Cultura

Brasil à francesa

Exposição revela o olhar de artistas franceses sobre o Brasil do século XIX e mostra a influência deixada na arte nacional até hoje

Brasil à francesa

O rosto do imperador Escultura de bronze fundido de Marc Ferrez mostra a face do imperador dom Pedro I (DIVULGAÇÃO)

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O rosto do imperador Escultura de bronze fundido de Marc Ferrez mostra a face do imperador dom Pedro I

 

Em suas pinturas, o francês Jean-Baptiste Debret registrou um Rio de Janeiro de costumes e tradições simples. O movimento das ruas, escravos, cenas de um cotidiano comum. Afinal, foi essa imagem prosaica que ele teve do Brasil assim que chegou por aqui, em 1816, quando a Missão Francesa, da qual foi o maior representante, aportou no País. A convite de dom João VI, a comitiva de artistas franceses chegava para ampliar e refinar a cultura da colônia que passara a ser sede da coroa oito anos antes, quando a família real portuguesa desembarcou no Rio fugindo do Exército de Napoleão. Fundadores da Imperial Academia e da Escola de Belas Artes, eles foram responsáveis por profissionalizar diversos artistas brasileiros. Quase dois séculos depois, as obras que marcaram esse período chegam juntas à Pinacoteca do Estado de São Paulo em mostra que revela as marcas e a importância cultural deixadas pela passagem dos franceses. “Antes deles, não tínhamos um ensino acadêmico das artes”, comenta Mariza Dias, que, ao lado de Laura Abreu e Pedro Xexéo, forma a curadoria da exposição, batizada de Missão Artística Francesa. São 75 obras, entre pinturas, gravuras, esculturas e projetos arquitetônicos dos artistas que integraram a missão no Brasil. Também está disponível a produção de seus alunos mais notáveis.

As peças, todas pertencentes ao acervo do Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, deixam a galeria pela primeira vez para serem mostradas de forma itinerante. “O nosso objetivo, com essa exposição, é homenagear a Missão Francesa e tudo o que ela representou para o País no século XIX, quando nosso desenvolvimento artístico foi tão significativo que podíamos, até mesmo, competir com a arte européia”, afirma Mariza. Além disso, a mostra também permite uma reflexão sobre a adaptação feita no País do estilo neoclássico. “Os artistas que chegaram ou se formaram no Brasil absorveram toda a cultura tropical para representar o nosso país. Dizemos que, aqui, o neoclassicismo foi abrasileirado”, analisa Mariza.

Organizada em três módulos temáticos, a exposição traz obras assinadas por artistas como Nicolas Antoine Taunay, Auguste Henri Victor Grandjean de Montingy e os irmãos Marc e Zépherin Ferrez. A produção nacional é representada por nomes não menos importantes, como Manuel de Araújo Porto-alegre, August Muller e Francisco Manuel Chaves Pinheiro. Ao lado dessas peças, representações iconográficas dos primeiros mestres da Academia, produzidas por vários artistas, completam a seleção. Apresentando uma fase importante da história cultural brasileira, a mostra permite reflexões únicas aos visitantes. “É uma chance de analisarmos a importância exercida pela coroa portuguesa no Brasil. Talvez, se não tivéssemos passado por essa experiência, não teríamos a mesma representação nas artes”, conclui Mariza. O legado deixado pela Missão Francesa fica exposto na Pinacoteca até 30 de setembro.

 

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Óleo sobre tela Estudo para desembarque de D. Leopoldina no Brasil, de Jean-Baptiste Debret.

 

 

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Retrato de D. João VI, de Charles Simon Pradier. E, à dir., Morro de Santo Antônio, óleo sobre tela de Nicolas Antoine Taunay