erro achar que o Estado é onisciente"

Mudaram os dois. Há quatro décadas, o Brasil assistiu ao maior crescimento de sua história (de impressionantes 10% ao ano), apoiado no estímulo da indústria nacional e na forte atuação do Estado como ativador da economia. Por trás dessa operação, estava Delfim Netto – que, lembre-se, votou, como ministro, a favor do nefasto Ato Institucional Número 5, em 1968. “Não existiu milagre, porque milagre é efeito sem causa”, diz Delfim. “O desenvolvimento foi produto do trabalho dos brasileiros.” O preço do crescimento a qualquer custo, porém, foi o descontrole inflacionário que, associado às crises do petróleo em meados e fins da década de 70, levou o País para o colapso que viria mais tarde. Sem dinheiro, o Brasil endividou-se a níveis desesperadores. O milagre econômico, portanto, desencadeou o período de explosão do PIB nacional, mas no longo prazo seus efeitos seriam prejudiciais para o País. Sentado placidamente em seu escritório em um bairro nobre de São Paulo, Delfim diz que não se arrepende de nada. “Naquele momento, as decisões que fizeram o País crescer eram as melhores para o Brasil”, afirma. Suas convicções não mudaram nem um pouco? Delfim responde do seu jeito. “Hoje considero um erro achar que o Estado é onisciente.”

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ECOS DO PASSADO
Delfim em reunião para discutir os rumos da economia:
do milagre do crescimento para a hiperinflação

O ex-ministro foi testemunha de grandes reviravoltas na economia brasileira. Depois da ditadura, veio a redemocratização e, ao mesmo tempo, o terror da hiperinflação. Do ponto de vista econômico, um dos grandes marcos desse período foi o processo de abertura desencadeado pelo ex-presidente Fernando Collor. “Foi uma abertura atabalhoada, confusa, mas que produziu um choque importante”, diz Delfim. Antes da abertura, os brasileiros praticamente não tinham acesso a produtos fabricados no Exterior e o resultado era uma indústria nacional acomodada, incapaz de produzir bens de qualidade. Collor, à sua maneira, obrigou o setor fabril a se atualizar para conseguir competir com as empresas internacionais, que começaram a enxergar no País oportunidades de negócios. “O caso Collor também é marcante do ponto de vista institucional”, diz Delfim. “Que país afasta um presidente por corrupção e, anos depois, oferece a essa mesma pessoa a oportunidade de voltar, na forma de senador? Só o Brasil.”

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BOM HUMOR
Delfim opera Lula em paródia ao quadro "Lição de Anatomia",
de Rembrandt: desenho está no escritório do economista

A história econômica dos últimos 40 anos é marcada inegavelmente por uma série de equívocos. Mas eles, em certo sentido, foram fundamentais para o amadurecimento do País. Se hoje a inflação se mantém sob controle, isso é resultado, também, das lições aprendidas no passado recente. O Plano Cruzado e o Plano Collor fracassaram na tentativa de domar a insana alta dos preços, mas eles ensinaram aos economistas que planos mirabolantes não funcionam e que, sem instituições sólidas, não se faz mudanças profundas em um País. “A Constituição de 1988 foi a base que ajudou o Brasil a se tornar um País melhor”, diz Delfim. “Ela definiu a sociedade que nós queremos, que vem a ser uma sociedade em que todos, inclusive o governo, obedecem as mesmas leis, uma sociedade democrática que oferece as mesmas oportunidades para todos os cidadãos.” Eis aí uma mudança profunda de ponto de vista. Delfim trabalhou para uma ditadura, que é tudo menos democrática.

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Foram as instituições sólidas – um Banco Central independente, por exemplo – que permitiram que o Plano Real do governo Fernando Henrique Cardoso fosse bem-sucedido. “O Plano Real é uma obra que honra a inteligência dos economistas brasileiros”, diz Delfim. Com ele, a inflação se manteve sob controle e o País teve, enfim, uma moeda forte. A estabilidade monetária atraiu investimentos, gerou empregos e construiu um ambiente de negócios favorável para uma geração inteira de empreendedores. Para Delfim, tão importante quanto o Plano Real foi a diminuição da desigualdade durante o governo Lula. Nesse ponto, está outra ironia na trajetória de Delfim – e do próprio Brasil. O milagre econômico da década de 70, conduzido por Delfim, produziu riqueza, mas não diminuiu o abismo entre ricos e pobres (“deve-se fazer o bolo crescer para depois distribuí-lo”, dizia-se à época). Foi preciso que um ex-metalúrgico criasse as condições necessárias para um forte processo de mobilidade social, que está contribuindo hoje para o surgimento de uma nova classe média. Em 40 anos, Delfim e o Brasil mudaram. Para melhor.

Fotos: Reprodução/Álbum Família; Divulgação; Rafael Hupsel/Ag. Istoé; Reprodução/Álbum Família; Divulgação; Rafael Hupsel/Ag. Istoé; Plinio Salgado/AE; Rafael Hupsel/Ag . Istoé