Economia & Negócios

A era do plastico

Da escova de dentes ao motor do carro, da cirurgia no coração ao novo filme de James Bond, só dá ele

Ninguém escapa do plástico, mesmo o mais ferrenho naturalista. Ele está na escova de dentes, na sola do pé (em tênis, sandálias, sapatos), na bandana do Guga, na cozinha inteira, no carro, no avião, nos cosméticos, no capacete do motociclista, nos alimentos, em próteses terapêuticas, na caneta Bic, na embalagem dos sucrilhos que seu filho leva para a escola, em seus CDs preferidos, e até na intimidade da calcinha, das fraldas descartáveis, do sutiã, da cueca e da camisinha… O plástico, nas suas diversas formas (e sob diferentes nomes), tornou-se nos últimos anos uma espécie de faz-tudo, além de confiável indicador de desenvolvimento de um país. Setores como os de utilidades domésticas, telecomunicações, construção civil, brinquedos, calçados, saúde, têxtil, eletroeletrônicos, aviação e automóveis usam cada vez mais o produto para substituir outros materiais, em razão do custo mais baixo e de sua adequação a ambientes e circunstâncias variadas. “Para se ter uma idéia da importância deste segmento, ele recebeu investimentos de US$ 2 bilhões, nos últimos dois anos”, diz Paulo Dacolina, diretor-superintendente do Instituto Nacional do Plástico (INP).

É verdade que casas inteiras de plástico já foram construídas tempos atrás em vários países – inclusive no Brasil, em 1964, pelo escultor Edgar Duvivier, que faleceu na semana passada aos 85 anos deixando para seu filho, o músico e artista plástico que tem o mesmo nome do pai, a tarefa de acabar suas duas últimas encomendas: as estátuas de Oscar Niemeyer e Juscelino Kubitschek. Mas Duvivier, o pai, só “viajava” no material que hoje é onipresente na produção mundial. Termômetro dessa magnitude foi a Feira Internacional da Indústria do Plástico (dos dias 10 a 14), organizada pela Alcântara Machado, realizada em São Paulo e inaugurada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Não devemos nada a nenhuma indústria do mundo”, disse o presidente. O Pavilhão de Exposições do Anhembi, visto de fora, parecia estar recebendo o Salão do Automóvel, tamanha a movimentação (a previsão é de que o saldo final alcance 60 mil visitantes). A cobiçada Gisele Bündchen não estava lá dentro, mas seu par de tênis e suas sandaliazinhas feitas em PVC foram atrações do espaço da Braskem, a maior petroquímica da América Latina, uma entre as cinco maiores indústrias brasileiras de capital privado, com faturamento superior a R$ 7 bilhões.

É uma feira de negócios entre empresas – grandes, como Rhodia, Braskem, DuPont, GE Plastics, Politeno, Eastman, entre tantas outras, e micros e pequenas (90% das empresas do setor). É uma feira onde predominam homens de terno, gravata, pasta, intenções de melhorar seus negócios e cacife para fechar negócios (a agência do Bradesco instalada no Anhembi recebeu, em três dias, propostas de financiamento no valor de R$ 50 milhões). A maioria das mulheres que circularam pelo Anhembi, algumas belíssimas como acontece em todas as grandes feiras, funcionou como uma pausa repousante para quem só fala em “polipropileno” (resina que, entre centenas de funções, é usada na fabricação daquelas cadeiras de boteco, garrafões de água mineral, brinquedos, eletrodomésticos); “pvc” (o mais versátil dos plásticos, usado na área médica, construção, arquitetura&design, moda, embalagens, indústria automotiva, embalagens descartáveis, produtos têxteis, cosméticos, tampas de refrigerante); e “polietileno” (utilizado na produção de sacaria industrial, embalagens de alimentos, fraldas e absorventes higiênicos, fios e cabos para televisão e telefone …)

O vocabulário do setor não é dos mais digeríveis. Não passa pela cabeça de ninguém o insumo “caprolactama” quando se abre uma embalagem de alimento. Mas ele está lá. Como outro palavrão desse tipo está no seu cartão de crédito e em todas as camisetas dry-fit que caíram no gosto da moçada. Popular só o PET, utilizado na fabricação de garrafas de água mineral e refrigerantes. A chamada cadeia petroquímica no Brasil é uma potência. Equivale a 8% do PIB industrial, com faturamento de US$ 17 bilhões por ano. O consumo per capita (sete quilos de polietileno por ano) ainda é modesto se comparado ao dos Estados Unidos (44 quilos), países europeus (36 quilos) e mesmo a Argentina (10,7 quilos por pessoa/ano).

Essas diferenças motivaram brindes e mais brindes com champanhe e vinho na feira do Anhembi. Um sucesso que impressionou muito positivamente o francês Jean-Claude Steinmetz, diretor mundial da Rhodia Engineering Plastics. “É a terceira maior feira do mundo, depois da feira da Alemanha e dos Estados Unidos”, disse o executivo. Ele vê as coisas do topo da Rhodia, que fatura em torno de US$ 750 milhões por ano, sendo que 12% saem de suas vendas de plásticos de engenharia para o setor automobilístico. No Brasil, segundo dados do Instituto Nacional do Plástico (INP), cada veículo utiliza entre 80 e 110 quilos de plástico. No final de década de 80, a média era de apenas 30 quilos. Na agropecuária, o uso do plástico, em toneladas métricas, cresceu de 28 mil em 1989 para 110 mil no ano passado (nada ainda comparável a países como Israel, Holanda, Japão, Estados Unidos, Inglaterra, Itália e Espanha, que usam de 50 a 100 vezes mais plásticos na agricultura do que o Brasil). Na saúde, o produto permite até mesmo, em caso de urgência, a instalação temporária de órgãos artificiais como pulmão e coração.

O horizonte para as indústrias do setor no País é azul da cor do mar porque, apesar do crescimento vigoroso, há um caminho infinito pela frente para crescer. Na edição 2001 da Feira K, o maior evento do setor no mundo, realizada em Dusseldorf, na Alemanha, um piano e escadas rolantes mostraram aonde o plástico injetado pode chegar. Foi um show. Aqui, um show finíssimo de música aconteceu todos os dias no estande da Politeno, uma das principais produtoras de resinas termoplásticas
do Brasil. Outro show você poderá ver no cinema, no filme Um
novo dia para morrer
, mais uma aventura de James Bond, com
música de Madonna. Para conferir realismo ao Palácio de Gelo (cenário
do filme), a produção usou as chapas de Spectar, plástico de alta resistência (30 vezes mais que o acrílico de uso geral), fabricadas
pela multinacional Eastman Chemical.

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