Cultura

Nas teias da imaginação

Com uma produção de US$ 139 milhões, efeitos mirabolantes e um bom enredo, Homem-Aranha traz às telas as aventuras do super-herói dos quadrinhos

Depois de sonhos intranquilos, Gregor Samsa, personagem de A metamorfose, de Franz Kafka, um belo dia acorda transformado numa barata. Melhor sorte teve o franzino Peter Parker, morador do Queens, em Nova York. Devido à picada de uma aranha alterada geneticamente, o órfão nerd criado pelos tios sai de um estado febril dotado de todos os poderes de um aracnídeo. Melhor: muito mais forte e sedutor. Ao desenvolver uma visão de 180 graus, pôde jogar pela janela os horrendos óculos de fundo de garrafa e, sem colocar os pés numa academia, ganhou bíceps invejáveis. Não bastasse a melhora no visual, passou a escalar prédios altíssimos e a imobilizar marginais com gosmentas teias saídas do próprio pulso. Há tempos, os fãs deste que é considerado o super-herói mais cool das histórias em quadrinhos anseiam vê-lo ganhando vida fora das revistas. Pois agora ele finalmente chega às telas comemorando seu quadragésimo aniversário no arrasa-quarteirão Homem-Aranha (Spider-man, Estados Unidos, 2002), que estréia nacionalmente na sexta-feira 17.

Na mesma velocidade com que seu protagonista galga edifícios atrás de bandidos mal-encarados, a fita dirigida por Sam Raimi, de Um plano simples, já mostrou seu poder de fogo batendo os recordes americanos de arrecadação no primeiro fim de semana de exibição. Faturou US$ 114 milhões, deixando na saudade o líder anterior, Harry Potter e a pedra filosofal, que amealhou US$ 90,3 milhões em sua estréia. Dentro do collant azul e vermelho, com detalhes de uma teia preta, está Tobey Maguire, 26 anos, que recebeu um cachê de US$ 4 milhões para fugir dos papéis de jovens sensíveis e interiorizados como em Tempestade de gelo. Na verdade, os executivos da Sony Pictures não o queriam encabeçando a superprodução de US$ 139 milhões. Os fanáticos do Homem-Aranha, também. Mas Raimi foi inflexível. Disse que só assinaria o filme se sua escolha fosse aceita. “Desde que o vi em Regras da vida, sabia que só poderia fazer o filme com ele”, afirmou o diretor.

Maguire está perfeito no papel, o que garante pelo menos metade do êxito da fita. E ele trabalhou duro. Para não fazer feio no modelito colante, o ator californiano, praticante de ioga há oito anos e vegetariano há nove, obrigou-se a malhar e a seguir uma dieta à base de muita proteína durante cinco meses. Como nunca tinha lido uma história em quadrinhos na vida, tirou o atraso devorando as 40 primeiras do herói da Marvel Comics, criado em 1962 por Stan Lee. Sua aparência desajeitada também caiu como uma luva no garoto apaixonado pela menina mais bonita da classe, a ruiva Mary Jane Watson (Kirsten Dunst), que a princípio não lhe dá a mínima. Foi buscando seduzi-la que Peter Parker começa a usar os poderes recém-adquiridos. A história vai ficando
mais excitante à medida que ele tira proveito das habilidades para perseguir criminosos, desde que um deles tirou a vida de seu tio
Ben (Cliff Robertson).

Para aumentar a adrenalina, Raimi escalou, como super-inimigo do Homem-Aranha, o aterrador Duende Verde (Willem Dafoe), que ataca montado numa prancha voadora. Por debaixo da máscara sem mobilidade – uma das razões da performance mediana de Dafoe – esconde-se Norman Osborne, dono de uma fábrica de armas e pai de Harry, o melhor amigo de Parker. Osborne vira o inimigo público de Nova York após servir de cobaia num experimento de sua empresa. São as lutas entre o Duende e o Aranha que, obviamente, rendem as cenas mais mirabolantes. A primeira delas se passa em Times Square, quando o Duende destrói um prédio durante uma feira internacional. Outra, não menos excitante, tem como cenário a ponte de Queensboro. No auge da crueldade, Duende leva o Homem-Aranha a optar entre o salvamento de Mary Jane ou o de um bondinho carregado de crianças, ambos pendendo sobre o East River.

O casamento entre takes reais e imagens geradas por computador é tão perfeito que se tem a nítida sensação de que tudo foi filmado em locação. Mas só Deus sabe a quantidade de cabos de aço, dublês e horas gastas diante de um arsenal de computadores para dar asas a tanta imaginação. Maguire só não atuou nas sequências de arriscadas acrobacias voadoras e planos muito abertos. Mas garante que uma das cenas mais difíceis foi a do beijo que recebe de Mary Jane, no momento mais romântico e erótico do filme. Ele tem razão. Não deve ser mesmo fácil beijar de cabeça para baixo, sob chuva e com o nariz tampado por uma máscara que quase lhe tirava o ar.