Especial 40 anos

Barulho em nome do planeta

Preservação e crescimento pareciam incompatíveis nas primeiras conferências ecológicas; hoje, a economia verde virou modelo de desenvolvimento

Barulho em nome do planeta

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PALCO
A pauta das conferências ecológicas não se restringe ao ambiente. Em Estocolmo (à esq.),
ativistas protestam contra a Guerra do Vietnã; no Rio, marcham pelos direitos da mulher

Hoje qualquer criança sabe o que significa sustentabilidade, a palavra de ordem do século XXI. Mas, há 40 anos, a expressão nem fazia parte do vocabulário dos cientistas, políticos e ativistas que participavam de encontros ambientais.

Esse conceito começou a ser rascunhado com a Conferência de Estocolmo, realizada na Suécia em 1972. Foi o primeiro encontro mundial organizado especialmente para discutir preocupações ecológicas. A reunião resultou em um documento que colocou o meio ambiente na balança do lado oposto ao modelo tradicional de desenvolvimento econômico. O Brasil adotou uma postura cética diante da Declaração de Estocolmo. O país vivia um momento de desenvolvimento acelerado e defendia seu “direito” de poluir tanto quanto os países ricos já haviam feito. Porém, ao final do evento, a delegação do País não só assinou o documento como, ao retornar, um de seus membros, Henrique Brandão Cavalcanti, secretário-geral do Ministério do Interior, promoveu a elaboração do decreto que instituiu a Secretaria Especial do Meio Ambiente.

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PRESENÇA
Um dos criadores da Secretaria Especial do Meio Ambiente, Henrique
Brandão Cavalcanti foi à Conferência de Estocolmo em 1972 e à Rio+20

A partir daí, o debate ambiental começou a ganhar corpo. Em 1983, a ONU criou a Comissão Mundial Sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, também conhecida como Comissão Brundtland. Comandado pela primeira-ministra da Noruega, Gro Harlem Brundtland, o grupo elaborou um relatório, conhecido como “Nosso Futuro Comum”, defendendo a integração entre preservação do meio ambiente e desenvolvimento econômico. A maior preocupação da época era se os recursos naturais dariam conta de acompanhar o crescimento demográfico no planeta. “Chegou-se à ideia de que desenvolvimento sustentável é aquele que não prejudica a geração atual nem as futuras”, diz Paulo Nogueira-Neto, professor emérito do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo e integrante da delegação.

O Relatório Brundtland serviu de base para os debates promovidos pela Eco 92, no Rio de Janeiro. Além das delegações oficiais, a profusão de ONGs e empresas que participaram do evento mostrou que era preciso ampliar o debate para além dos gabinetes governamentais. Passados 20 anos da Eco-92, a Rio+20 veio para mudar o foco e debater os rumos de um novo modelo de desenvolvimento, a economia verde. O encontro não resultou em decisões concretas, apenas em um documento vago no qual os países prometem combater a pobreza e controlar a degradação ambiental.

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“A dificuldade maior é internalizar os custos ambientais das ações humanas. É preciso desenvolver regras para as empresas fazerem sua contabilidade considerando o seu passivo ambiental, ou seja, o prejuízo que elas causam”, diz Luiz Gylvan Meira Filho, um dos negociadores do Protocolo de Kyoto e hoje pesquisador-visitante do Instituto de Estudos Avançados da USP e do Instituto Tecnológico Vale de Desenvolvimento Sustentável. E isso é um trabalho para mais alguns anos de encontros, debates e discussões. 

Fotos: Scanpix/Other Images; Sergio Moraes/reuters; Adriano Machado