Artes Visuais

Da lama à casa

"É tempo de fatigar-se a matéria por muito servir ao homem, e de o barro dissolver-se", escreveu Carlos Drummond Andrade no poema "Morte das Casas de Ouro Preto", publicado no livro "Claro Enigma", de 1951

Da lama à casa

NUNO RAMOS – Ai pareciam eternas (3 lamas)/ Galeria Celma Albuquerque, BH/ até 22/12

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“É tempo de fatigar-se a matéria por muito servir ao homem, e de o barro dissolver-se”, escreveu Carlos Drummond Andrade no poema “Morte das Casas de Ouro Preto”, publicado no livro “Claro Enigma”, de 1951. Drummond falava da passagem do tempo; do barro à matéria e, por fim, da volta ao pó, usando como metáfora a destruição das casas coloniais da cidade histórica mineira pelas chuvas. A imagem serviu de inspiração para o artista Nuno Ramos usar as contínuas passagens de sua própria vida para criar a instalação site specific “Ai Pareciam Eternas (3 Lamas)”, em cartaz em Belo Horizonte. Para a criação do projeto foi necessário um ano de pesquisas, feitas em parceria com o arquiteto mineiro Allen Roscoe, a fim de recriar na galeria Celma Albuquerque segmentos das três casas onde Ramos viveu.

A primeira casa, da qual foi reproduzida parte do telhado, afundando em uma lama socada em areia, ficava no bairro do Butantã, em São Paulo, onde o artista passou os primeiros anos de sua vida. A segunda casa pertencia à avó do artista, onde ele teve seu primeiro ateliê. Reproduzida em mármore, a casa emerge de uma matéria arenosa branca. A terceira é a “Casa Negra”, uma cópia não exatamente fiel da residência onde os filhos de Nuno Ramos nasceram e onde ele morou até seis anos atrás. Ela é feita de mármore preto e areia negra batida e o antigo quarto de Nuno está imerso em lama negra.

Para a empreitada, foram necessários 35 dias de montagem que deixaram a galeria com portas fechadas para receber mais de 250 toneladas de materiais usados na instalação. O resultado é uma obra monumental e poética que dá continuidade à produção de obras em grande escala, como “Bandeira Branca”, que encerrou três urubus no espaço da instalação montada na 29ª Bienal de São Paulo, em 2010 – antes deles serem interditados pelo Ibama e retirados de cena. A exposição em Belo Horizonte foi prorrogada até o fim de 2012 e no ano que vem seguirá para uma individual do artista na Áustria. Nina Gazire

Fotos: Daniel Mansur