Cultura

As canções de Vinicius

Cancioneiro traz biografia e obra musical do poeta

As canções de Vinicius

HINO Manuscrito da canção Chega de saudade, que mudou os rumos da música popular (DIVULGAÇÃO)

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HINO Manuscrito da canção Chega de saudade, que mudou os rumos da música popular

 

Em 1949, Vinicius de Moraes, então com 36 anos, estava em Los Angeles e escreveu a um amigo contando a novidade: tinha resolvido estudar música. “Delícia, Mané. De manhã, minha casa vive cheia de sons”, conta. “Mané” é o poeta Manuel Bandeira, e a carta está no Cancioneiro (Jobim Music, dois volumes, R$ 215) de Vinicius. Com texto de Sérgio Augusto, o livro biográfico traz outras cartas, manuscritos, entrevistas, trechos de poemas e é fartamente ilustrado, dando destaque para a relação do poeta, diplomata, jornalista e boêmio com a música. O outro volume é uma reunião das partituras, organizadas por Paulo Jobim e escritas com arranjos próximos dos originais. É nele que se encontra uma preciosidade: Por onde andará o amor, parceria inédita com Tom Jobim. “Vinicius produziu muito, mas era pouco organizado”, diz Susana Moraes, filha do poeta. “É bem possível que existam outras coisas espalhadas por aí.”

Todo o material que a família encontra é levado para a Casa de Rui Barbosa, no Rio, onde foi descoberta recentemente a letra em português de Bonita, outra parceria com Tom. Os dois se conheceram em 1956. Nove anos depois, Vinicius escreveu sobre a dificuldade de colocar letra em um sambinha do amigo. “Uma manhã, depois da praia, subitamente a resolução chegou. Fiquei tão contente que cheguei a dar um berro de alegria. Intitulei-o Chega de saudade”, narrou. E assim nasceu a música que fez história, gravada pela primeira vez, em 1958, por Elizeth Cardoso e transformada em hino da bossa nova na voz de João Gilberto.

Depois da incursão pela música popular, Vinicius não parou mais. Ele não era apenas letrista e compunha bem sozinho, como prova a Valsa de Eurídice. Mas ele teve um bocado de parceiBarros, como Baden Powell, cujos filhos ajudaram a arranjar os sambas-afro da dupla para o songbook. O livro traz também as composições com Toquinho, com quem mais produziu. Em 1975, o poeta comemorava o sucesso da parceria em carta para Calazans Neto. “Nosso disco estourou no Rio e em São Paulo, e já vendeu 30 mil em um mês. Aliás, o disco está uma graça”, dizia.

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PARCERIA Songbook tem música inédita de Vinicius e Tom Jobim

 

Mais de 30 anos depois, algumas das canções dele ainda são cantadas em bares País afora. O interesse pelo trabalho – e pela figura bonachona, boêmia e romântica – do poeta levou mais de 260 mil pessoas aos cinemas para assistir ao documentário sobre ele dirigido por Miguel Faria. Todos os dias, cerca de três mil pessoas visitam o site com sua obra. “O público é interessado especialmente na música, que sempre teve mais popularidade que a literatura. O mais engraçado é alguns que deixam recados como se o Vinicius estivesse vivo”, diz Susana, que prepara a regravação dos dois discos e a produção de um DVD com A arca de Noé.