Medicina & Bem-estar

Olho no futuro

Novos tratamentos contra problemas como miopia, catarata e glaucoma permitem tornar a visão cada vez mais perfeita

Adoro óculos: A atriz Mel Lisboa, 22 anos, descobriu há cinco
anos que tem 1,5 grau de miopia e um pouco de astigmatismo, mas não sofreu com a idéia de usar óculos. “Acho que dá um charme. E, sem meus óculos, não fico confortável para dirigir à noite”, diz ela. Atualmente, Mel tem sete modelos, alguns escolhidos com aconselhamento do esteta óptico Miguel Giannini, de São Paulo. Para atuar no teatro ou na tevê, ela coloca lentes descartáveis. “Ajuda a olhar olho no olho, o que é importante no trabalho do ator. Além disso, preciso respeitar a construção do personagem”, diz.

A televisão celebrizou um divertido personagem de desenho animado, Mr. Magoo, um velhinho míope e resistente ao uso de uns bons óculos, que ainda faz adultos e crianças rirem muito das suas trapalhadas. Magoo conversa com postes, erra os lugares onde deve ir. No dia-a-dia, no entanto, a dificuldade de enxergar bem é um transtorno que não tem graça e afeta muita gente. No Brasil, 25% da população usa óculos para corrigir alterações como a miopia (dificuldade de ver objetos a distância), hipermetropia (visão sem foco para objetos próximos) e astigmatismo (falta de foco para longe e para perto). E os especialistas afirmam que depois dos 40 anos quase todas as pessoas precisam de lentes para enxergar melhor de perto. A tendência é que essa necessidade aumente com o tempo
e surjam outros problemas, como a catarata, presente em 60% do grupo com mais de 60 anos. Atentos à combinação explosiva do aumento da expectativa de vida com o crescimento populacional, os médicos e a indústria pesquisam novas soluções. Os resultados começam a aparecer. Nos centros de pesquisa, clínicas e hospitais bem-equipados, a associação de novas técnicas cirúrgicas e terapias avançadas torna os procedimentos mais rápidos e melhora a qualidade da visão. Há modernas opções para a eliminação dos graus (miopia, hipermetropia e astigmatismo) e eficazes tratamentos para doenças cada vez mais comuns, como a catarata, o glaucoma e a degeneração macular.

Miopia, hipermetropia e astigmatismo

De cada 100 pessoas que precisam de correção dos graus de miopia, hipermetropia ou astigmatismo, 88 usam óculos, dez preferem lentes de contato e só duas fazem cirurgias refrativas a laser. A estimativa é do Instituto da Visão, um centro de excelência em oftalmologia ligado à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A cirurgia é feita na córnea. A técnica mais usada, o Lasik, esculpe esse tecido para criar uma lente natural capaz de corrigir a entrada dos raios luminosos no olho. “Em geral, o resultado libera 90% das pessoas dos óculos e lentes”, diz o oftalmologista Rubens Belfort, coordenador do instituto.

Recentemente, essas cirurgias deram um salto de qualidade. No final do ano passado, o FDA (agência americana que regula procedimentos médicos) aprovou a cirurgia refrativa customizada, que pode melhorar em até 20% a acuidade visual. Trata-se de uma técnica anunciada com alguma precipitação há três anos prometendo uma espécie de supervisão. Agora, o método foi avalizado para corrigir graus até sete de miopia e cinco de hipermetropia e astigmatismo. No mês passado, o Instituto da Visão realizou 250 cirurgias desse tipo. Diferente da operação normal, que lapida a córnea, a customizada varre pequenas imperfeições de sua superfície, chamadas de aberrações. “Elas podem explicar por que algumas pessoas continuam sem distinguir bem objetos à noite, vêem manchas assimétricas mesmo depois da cirurgia refrativa e pedem óculos”, explica Mauro Campos, da Unifesp e do Hospital Albert Einstein. Por isso, a nova cirurgia é indicada para quem ainda não se submeteu a nenhuma intervenção e para os que se operaram, mas não estão satisfeitos. Por enquanto, está disponível nas poucas clínicas e hospitais que têm um aberrômetro, equipamento que mede as imperfeições na córnea usando a mesma tecnologia do telescópio espacial Hubble. “O aberrômetro envia feixes de luz e, pela resposta do olho, calcula suas irregularidades”, diz Campos. A partir daí cria o programa que vai orientar a cirurgia a laser. Além da operação, há outras saídas sendo pesquisadas. “Nos Estados Unidos e na Ásia, continente onde 70% das pessoas são míopes, está em teste uma pomada à base da substância pirenzepina para controlar o crescimento do globo ocular, problema responsável pela miopia”, explica Belfort Jr.

