Economia & Negócios

O segundo gol da VW

Com seis meses na presidência, o inglês Paul Fleming pisa no acelerador da maior empresa privada do País

O engenheiro inglês Paul Fleming, 42 anos, casado com Gillian e dono do autêntico vira-lata brasileiro Scruff (sujo, esculhambado, desalinhado), em menos de seis meses no posto de presidente da Volkswagen, a maior empresa privada do País, abriu as portas e arejou as relações da empresa com fornecedores, concessionárias, empregados e imprensa. Ele veio para reconduzir a empresa, com solidez, à liderança que durante décadas foi inabalável. Veio para lançar novos produtos e inovar. Fleming, que já respondeu centenas
de vezes que não é parente do escritor Ian Flemming (1909-1964), também inglês, criador de James Bond, está “breaking the walls” em
São Bernardo do Campo, onde fica seu escritório. Anda pela fábrica, cumprimenta os operários, faz uma campanha interna de motivação, visita concessionárias fora de São Paulo e já participa do programa
Fome Zero. De seu primeiro encontro com o presidente Lula, segunda-feira 24, saiu com duas impressões. A primeira, na reunião a portas fechadas, onde começaram a conversar sobre um carro popular de verdade: “O que me impressionou foi o seu equilíbrio. Ele é um grande negociador”, disse. A segunda aconteceu logo em seguida, no encontro com os 12 mil operários cantando “Lula lá…”. Fleming, que começa a aprender português, não precisou de mais nada para saber que estava diante de um político muito especial.

Nascido na industrial Manchester, “o que remete ao Manchester United, que não é tão bom quanto o meu time atual, o Corinthians”, Fleming foi à final do campeonato paulista entre Corinthians e São Paulo e voltou para casa corintiano. “O Brasil é um dos segredos mais bem preservados do mundo. Um clima fantástico, locais lindos e uma cordialidade do povo que o resto do mundo não conhece. É um grande lugar, especialmente para os europeus, não só pelo lado pessoal mas também dos negócios.” Nesta entrevista à ISTOÉ, ele conta o que está fazendo para conseguir no mínimo 30% do mercado (a empresa tem 20%).

ISTOÉ – O sr. veio para chacoalhar a VW?
Paul Fleming
– Acho que comecei devagar demais, mas sempre fui impaciente, impulsivo. Entendi rápida e claramente o que precisava ser feito. Eu tinha uma ligeira vantagem quando aqui cheguei porque vim sozinho com minha esposa; por isso foi fácil passar muitas horas assegurando que faríamos um bom começo. Fizemos muito nos primeiros dias, mas este será um ano importante para a VW.

ISTOÉ – Que transformações o sr. planeja para a empresa?
Fleming
– Temos que ser mais centrados no consumidor e mais ágeis. Precisamos ter a melhor qualidade, os melhores produtos, a melhor inovação, a melhor tecnologia no Brasil para projetar e desenvolver carros, porque a inovação está em nosso sangue; temos que ser globais e fazer carros que sirvam em outras partes do mundo e temos também que ser lucrativos para gerar dinheiro para pesquisa e desenvolvimento de novos produtos e instalações.

ISTOÉ – Apesar do slogan “Vamos manter a liderança”, por que a VW perdeu a liderança para a Fiat por alguns anos?
Fleming
– Somos a maior montadora no País. Temos o maior número
de engenheiros e empregamos a maior quantidade de mão-de-obra, fazemos a maior quantidade de carros. Além disso, temos a melhor qualidade e exportamos mais. Fazemos mais de meio milhão de carros
por ano, estamos fortemente integrados à paisagem econômica do País. Nosso nível de nacionalização varia de 65% a 97%, dependendo do veículo. Um fato interessante é que ficamos em segundo lugar no ano passado, atrás da Fiat, por cerca de 500 ou 600 veículos, o que não é muito. E não começamos o ano bem; iniciamos em terceiro lugar,
devido a um declínio. Mas neste mercado meu compromisso é assegurar que todos nesta empresa saibam o que o consumidor quer em seu carro e o que querem pagar. Hoje falamos em como melhorar os carros sob
o olhar do consumidor, não de um microscópio, não num laboratório,
mas lá fora, no mundo real. Eu desafio qualquer um a olhar para um de nossos carros recém-saídos da linha de montagem e compará-lo com outros feitos no Brasil – temos a melhor qualidade e vamos melhorar
ainda mais sob o olhar do consumidor.

ISTOÉ – O sr. trouxe uma nova filosofia de comunicação?
Fleming
– Posto de forma simples, eu venho de uma parte do mundo onde notícia boa é a notícia negativa. Eu gosto da imprensa impetuosa. Se a imprensa quer falar comigo, eu vou dar boas notícias – que às vezes podem ser maçantes. Há gente suficiente no mundo dando notícias ruins.

