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O cerco a Bagdá

As tropas americanas chegam às portas de Bagdá enfrentando resistência desorganizada. O cenário não é Paris de 1944, quando os aliados foram recebidos com flores, nem Stalingrado, quando a resistência mudou a sorte da guerra, mas talvez Beirute

Bagdá está caindo aos pedaços, mas sua estrutura física foi mantida relativamente intacta, depois das descargas de cerca de seis mil bombas nas últimas duas semanas. Há enormes bolsões de destruição, especialmente nas vizinhanças que acomodam as engrenagens do regime de Saddam Hussein. Mas o panorama não é o de terra arrasada. O que se desmilingue aos bocados é o controle desta capital, fundada pelo califa al-Mansur em 762 para ocupar o lugar de Damasco como sede do califado. O perigo é que brevemente a capital iraquiana vire terra de ninguém. O secretário da Defesa dos Estados Unidos, Donald Rumsfeld, e seus auxiliares no alto comando sonhavam encontrar no local uma espécie de Paris de 1944, onde as tropas americanas foram recebidas em triunfo por uma população de braços abertos, depois de libertada da opressão. O sonho acabou assim que os exércitos da coalizão anglo-americana enfrentaram resistência surpreendente ainda no sul do país invadido. Passaram-se, então, a previsões de cenários de pesadelo, com a capital iraquiana transformada em Stalingrado, também na Segunda Guerra Mundial, onde a defesa dos soviéticos contra o cerco (1942-43) feito pela Wehrmacht, a poderosa máquina de guerra alemã, acabou quebrando o espírito do inimigo. Até agora, esse temor provou-se infundado, a julgar pelo sucesso militar americano na semana passada, nos subúrbios bagdalis, onde foram neutralizadas duas divisões de elite da Guarda Republicana. Passou-se, então, à busca de paralelos em outras latitudes. A cidade está sendo comparada, por analistas militares, a Beirute dos anos 80, com batalhas travadas quarteirão a quarteirão, e o domínio de uma ou outra força se estendendo a meras zonas urbanas.

O quanto do velho espírito da capital libanesa está embutido na metrópole iraquiana é a questão que vem atormentando o Pentágono. “Não tenha dúvida de que qualquer tipo de resistência imposta pelas tropas de Saddam será eventualmente esmagada pelas forças americanas. O que preocupa são os custos dessa vitória”, diz John Hillen, estrategista do Pentágono. “O importante é libertar Bagdá sem afetar sua infra-estrutura e comprometer os esforços do pós guerra. Ao mesmo tempo, limpar a cidade dos focos de resistência do regime, que não têm como escapar”, diz Hillen. Libertar uma cidade, entenda-se, não é o mesmo que simplesmente invadi-la. Os exemplos dos episódios recentes em outras comunidades ao sul do país são simbólicos. Basra, principalmente, ensina uma lição amarga. Não era esperada a feroz oposição imposta pelos fedayin (paramilitares) às investidas de fuzileiros britânicos
no local. Até o fim da semana passada, as tropas de Sua Majestade
ainda não mantinham controle daquela cidade – xiita, note-se –
de 1,2 milhão de pessoas.

Essa situação pode ser ampliada na Bagdá de cinco milhões de habitantes. Os movimentos de tropas e o desenrolar do que acontecia nas frentes de batalha na semana passada desenham um esboço do que ambos os lados esperam no futuro. Segundo disse a ISTOÉ o general George Joulwan, ex-comandante militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), “a estratégia de defesa de Bagdá pelos iraquianos está baseada em semicírculos concêntricos. Derrubando-se a barreira de um desses meio anéis, as tropas que sobram debandam para reforçar o próximo arco, e assim por diante. O que se viu com a derrocada das divisões Medina e Bagdá (entre os dias 31 de março e 2 de abril) foi exatamente isso. Os poucos que sobraram – algo em torno de 35% da Divisão Bagdá e 15% da Medina – foram mais para o interior dessas barreiras”. Para evitar ao máximo este recuo, o comando americano empregou uma manobra tática de brilho: moveu suas tropas, a 3ª Divisão de Infantaria Mecanizada do Exército, a oeste, e a Primeira Força Expedicionária de Marines, a leste, mais para trás do primeiro semicírculo inimigo. Foram ações rápidas e devastadoras, que impediram boa parte dos sobreviventes dos regimentos em debandada de juntar-se a seus companheiros. Abriu-se também caminho para que a 3ª Divisão abocanhasse o Aeroporto Internacional Saddam Hussein.

O assalto a Bagdá está sendo feito com algo parecido com as chamadas “manobras em pinça”. Mas, além das duas pontas, existe também um “curinga” tático poderosíssimo. A 101ª Divisão Aerotransportada de Marines está na retaguarda e pode ser usada como reforço aos dois quadrantes ou simplesmente atacar de frente as defesas da cidade. “A partir de agora, o que veremos é a 1ª Força Expedicionária tomando o lado leste da cidade. Este, na minha opinião, será o primeiro ponto do coração de Bagdá a ser dominado. Desse lado da cidade está concentrada a população xiita, que forma 50% dos habitantes bagdalis, e é a que mais sofre com o regime, da minoria sunita”, diz Joulwan. A oeste, a 3ª Divisão provavelmente não apertará o passo rumo ao centro, como terão feito os marines. Esta é a aposta dos analistas militares consultados por ISTOÉ. “A não ser que os arcos de defesa entrem em colapso muito rapidamente, implodindo as últimas barreiras levantadas por quem quer que esteja no comando do regime”, diz o general Barry McCaffrey, ex-chefe do Comando Sul dos EUA e veterano comandante da 24ª Divisão Blindada que atuou na primeira guerra do Golfo, em 1991. Sabe-se que Saddam e seus asseclas estudaram com afinco as ações ocorridas em Mogadíscio, na Somália, em 1993, quando os Rangers americanos foram severamente castigados por milicianos locais. Os analistas militares iraquianos também estão estudando um documentário sobre a vida do marechal Josip Broz Tito, ex-ditador da Iugoslávia, que durante a Segunda Guerra Mundial comandou uma eficiente campanha de guerrilha contra os invasores alemães. As tevês iraquianas mostraram esta obra durante os primeiros dias da guerra. O regime espera repetir as empreitadas de Tito, em batalhas urbanas infernais.