Sessão de cinema: A bacharel em direito Cintia Domingues, 27 anos, usou óculos desde os 13. No começo de abril, fez a cirurgia customizada para eliminar três graus de miopia e 2,5 de astigmatismo no olho esquerdo e 1,5 de miopia e 1,75 de astigmatismo no outro. No dia da operação, passou pelo exame de aberrometria para mapear as correções que melhorariam a qualidade da visão após a retirada dos graus. A cirurgia durou 15 minutos. Quatro dias depois, ela foi ao cinema. “Foi uma emoção enorme. Chorei de alegria ao ver imagens tão coloridas e nítidas sem óculos”, festeja.

Catarata

A catarata é a maior causa de cegueira reversível no Brasil. Ela surge por causa da opacificação gradual da lente do olho, o cristalino. Quando turva, ela atrapalha a passagem da luz e embaça a visão. O tratamento baseia-se no bombardeio do cristalino com ondas de ultra-som emitidas por uma sonda finíssima, introduzida no olho por cortes de 3,5 milímetros. Nesse campo, a novidade é o aparelho Acqualase, que remove as cataratas mais jovens com jatos de soro aquecido em vez de ultra-som. “Ele retira cataratas mais novinhas e, portanto, mais moles”, explica o oftalmologista Alfredo Tranjan, do Hospital Nove de Julho, em São Paulo. A vantagem é que o aparelho reduz complicações durante a cirurgia.

Os procedimentos são finalizados com a colocação de lentes no lugar do cristalino. A busca de lentes mais apropriadas mobiliza a indústria. Há dois anos, surgiram lentes intraoculares acomodativas. Elas têm hastes flexíveis e um design na parte rígida que facilita a visão para perto e para longe. Custam cerca de US$ 1 mil cada uma. Porém, não são as mais cômodas. As esperanças recaem na nova geração de lentes multifocais. “Elas já são usadas, mas alguns pacientes se queixam de ver halos luminosos”, conta o oftalmologista Cláudio Lottenberg, que dirige o Hospital Albert Einstein. Por isso, o modelo está sendo aperfeiçoado. Na Unifesp e em outros centros mundiais, está em teste uma lente do gênero impressa com círculos irregulares para que os olhos possam escolher qual dessas “trilhas” fornece a melhor captação de imagem para ser enviada ao cérebro.

Fotos: Ricardo Giraldez

Rápida recuperação: A comerciante Ana Paula Kurtinaitis fez há três meses a cirurgia que remove cataratas mais jovens dos olhos. Ela tem 29 anos. Mais comum em idosos, o problema surgiu como efeito colateral de um tratamento medicamentoso. Passou a usar óculos e enxergava mal para dirigir à noite. “O médico utilizou uma técnica moderna. Em três dias, pude voltar ao trabalho”, comemora.
 

Presbiopia

A vista cansada ou presbiopia é outro filão para o qual a indústria busca soluções. O problema atinge pessoas com mais de 40 anos, com boa ou má visão. Caracteriza-se pela dificuldade progressiva do cristalino de focar de perto e de se ajustar na troca da visão de longe para perto. A proposta mais recente para amenizar seus efeitos é o implante das mesmas lentes intraoculares multifocais usadas nos casos de catarata. Especialistas estão sugerindo a troca antes de os sinais de cansaço visual aparecerem. “Mas ainda não há consenso sobre a técnica”, diz Laurentino Biccas, da Faculdade de Medicina da Santa Casa do Espírito Santo.

Contra a presbiopia, o menu de opções inclui até os óculos vendidos em farmácia. Mas é necessário informar-se bem para não comprar gato por lebre. Métodos anunciados como novos e eficientes muitas vezes são apenas técnicas já praticadas e requentadas pelo lançamento de equipamentos mais modernos. Exemplo disso é a cirurgia que muda o desenho da córnea de um dos olhos, a ceratoplastia condutiva. “Adaptamos o olho para ver melhor de perto. Faço há quatro anos”, afirma o médico Etelvino Coelho, de Belo Horizonte. A restrição é o efeito temporário, pois a presbiopia continua a evoluir cerca de meio grau por ano. Coelho diz que é possível retocar a cirurgia sem problemas. Mas a maioria dos médicos não gosta do método. “Um estudo mostrou que depois de seis meses apenas 23% das pessoas operadas conseguiam ver bem”, observa o oftalmologista Marcelo Cunha, de São Paulo. O especialista Lottenberg não faz. “Não é uma técnica sobre a qual se tenha controle das reações”, diz.

Glaucoma

A medicina também avança na luta contra as doenças que levam à cegueira irreversível, como o glaucoma. O problema surge por um defeito no sistema de drenagem do olho. A falha faz com que um líquido que nutre estruturas internas, o humor aquoso, fique estagnado e em quantidade elevada. Isso aumenta
a pressão intraocular. Quando está muito alta, há risco de comprimir o nervo
óptico, que emite sinais ao cérebro. Esses danos podem formar pontos cegos na periferia do olho e causar a cegueira lateral. Esse é um dos principais sinais do glaucoma. O tratamento com novos colírios, conhecidos como análogos de prostaglandina, usados uma única vez por dia, reduz a necessidade de cirurgia. Também existem medicamentos à base de betabloqueadores, inclusive genéricos. São mais populares, mas apresentam efeitos colaterais associados a problemas cardíacos e pulmonares.

