Comportamento

O sabor da copa

Carne de cachorro à parte, culinária coreana mexe com o espírito e provoca fortes sensações

Jimmy é um simpático vira-lata que vive no Golden Garden, um dos melhores restaurantes coreanos de São Paulo. Sua dona, Adriana No, 27 anos, gerente e filha dos proprietários da casa, o acha uma gracinha. Magricela, pêlos curtos e ralos, rabo fino, o bicho não tem nenhum atrativo que o diferencie na turma dos sem-raça. Mas essa não parece ser a opinião dos frequentadores da casa. Se dependesse de alguns deles, Jimmy já teria virado sopa de cachorro. “Certa vez, um cliente olhou para ele e disse: ‘Huummm, esse cachorro parece gostoso. Você pode cozinhá-lo para mim?’”. Fiquei apavorada e disse que aqui não se come cachorro. Imagina! Fazer uma coisa dessas com o meu Jimmy”, diz a indignada Adriana, segurando o “filho” no colo.

Para desespero dos defensores do animal, o consumo de carne de cachorro é uma tradição milenar na Coréia do Sul, país que receberá a Seleção Brasileira na primeira fase da Copa do Mundo. O costume tem provocado reações de indignação, tanto de quem está do lado dos lulus quanto dos próprios coreanos, revoltados com a intromissão nos seus costumes. Mas a gastronomia coreana não se resume a ensopado de vira-lata. Pouco conhecida no Brasil, a culinária daquele país reserva uma série de surpresas àqueles que se aventuram a conhecê-la. Mas antes de cair em tentação lembre-se de um importante detalhe: peça bastante água. Tal precaução deve-se ao largo uso de pimenta, a prima-dona da cozinha do país asiático. Ela está presente em carnes, ensopados, panquecas e principalmente no kim-tchi, o enroladinho flamejante de acelga que é uma espécie de arroz-com-feijão deles.

Mas o kim-tchi é para iniciados. Uma boa sugestão para os curiosos é o bur-go-güi, o famoso churrasco coreano. As diferenças com o brasileiro são muitas. Para começar, a carne, contra-filé, é assada na phan, uma chapa cônica de ferro que é colocada na própria mesa do freguês. O prato vem com 16 acompanhamentos, entre eles pepino, alface, escarola, arroz, nabo e o kim-tchi. Comer o gostoso bur-go-güi é um ritual. Todos se sentam em volta da mesa e mergulham num inusitado e surpreendente mundo de cheiros e sabores. “Nossa comida é horizontalizada. Não temos entrada, prato principal e sobremesa. Vem tudo junto”, explica Hong Kim, 38 anos, vice-presidente da Associação Brasileira de Coreanos.

No outro lado do mundo, o bur-go-güi é servido apenas em ocasiões especiais ou datas comemorativas. O motivo é o preço. “Quando os coreanos chegam aqui, ficam loucos. No Brasil, o bur-go-güi é barato”, diz Adriana No. No dia-a-dia brilham os ensopados. Fazem sucesso o de kim-tchi e o de-jan, caldo com legumes levemente picados. Outro campeão de pedidos, embora seja mais caro e sofisticado, é o re-mur-tigué, ensopado de bacalhau fresco com legumes, verduras e frutos do mar. Porém, em termos de exotismo, nada se compara ao prato de lulas vivas. O molusco vem acompanhado do ko-thujan, uma pasta de pimenta. Mas cuidado! Esta pode ser sua última refeição. “Muitos coreanos morreram engasgados com as ventosas dos tentáculos. Eles ficam se mexendo na garganta”, conta Adriana. Para encarar o prato só tomando um soju antes. O destilado, feito à base de batata-doce, é a cachaça coreana. A bebida consegue a façanha de ser mais suave do que o saquê.

Um dos poucos entendidos no assunto por aqui, o crítico Josimar Mello é fascinado pela forma e pelos ingredientes da culinária coreana. “ Fico impressionado com a maneira como eles utilizam as especiarias. Mas trata-se de uma culinária um tanto simples. Não tem, por exemplo, a sofisticação técnica dos chineses”, diz Mello, declarado apreciador do soju. Essa simplicidade pode agradar aos brasileiros que irão acompanhar a Seleção na Coréia. Afinal, é difícil quem não gosta de uma comidinha simples e bem temperada. Mas, se é assim, por que a gastronomia coreana ainda não atingiu no Brasil o status de outras culinárias asiáticas, como a chinesa e a japonesa? “Quando uma cozinha não se impõe pela excelência, caso da francesa, só mesmo uma comunidade forte e numerosa pode popularizá-la. Esse não me parece ser o caso dos coreanos”, justifica Mello. Tem certa razão. Hoje, cerca de 50 mil coreanos vivem no Brasil. A grande maioria é radicada em São Paulo. Muitos nem sequer falam o português. Pequena parte da comunidade, principalmente os mais velhos, ainda não perdeu o hábito de comer carne de cachorro. Talvez um deles tenha pedido o pobre Jimmy para o jantar.