ISTOÉ – Qual sua impressão sobre o presidente Lula?
Fleming
– A primeira vez que me encontrei com ele foi na segunda-feira. O que me impressionou foi seu equilíbrio. Ele é um grande negociador, porque busca informações em várias fontes. Convenci-me de seu equilíbrio na reunião fechada que tivemos, quando ele falou da situação macroeconômica que afeta o País. Também falou da necessidade de pôr o País para funcionar economicamente, das necessidades dos trabalhadores e do respeito por eles. O equilíbrio é sempre difícil, mas, se você o tem, as chances de alcançar sucesso são maiores.

ISTOÉ – O que o sr. conversou com o presidente
na reunião fechada?
Fleming
– Conversamos sobre suas ligações econômicas fora do Brasil. Percebi que ele está demonstrando equilíbrio. Em vez de focar apenas nos EUA ou na Europa, está procurando fortalecer os laços com a China, que já é uma forte parceria econômica. México, Mercosul… Conversamos sobre o que ele está fazendo em termos de relações econômicas. Por sermos grandes exportadores, conversamos também sobre as necessidades específicas, como infra-estrutura para que possamos exportar. Falamos sobre a renovação da frota. Também discutimos sobre a mobilidade das pessoas dentro do Brasil, o que significa qualquer coisa: de uma bicicleta ou moto a um carro. Ele prometeu que vamos conversar mais sobre a direção que este assunto tomará no País. Para isso, nos reuniremos em Brasília em alguma data futura. Estamos trabalhando para produzir carros de baixo custo, mas os impostos sobre os carros de preço mais baixo são de quase 26%, o que é bastante alto. Falamos ainda do TotalFlex, o combustível flexível, e de algumas reminiscências emocionais dele sobre a época em que ele costumava vir aqui pelear pelo sindicato.

ISTOÉ – E o programa Fome Zero?
Fleming
– Doamos o primeiro carro TotalFlex, que opera ou com gasolina ou com álcool ou ambos, dois de nossos maiores caminhões e acertamos um programa com nossas concessionárias segundo o qual para cada carro que vendermos no Brasil neste ano, doaremos três quilos de alimentos. Significa mais de um milhão de quilos de alimentos, mas o que de fato queremos fazer é apoiar programas que promovam emprego permanente relacionados ao Fome Zero.

ISTOÉ – Qual a previsão de investimentos para este ano?
Fleming
– Nossa posição não mudou em relação aos investimentos
no Brasil. Exportamos carros para os EUA e estamos fazendo
previsões para este ano com muito cuidado. Em termos de mercado brasileiro e dos efeitos da guerra sobre o mercado local, não vemos problema algum. A única razão para mudarmos seria se a guerra progredisse e se transformasse numa Terceira Guerra Mundial,
o que exigiria mudanças drásticas.

ISTOÉ – A guerra pode afetar o lançamento do Tupi (apelido dado pelos operários ao projeto 249)?
Fleming
– O lançamento acontecerá em outubro deste ano e a
faixa de preço ficará entre o Gol e o Polo. A diferença de preço entre estes dois carros, de cerca de R$ 8 mil, é muito grande. Portanto,
há bastante espaço nesta brecha. O 249 é um conceito que irá surgir para o consumidor brasileiro. Não é um Gol, não é um Polo, é uma coisa no meio. O presidente ficou muito impressionado com o carro. Ele foi a primeira pessoa de fora da VW a vê-lo. O 249 vai gerar empregos em Curitiba e nossa intenção é trazer o carro para cá, desde que haja as condições econômicas corretas.

ISTOÉ – Qual sua perspectiva para a economia brasileira em 2003?
Fleming

– As perspectivas econômicas que eu vejo são um tanto limitadas. Em termos de balança de pagamentos, em termos de postos de trabalho, em termos de elementos macroeconômicos, eu não tenho tendência a examinar tais coisas. O Brasil é um país relativamente simples para se fazerem negócios, mas com algumas áreas difíceis. Uma são as taxas de juros, o que significa que tenho de ter um negócio bastante disciplinado. Não posso ter grandes estoques devido ao custo do dinheiro. A outra é a taxa de câmbio, que é um problema para mim se eu não for nacionalizado. Portanto, há duas coisas fundamentais que afetam meus negócios, uma é o custo do dinheiro, a outra é o câmbio. Eu preferiria um pouco mais de estabilidade econômica nestas duas áreas, mas entendo que o presidente Lula tem mais coisas a pensar.

Bicombustível
     
A montadora alemã saiu na frente da concorrência ao lançar o novo Gol Total Flex com motor que funciona com gasolina, álcool ou a mistura dos dois combustíveis em qualquer proporção. A novidade, apresentada nas comemorações dos 50 anos da Volkswagem no país, é assunto de capa da edição de abril da revista MOTOR SHOW, publicada pela Editora Três. A matéria mostra que as modificações feitas pela fábrica brasileira para utilizar os dois combustíveis terão um acréscimo de R$ 950 no preço final do carro. Mas, segundo Paul Fleming, presidente da companhia, esse aumento deverá desaparecer com
o crescimento das vendas e, consequentemente, da escala de produção dos veículos com motores bicombustível. As outras montadoras devem seguir o exemplo da Volks e lançar seus modelos movidos a álcool e gasolina em breve.

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