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Labirintos mortais

Com suas vielas, casbahs e suks, Beirute mostrou a letalidade da guerra nas grandes cidades

Alguém se lembra do filme Falcão Negro em perigo, que retrata com realismo incomum o fiasco militar americano em Mogadíscio, capital da Somália? O que houve naquela cidade africana pode ser repetido e amplificado se o Exército americano invadir Bagdá e engajar-se numa guerra urbana com os iraquianos, sejam eles soldados regulares ou não. Todas as capitais árabes, do Iêmen do Norte ao Egito, por mais modernizadas que tenham sido, guardam entre si uma similaridade arquitetônica exemplar. Ao lado de arranha-céus hi-tech perfilam-se os velhos bairros, com seus casbahs ou suks (mercados) permeados de becos e vielas que são intrincados labirintos, perfeitos para confundir e emboscar. Capazes, em algumas cidades, de levar à morte o turista ou o soldado desavisado.

Até Israel, que possui um dos melhores Exércitos do mundo, costuma pagar um preço alto quando seus soldados se aventuram pelas armadilhas naturais que se configuram nas vielas das cidades da Cisjordânia ocupada. E note-se que se trata de soldados altamente treinados e qualificados para esse tipo de diabólico embate. Vale recordar que o general Ariel Sharon, hoje primeiro-ministro de Israel, foi o homem que comandou a invasão de seu país ao Líbano, na década de 70, e ele jamais poderá ser acusado de covardia em campos de batalha. Sharon, entretanto, não permitiu que as suas tropas se envolvessem nesse tipo de confronto. Se o alto comando militar dos Estados Unidos levar em conta esse histórico de guerra é possível que a campanha do Iraque resulte num consumo menor dos “blackbags”, os sacos negros de plástico utilizados para a remoção de mortos.

Incursões – É de imaginar que, se os militares americanos insistirem nesse tipo de cenário, vamos ter em Bagdá algo muito pior do que aconteceu em Mogadíscio. É possível que no caso iraquiano se repita o que ocorreu em Beirute, na década de 70, quando a guerra líbano-palestina jamais se estendeu a campo aberto. Eu estive lá, cobrindo aquele conflito entre 1974 e 1976, quando as milícias se confrontaram no que havia de mais letal em Beirute: as suas vielas e labirintos. Foi um dos conflitos mais sangrentos que ocorreram no Oriente Médio, custando a vida de mais de 50 mil pessoas. Tive a oportunidade de deixar levar ao extremo a loucura de guerra que me havia contagiado. Acompanhei por diversas vezes as incursões diurnas e noturnas que milícias cristãs, muçulmanas ou palestinas faziam em território inimigo, deslocando-se através de escombros e becos, com suas bandanas amarradas à cabeça e tendo como armamento de assalto os eficazes AK-47 (rifles automáticos Kalashnikov) e RPGs, que são, do ponto de vista da guerra hi-tech de hoje, primitivos lançadores de granadas. É isso, com certeza, que aguarda aos marines em Bagdá, onde, independentemente das diferenças com Saddam Hussein, cada homem, rapaz ou até criança vai se transformar num combatente letal, disparando através de cada brecha ou desvão. É certo que Bush ganha essa guerra, mas é certo também que as cerimônias fúnebres em Arlington, o cemitério militar nas cercanias de Washington, se transformem numa sinistra rotina.

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