Entrevista

Raúl Reys

Não é hora de conflitos??

Não é hora de conflitos??

É possível reconciliar um país dividido como a Colômbia e pôr fim à guerra? O chefe da Comissão Internacional das Farc, a guerrilha da selva, acha que sim

Por HUGO MARQUES
Edição 28/03/2007 - nº 1952

Em plena floresta, o chefe da Comissão Internacional das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, Raúl Reyes, fez uma pausa na função de líder da guerrilha mais ativa do planeta para responder a ISTOÉ, depois de três meses de negociações. Um pen drive com as perguntas passou por vários intermediários e países até chegar às “montanhas da Colômbia”, o lugar incerto de onde os guerrilheiros assinam todos os seus comunicados. O mesmo aparelho eletrônico retornou de avião ao Brasil com as respostas. Para chegar, fez um percurso que passou pela Europa. Nada foi transmitido por e-mail, para garantir a segurança de três guerrilheiros envolvidos na operação. Todos os cuidados, no entanto, são para fazer chegar uma entrevista que fala em pacificação. Como membro do secretariado do Estado-Maior Central da organização que reúne cerca de 20 mil combatentes, Reyes quer um processo de reconciliação dentro do território colombiano. Sem guerra.

ISTOÉ – ISTOÉ ? Como as Farc avaliam as reeleições de Hugo Chávez na Venezuela e de Lula no Brasil?
Raúl Reys


Raúl Reyes – Avançamos ombro a ombro junto a outras experiências políticas de caráter popular que estão surgindo na América Latina. Trata-se de uma luta política antiimperialista, porque não queremos mais o jugo da dominação norte-americana. Nesse sentido, esses dois ilustres presidentes nos podem ajudar, como podem fazer muito mais que isso. São governos que, de maneira soberana, podem reconhecer em um dado momento que num determinado país surge uma nova realidade política. É isso o que estamos construindo na Colômbia. Já não é mais só um sonho, só um desejo.

ISTOÉ – ISTOÉ ? Existem contatos políticos das Farc com o PT para reconhecer a independência do território controlado pelos guerrilheiros?
Raúl Reys

Reyes – No PT, muitos militantes sabem da justiça de nossa luta, mas outros não têm a mesma opinião. O que destacamos dessa entidade política brasileira é o conhecimento e o compromisso político com a causa dos direitos humanos na Colômbia. A solidariedade humanitária é uma bandeira de luta de caráter internacionalista. A dificílima situação dos direitos humanos em nosso país clama para que ela seja concreta e eficaz.

ISTOÉ – ISTOÉ ? O que querem as Farc?
Raúl Reys

Reyes – Lutamos pela segunda, total e definitiva independência. Haverá um desenlace, claro. A América Latina está indicando isso. A classe dominante chegou ao topo em sua corrupção, decomposição, nível de violência e de prostração ante os EUA. Sobre essa crise, cavalga (Álvaro) Uribe (presidente colombiano). Mas ele não tem as rédeas. Na realidade, seu governo está caindo aos pedaços. Não lhe resta outro caminho a não ser renunciar. E a reconciliação do país poderá ser feita sem guerra. Essa é a melhor alternativa. As condições para isso estão amadurecendo aceleradamente.

ISTOÉ – ISTOÉ ? Os militares brasileiros preocupam-se com a presença das Farc, a 20 quilômetros da fronteira. Existe risco de conflitos?
Raúl Reys

Reyes – A hora atual não é de conflitos, mas de busca conjunta de transformações que nos levem até a criação de pátrias livres, soberanas, integradas como irmãs. Essa importantíssima tarefa já começou. Basta olhar a Cuba Revolucionária, a Venezuela Bolivariana, a Nicarágua Sandinista, a Bolívia, o Equador. E, como não, o Brasil, cujo povo iniciou a conquista de condições de vida pelas quais sempre lutou, e também de forma admirável. Pouco a pouco, vamos nos reconhecendo como um mesmo e único povo latino-americano-caribenho.

ISTOÉ – ISTOÉ ? Além do Imposto para a Paz, que cobra 10% dos milionários, as Farc estão levantando dinheiro com plantações de coca e com o tráfico de drogas?
Raúl Reys

Reyes – Contra nós desde que iniciamos a luta pela tomada do poder, os grandes meios de comunicação se converteram em difusores de campanhas infames impulsionadas pelos EUA. Cunharam já há muitos anos o termo narcoguerrilha. E veja você agora quem está na administração pública. Nem o velho narcoparamilitar Uribe escapa. Por isso, em defesa do decoro da pátria, exigimos que esse indivíduo renuncie ao cargo que de maneira ilegítima e ilegal ocupa. Com que moral esse senhor ocupa o assento presidencial se a sua eleição e reeleição estão manchadas de sangue inocente?

ISTOÉ – ISTOÉ ? Qual é a postura das Farc diante do tráfico internacional de drogas?
Raúl Reys

Reyes – Primeiro, é preciso dizer que esse não é um problema militar que se resolva com armas. Desde que apareceu o narcotráfico, o Império o converteu em pretexto para manter a sua ingerência em nossos países. E, na Colômbia, o combate às drogas é uma das formas de violência oficial “made in USA” contra o povo. Usam como pretexto as plantas de coca para atacar grandes áreas campesinas com o fim de destruir esse tecido social, roubar-lhes as terras e abrir espaço para as transnacionais, especialmente norte-americanas. O fenômeno da produção, comercialização e consumo de drogas deve ser entendido como um problema social de grandes proporções.