Para que isso ocorra, será preciso mais do que o cumprimento estrito de um roteiro difícil. Não se sabe ao certo quem está no comando da defesa do regime. O Pentágono informa que nem todas as tropas iraquianas obedeceram ordens de ação e cita como prova disso a falha dos nativos em explodirem as pontes de acesso a Bagdá. Outro exemplo, que os anglo-americanos não ousam citar, é a ausência de ataques com armas de destruição em massa. Afinal, esta campanha, teoricamente, começou exatamente para desarmar o arsenal mortífero do Iraque. Foram feitas ameaças de que, ao cruzarem uma imaginária “linha vermelha” estendida entre as cidades de Kut e Karbala, a sudeste e sudoeste da capital, os soldados da coalizão sofreriam os bombardeios químico e biológico. Sob um calor de 38º à sombra, os americanos ainda avançavam envergando as desconfortáveis roupas protetoras contra gases. Mas até sexta-feira 4 o ataque não ocorrera, apesar da ameaça do governo iraquiano de recorrer ao uso de “armas não-convencionais”.

Some-se ao aparente descontrole de comando iraquiano o fato de que, durante sua longa ditadura, Saddam Hussein mantinha junto a si, em Bagdá, apenas a Divisão Especial da Guarda Republicana. Mesmo em dias de parada militar, a coreografia dos desfiles e o número de participantes eram cuidadosamente selecionados para que outras divisões da Guarda não tivessem grande presença na cidade. O motivo disso era a prevenção contra golpes de Estado. A consequência desta política se faz sentir também agora, quando inimigos poderosos batem às portas dos palácios presidenciais. Os reforços de três Divisões da Guarda Republicana tiveram de sair de suas bem preparadas posições ao norte para seguir rumo ao sul. “É um erro enorme abandonar estas posições. Agora, sem a proteção que haviam construído durante vários meses, estas tropas estão expostas aos ataques aéreos da coalizão”, garante ninguém menos do que o general Norman Schwarzkopf, ex-comandante de campo na primeira guerra do Golfo. “Vão chegar em Bagdá capengando, e com o mesmo nível de perdas sofridas pelas divisões Medina e Bagdá”, garante.

Os poucos que sobrarem vão desaguar na capital para reforçar as hostes dos fedayin. São os paramilitares que vão tentar executar a transformação de Bagdá em Beirute. E sua obra pode demorar muito tempo para ser embargada. “Aprendemos na Bósnia e no Kosovo que são os esbirros do regime que têm mais capacidade de sobrevida. Eles controlam o mercado negro generalizado e não largam mão de seus privilégios. Apenas se adaptam. O regime morre, mas estes mafiosos formam um governo paralelo. No Líbano também funcionava assim. Se não acabarmos com os paramilitares, o espírito de Saddam continuará assombrando Bagdá”, diz o general Joulwan.

O vice – rei e os falcões

Toda época histórica tem seus paradigmas. No final da Segunda Guerra Mundial, o general americano Douglas MacArthur (1880-1964) tornou-se o comandante supremo das forças aliadas no Japão derrotado. Com sua visão bonapartista, MacArthur modernizou o Japão na marra, quebrando a espinha dorsal do militarismo através da dissolução de monopólios, reforma agrária, legalização de sindicatos e eleições livres. Mas em tempos de globalização, esse modelo cesarista ficou completamente ultrapassado. Tanto que o homem que exercerá o papel de MacArthur no Iraque pós-Saddam Hussein tem impecáveis credenciais empresariais e de lobista: o general da reserva Jay Garner (foto), 64 anos, que presidirá o Escritório para a Reconstrução e Assistência Humanitária do Iraque, é presidente da SY Technology, uma empresa fabricante de sistemas de comunicação e direcionamento de mísseis, convertida no ano passado numa subsidiária da L-3 Communications, provedora regular de equipamento eletrônico para o Pentágono. “Os iraquianos podem acreditar que estarão sendo governados pelo homem que estava tentando matá-los”, afirmou o articulista Matthew Engel, do jornal britânico The Guardian.

Garner também tem ligações perigosas com os falcões da Casa Branca, como o vice-presidente, Dick Cheney, e o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, ligados a empresas da área de energia. Mas o que mais preocupa analistas do Oriente Médio são os laços de ternura que o futuro vice-rei do Iraque tem com o Likud e a direita israelense. O general foi o responsável pelo envio dos primeiros mísseis Patriot a Israel e à Arábia Saudita, em 1991, e agora sua empresa assessora Israel na fabricação de mísseis Arrow. Há três anos, Garner visitou Israel como integrante de uma comissão de 26 militares, organizada pelo Jewish Institute for National Security Affairs (Jinsa), e assinou uma declaração de apoio à política israelense, justamente na época em que se iniciava a segunda intifada. MacArthur era egocêntrico e arrogante, mas jamais representou interesses tão estreitamente partidários como Jay Garner.

Cláudio Camargo

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