Comportamento

Não sou doutor, mas sou feliz

Acredite, as escolas profissionalizantes formam gerações cada vez mais sofisticadas, competentes e disputadas pelo mercado de trabalho

Se os candidatos a presidente Ciro Gomes, José Serra e Luiz Inácio Lula da Silva pudessem ser separados de suas idéias e reduzidos ao que fizeram nas bancas escolares, o anúncio da pesquisa retirada do forno pelo Datafolha no sábado 21 de setembro poderia ser assim: “O advogado especializado em economia política pela universidade americana de Harvard caiu de 15% para 13%. O mestre em economia no Chile e doutor nos Estados Unidos, segundo colocado, perdeu dois pontos e parou nos 19%. Na ponta, com 44% das preferências, permanece o torneiro-mecânico.” Lula foi formando num curso técnico de dois anos do Senai. A corrida presidencial está perto de uma definição. Mas, preferências à parte, a se julgar pelas águas que já passaram e mesmo pelas que ainda vão passar sob a ponte, o torneiro-mecânico jamais esteve tão perto do poder. Esse fato deve alimentar a suspeita de que os bons cursos superiores e as pesquisas acadêmicas são dispensáveis? Não, evidentemente. Mas prova que não é obrigatório ser bacharel ou licenciado para ocupar um espaço com eficiência e desenvolver uma bela carreira. Os cursos profissionalizantes, vinculados ou não ao ensino médio, sempre foram uma espécie de patinho feio da educação. No
Brasil das carências primitivas, não serviam para “salvar criancinhas”, como o ensino fundamental, nem representavam para a classe média
um passo rumo à ascensão social, a exemplo do canudo da faculdade. Muitas escolas técnicas ainda sofrem com a falta de recursos. Mas,
nos últimos anos, projetos inovadores melhoraram a imagem desses cursos. Núcleos técnicos de estudo e treinamento nas áreas de eletrônica, metalurgia, mecatrônica, música, design e enologia, entre outras opções, passaram a formar uma mão-de-obra ativa e sofisticada, capaz de oferecer soluções para grandes empresas ou, muitas vezes, tocar o próprio negócio com eficiência e talento.

São profissionais respeitados a ponto de serem disputados, com salários tentadores, antes mesmo de terminarem os cursos. Tudo isso num momento em que emprego é algo mais caçado do que vaga para carro em frente de estádio lotado. “Esses cursos foram usados por Getúlio Vargas e pelos governos militares para inibir o desejo da classe operária de entrar na universidade. Sou defensor das conquistas acadêmicas, mas o mercado prova que há muito espaço para esses profissionais”, avalia o filósofo e educador Mário Sérgio Cortella, doutor em educação pela PUC/SP e ex-secretário de Educação da Prefeitura de São Paulo. “Estar ao lado da produção, no nosso caso, é pouco. É preciso estar à frente, preparar os técnicos para resolver os novos problemas que surgem a cada semana”, resume José Manuel de Aguiar Martins, diretor-geral do Serviço Nacional da Indústria, o Senai, ele mesmo um profissional que optou pelo curso técnico antes de cursar física na universidade.

Uma das principais frentes de trabalho dessa linha de produção de oportunidades é justamente o Senai. Nos últimos 60 anos, o serviço formou 32,8 milhões de técnicos em todo o País. Muitos deles não têm do que reclamar. José Luiz Brum, 53 anos, está neste grupo. Até os 23 anos, Brum, filho de pedreiro, ganhava a vida com um carrinho de sorvete em Limeira (SP). Dois cursos no Senai local, nas áreas de mecânica e projetos de ferramentas e dispositivos, mudaram sua vida. Depois de 25 anos de trabalho em grandes empresas, montou, no início dos anos 80, seu próprio negócio, a Eletro Metalúrgica Brum. O empresário disfarça quando o assunto é faturamento ou lucro. Mas, hoje, é um homem bem-sucedido. Seus 90 empregados fabricam painéis e componentes elétricos e eletrônicos para mais de 20 empresas, entre elas, gigantes como a Nestlé, a Michelin e a Tigre. “Não fiz faculdade e, olhando para trás, não consigo ver outra formação mais adequada aos meus objetivos além da que tive”, afirma.