ISTOÉ – ISTOÉ ? Como solucionar o problema das drogas nas sociedades que a consomem?
Raúl Reys

Reyes – Há muito tempo defendemos que o consumo de cocaína seja legalizado, pois é uma boa forma de cortar a jugular desse negócio que obedece às leis do mercado capitalista: se há demanda, alguém produz. Mas, como é um negócio que gera dividendos apenas um pouco menores que os do petróleo, os primeiros interessados em que seus lucros não caiam são os bancos, as empresas que fabricam os componentes químicos usados na produção e os traficantes.

ISTOÉ – ISTOÉ ? Se a Colômbia reconhecer o caráter político das Farc, o país teria que se tornar mais socialista ou as Farc mais capitalistas?
Raúl Reys

Reyes – O objetivo é a construção do socialismo. Um socialismo que não seja tipo imitação. Que leve em conta nossa história, tradições, costumes, idiossincrasias e cultura. Que o povo de maneira soberana seja o protagonista principal. O construtor de um sistema econômico que acabe com a conhecida história de uns poucos que acumulam sem limite porque exploram o trabalho dos outros arrebatando-lhes o fruto de seu suor.

ISTOÉ – ISTOÉ ? Em que nível os produtos químicos que os EUA estão dando à Colômbia para a fumegação das plantações de coca está contaminando os rios da Amazônia?
Raúl Reys

Reyes – Esse veneno está sendo convertido em arma de guerra. É um dos componentes do Plano Colômbia, porque com ele buscam expulsar das regiões campesinas seus moradores. A Colômbia é o país do mundo com o maior número de exilados internos, pessoas expulsas de suas terras. A crise humanitária é gravíssima, o respeito aos direitos humanos é coisa do passado para o atual governo. Os males causados às pessoas de todas as idades, aos animais grandes e pequenos, à fauna, à flora e às águas, aos cultivos agrícolas têm a intenção de exterminar o tecido social de regiões imensamente ricas em diversos minerais para abrir espaço para as transnacionais norte-americanas e ao paramilitarismo de Estado.

ISTOÉ – ISTOÉ ? Quais são as condições das Farc para trocar os presos nas montanhas por membros da guerrilha detidos na Colômbia e nos Estados Unidos?
Raúl Reys

Reyes – O apoio político à realização desse evento vem crescendo. Esse apoio adquiriu contornos nacionais e internacionais, pois vários governos estão dispostos a servir de facilitadores. Agora, é óbvio que tudo isso está deixando o governo e seu presidente em dificuldades para seguir enganando, mentindo e dizendo que nós é que somos os mentirosos. Eles enganam a comunidade internacional, as personalidades dispostas a ajudar na troca, mas dizem que nós é que fazemos esse papel de enganar. Nós estamos prontos.

ISTOÉ – ISTOÉ ? Quais os principais representantes das Farc que poderiam ser libertados nesta troca, no exterior e nos presídios da Colômbia?
Raúl Reys

Reyes – Temos Sonia e Simón Trinidad, que foram extraditados pelo mordomo fascista dos Estados Unidos na Colômbia. Também temos Rodrigo Granda, preso numa cadeia colombiana. A maioria dos nossos guerrilheiros bolivarianos não caiu nas mãos do inimigo porque estava em combate. Ao contrário, estava no cumprimento de missões de caráter civil, social, familiar, em tratamento médico, quando viajava para se encontrar com personalidades da vida pública do país ou de organizações internacionais. O tratamento que essas pessoas recebem é desumano. A perseguição aos familiares que as visitam, aos seus entes queridos, é uma forma de mantê-las em constante intimidação.

ISTOÉ – ISTOÉ ? Que critérios poderiam ser usados na troca, já que alguns presos ? como a ex-candidata a presidente Ingrid Betancourt, presa em 2002 ? são considerados troféus por vocês?
Raúl Reys

Reyes – Já indicamos que a troca deve ser todos por todos, incluídos os três oficiais da CIA feitos prisioneiros quando o avião no qual cumpriam suas missões de espionagem e de inteligência militar na área de conflito foi derrubado. As prisioneiras e prisioneiros em nosso poder recebem o tratamento humanitário que permitem as circunstâncias do confronto. É óbvio que uma guerra não é um passeio turístico. É por isso que sempre dizemos que os fatores que originam o conflito se resolvem através da solução política, destacada como primeiro ponto em nossa plataforma para um governo de reconstrução e reconciliação nacional. Só que a ingerência dos Estados Unidos e a atitude apátrida e violenta dos que governam nosso país implantaram o terrorismo de Estado, que aplicam por meio do paramilitarismo e do narcotráfico. Essa forma violenta de governar tem seu destino marcado: o fracasso. Uribe na arena internacional está caindo como mosca no leite. Ainda que seja com diplomacia, não deixa de ser um passa-fora. Tudo porque ele está se convertendo numa espécie de Caim dos colombianos.





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