A falta de diagnóstico é um dos entraves a serem superados para diminuir os casos de perda da visão por glaucoma. Estima-se que cerca de 900 mil pessoas sofram do problema no Brasil, mas metade não sabe. Para saber, basta medir a pressão intraocular uma vez por ano. E já existem equipamentos capazes de fazer o diagnóstico do problema antes que ele se desenvolva. Um deles é o OCT (siglas do inglês Optical Coherence Tomography). “Trata-se de um tomógrafo que faz uma análise detalhada da retina e mostra se há indícios de degeneração do nervo óptico, um dos sinais do glaucoma, antes que ele comece”, diz o oftalmologista Renato Neves, de São Paulo, que já utiliza um modelo.

Degeneração macular

Entre os piores inimigos da boa visão associados ao envelhecimento está a degeneração macular. “A enfermidade atinge 10% das pessoas com mais de 60 anos e a incidência sobe para 20% após os 90 anos”, diz o especialista Michel Farah, da Unifesp. Nas suas formas mais comuns, causa danos ao centro da retina, na região da mácula, setor do olho responsável pela visão mais definida das formas, cores e nitidez. A consequência é a perda da visão central, usada para trabalhar, ver tevê ou ler, por exemplo. Normalmente, os sintomas aparecem primeiro em um dos olhos. Os sinais podem ser a perda de nitidez ou o aparecimento de uma mancha no centro da visão.

Antes, o jeito era pingar colírio e aguardar que a doença tivesse uma forma mais branda e estacionasse sem levar toda a visão embora. Em 2000, surgiu o primeiro tratamento eficiente contra a enfermidade. A terapia fotodinâmica usa laser de diodo e a substância verteporfina (nome comercial Visudyne), um tipo de corante com capacidade de se colar às proteínas que formam vasos sanguíneos indesejáveis na região da mácula. Acredita-se que eles causem as hemorragias que caracterizam a forma mais grave da doença. Sob a ação do laser e da substância, os vasinhos fecham. O tratamento precisa ser repetido periodicamente para mantê-los fechados. Além da indicação estrita para casos graves e resultados diferenciados, o método tem a limitação do preço – cerca de R$ 4 mil por ampola e aplicação.

Aí entra a criatividade brasileira. Uma pesquisa conduzida pelo médico Farah e alguns colaboradores descobriu que um corante usado para exames oftalmológicos, a indocianina verde, poderia fazer o papel da droga cara com resultados semelhantes, mas a preços bem mais baixos. “Já pedimos aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária e a disponibilização desse tratamento no SUS”, diz Farah. Além disso, há uma safra de novos medicamentos a caminho. São os antiangiogênicos, ministrados com o objetivo de inibir a formação de novos vasos sanguíneos atrás da mácula. Com lançamento mundial previsto para o segundo semestre de 2005, o Macugen (nome comercial) foi testado na Universidade Federal de Goiás. “Metade dos pacientes tratados conservou a visão e houve quem sentisse uma melhora”, diz o oftalmologista Marcos Ávila, que coordenou o estudo.

Fotos: Ricardo Giraldez

Passeio garantido: Há seis anos,
Sarah Alice, 83 anos, teve os
primeiros sintomas de degeneração
da mácula no olho direito. Ainda não existia tratamento e, por isso, ficou
com a visão prejudicada. Para evitar
que a perda seja maior e controlar os sintomas da mesma doença no outro olho, submete-se a cada três meses a sessões de terapia fotodinâmica feitas pelo especialista Michel Farah. “Melhorei um pouco. Não jogo mais cartas, mas consigo viajar e passear com as amigas”, diz.

BELOS ACESSÓRIOS

Os óculos ganharam status de acessório de moda. Se, há duas décadas, tinha-se um único par de óculos para todas as ocasiões, agora a onda é ter vários pares e trocar conforme o lugar, o astral, o dia. “Além do design, há inovações como materiais antialérgicos, mais resistentes e outros muito leves”, diz o esteta óptico Miguel Giannini, de São Paulo. Confira acima os avanços em materiais e estilo escolhidos na Fotoptica (SP) e no centro ótico de Giannini.

André Dusek

Modelo desenhado para melhorar
o ajuste sobre o nariz R$ 450

André Dusek

Feito em acetato vermelho, tem o
detalhe da haste invertida R$ 300

André Dusek

Tem duas cores e haste grossa, garantindo visual da moda R$ 250

André Dusek

Produzido em titânio dourado e cristais, para festa R$ 1,2 mil

André Dusek

Hastes em liga maleável. Voltam à forma depois de entortar R$ 1,2 mil

André Dusek

Antialérgico e leve. Para quem
não pode apoiar a haste na
orelha. R$ 1,4 mil

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