Em São Paulo, o Senai treina todo ano 500 mil profissionais de grandes empresas. Além disso, abriga 15 mil alunos em 12 cursos gratuitos para jovens de 14 a 18 anos e 35 habilitações técnicas, com duração média
de dois anos, para os que concluíram o ensino médio. Na década de 90, sete em cada dez alunos foram para o mercado nos primeiros seis
meses após a formatura. “Em áreas como telecomunicações, processamentos gráficos, plásticos, informática, setores de ponta
de mecânica, o aproveitamento é praticamente total”, contabiliza o diretor regional da instituição em São Paulo, Luis Carlos de Souza
Vieira. “Em mecatrônica, o curso do momento, que envolve sistemas integrados de eletrônica, mecânica e informática, a demanda da
indústria é maior do que a nossa capacidade de formar”, completa. Tradução: todos arrumam emprego e ainda sobra vaga.

Precisão – Marcos Aguila, 24 anos, Tiago Luna, 19, e Rogério Sala, 22, estudantes de mecânica automotiva na escola Conde José Vicente de Azevedo, em São Paulo, estão neste grupo de elite. Por enquanto, o trio aplica os conhecimentos teóricos no mais bem equipado salão de treinamento automotivo para alunos da América Latina, com 40 carros recebidos das montadoras. Na semana passada, uma das atividades foi analisar partes de um Toyota, de um Citroën e de um Stilo – a Fiat já mandou duas unidades de seu novo lançamento para serem destrinchadas. Outra estrela do espaço é o Faro, um aparelho capaz de fornecer medidas precisas de partículas com espessura equivalente a um sexto da grossura de um fio de cabelo. “Estava de olho num estágio, mas acho que vou investir na modernização da minha oficina”, planeja Aguila. Esses cursos custam em média R$ 200 mensais. A boa notícia é que, a partir de 2003, eles serão gratuitos em São Paulo.

Mas as chances não se resumem a linhas de montagem e instrumentos de precisão. Há excelentes escolas profissionalizantes para atividades menos ortodoxas. É o caso do paulista Edmilson Nery, 40 anos, o primeiro clarinetista da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), a melhor da América Latina. Filho de um pedreiro e de uma dona-de-casa, ele teve contato com o instrumento ainda garoto, nas bandas de São Bernardo, onde nasceu. “O maestro ensinava o básico. O resto a gente estudava sozinho, em casa”, lembra. Fascinado por música, Nery entrou na adolescência para a Escola Municipal de Música de São Paulo, na capital. Fundada em 1969, a escola, pública e gratuita, tem 800 alunos distribuídos em 21 cursos. Não fica a dever aos conservatórios europeus, embora a sua sede clame por uma reforma.

Na área musical, não existe corpo docente igual no País. Mais de 30% dos atuais 57 professores, Nery entre eles, foram formados na própria escola. Lígia, 37 anos, mulher de Nery, também é clarinetista da Osesp. A exemplo
do marido, ela conquistou na escola municipal a base que lhe permite tocar na orquestra regida pelo perfeccionista John Neschling.
Mês que vem, ambos estarão em turnê pelos Estados Unidos. O ponto alto do giro de Nery, Lígia e
seus colegas será uma apresentação no maior complexo cultural do mundo, o Lincoln Center, em Nova York. “A escola é um funil. É difícil entrar e mais difícil ainda sair”, revela o diretor, o contrabaixista
Henrique Autran Dourado. Flávio de La Corte, também contrabaixista, e
o violoncelista Mathias de Oliveira são outros exemplos de “sobreviventes” da escola. O primeiro é músico da Ópera de Frankfurt e o segundo
ensina na Academia de Música de Berlim.

Outro exemplo de bom caminho são os cursos na área de beleza. Formada no início do ano num curso de 16 meses do Serviço Nacional do Comércio (Senac), a esteticista carioca Rosecléia Nascimento, 40 anos, não demorou a encontrar seu espaço. Poucos meses depois, abriu uma
clínica em Copacabana, no Rio de Janeiro, com dois médicos. Com
suas drenagens linfáticas e tratamentos de rejuvenescimento, fatura entre R$ 4 mil e R$ 5 mil mensais, livres de despesas e impostos. “Acho muito difícil alguém arrumar emprego com um salário desse hoje em dia, mesmo com um curso superior”, constata ela.

Como os bons vinhos – A boa formação deixa marcas também no sofisticado universo dos vinhos. Radicada no Brasil desde 1897, a família Miolo, de origem italiana, vendeu por quase um século toda a sua produção de uvas nobres para vinícolas do Vale dos Vinhedos, na região de Bento Gonçalves (RS). Só começaram a produzir o próprio vinho depois que Adriano Miolo, hoje com 33 anos, terminou o curso de viticultura e enologia do Centro Federal de Formação Tecnológica de Bento Gonçalves (RS). Criada em 1959, a escola tem atualmente 432 alunos de oito Estados e outros 25 num curso de extensão em Pinheiro Machado, a 450 quilômetros da sede. “A escola nos deu conhecimento para montar uma pequena vinícola e, em 1990, produzir a primeira safra”, lembra Adriano. No começo, o vinho era vendido para outras vinícolas. Em 1994, saiu a primeira safra batizada pela empresa, exemplares honestos de Merlot e de Cabernet Sauvignon Reserva, com boa relação entre custo e benefício, que transformaram a Miolo em uma das mais festejadas casas de vinho do País. “Passamos da fase da agricultura para a indústria de elaboração do vinho e, depois, para uma terceira fase, com a imagem e o nome da família no mercado.”

A expansão também significou abrir novos postos de trabalho. Doze anos atrás, quando cultivavam apenas vinhedos, os Miolo empregavam quatro pessoas. Atualmente, a vinícola tem 150 funcionários, parte deles em dois empreendimentos fora de Bento Gonçalves. Adriano trabalha com sete enólogos. Dois deles, Gilberto Simonaggio e Loiri de Villa, foram colegas de estudo. “A maioria dos enólogos brasileiros e dos empresários do setor passou pela escola. Hoje, estão em vinícolas importantes como Valduga, Don Laurindo, Dom Cândido, Brandelli, Aurora e Santon”, afirma o diretor da escola, Flávio Abreu de Souza. Recentemente, o Centro Federal de Formação Tecnológica de Bento Gonçalves concluiu um laboratório de microbiologia e biotecnologia com recursos vindos do Programa de Expansão da Educação Profissional (Proep), criado pelo MEC em 1997 para financiar projetos de ensino profissionalizantes sintonizados com as demandas regionais. “Esse projeto já viabilizou 331 convênios para reforma ou construção de escolas de educação profissional, um investimento de R$ 746 milhões”, contabiliza Raul do Valle Jr., secretário de Educação Média e Tecnológica do MEC. Pela estimativa do secretário, esses convênios vão beneficiar cerca de 2,8 milhões de pessoas.

Primeira chance – Os recursos do Proep incluíram no mundo dos cursos profissionalizantes até mesmo organizações não-governamentais como a cearense Associação Curumins. Além de atender 800 crianças e adolescentes em situação de risco social nas ruas de Fortaleza, a ONG monta projetos para qualificar adolescentes carentes do bairro do Mucuripe. Filho de pescador, Adriano Almeida tinha poucas perspectivas até conhecer a Curumins. Com o curso de panificação, conseguiu o primeiro emprego. Ganhava muito pouco – R$ 60 por mês. O segundo curso, de informática, abriu caminho para um passo mais largo: uma vaga como operador de caixa na maior rede de supermercado do País. O salário, R$ 272 mensais, é modesto, mas Almeida está animado. “Agora tenho carteira assinada e chance de crescer”, compara. A educação profissionalizante, não por acaso, está entre as 21 metas apresentadas recentemente pelo Brasil na Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, na África do Sul. Se ainda restam dúvidas, Brum, Nery, Lígia, Rosecléia, Miolo, Adriano e outros milhões de técnicos brasileiros vitoriosos estão aí para confirmar a tese.