Ediçao Da Semana

Nº 2741 - 05/08/22 Leia mais

NATACHA PISARENKO/AP/IMAGEPLUSOitenta e oito bebês nascidos em prisões clandestinas e doados ilegalmente já foram identificados e localizados por meio das Abuelas de Plaza de Mayo, o movimento de mulheres que perderam os filhos para a ditadura militar argentina (1976-1983), mas não desistiram de encontrar os netos. Aos 30 anos, María Eugenia Sampallo Barragán, uma daquelas crianças arrancadas do convívio com a família, acaba de fincar um marco na história recente do país. Depois de recuperar a própria identidade, ela está processando o militar que a tirou da mãe e o casal que simulou ser seus pais. No tribunal, cuja sentença deve ser anunciada no próximo dia 4, até vizinhos convocados pela defesa do casal acabaram prestando depoimento favorável a María Eugenia.

Ela não sabe exatamente quando nem onde nasceu. Tampouco sabe onde passou os primeiros dois ou três meses de vida.

Seus pais, Mirta Barragán e Leonardo Sampallo, foram presos em dezembro de 1977 em Buenos Aires e levados para um centro de detenção clandestina. No momento da prisão, Mirta estava grávida de seis meses e em companhia do filho de três anos, resgatado pela família em uma dependência policial. De acordo com sobreviventes da prisão clandestina “El Banco”, Mirta foi levada para o Hospital Militar em fevereiro de 1978. Nunca mais se teve notícia dela nem do companheiro. Antigos militantes do Partido Comunista Marxista Leninista, os dois eram operários e atualmente fazem parte das cerca de 30 mil pessoas desaparecidas durante a Guerra Suja, como é chamada a repressão desencadeada pela ditadura militar argentina contra seus opositores.

María Eugenia, por sua vez, cresceu num edifício de Constitución, um bairro portenho de classe média, como se fosse a filha única de Osvaldo Rivas e María Cristina Gómez Pinto. Quando tinha cerca de nove anos, uma psicóloga convocada pelo casal contou-lhe que havia sido adotada depois que os pais biológicos morreram em um acidente de carro. Interessada em saber mais sobre a sua origem, a garota tentava com freqüência conversar sobre o assunto. “No decorrer dos anos, Cristina e Osvaldo me contaram distintas histórias sobre quem teriam sido os meus pais”, relatou María Eugenia na Justiça. “Me disseram que era filha da empregada doméstica de meus avós paternos.” Em outra ocasião, contaram que ela nascera de uma relação extraconjugal da mãe, uma aeromoça européia. Segundo uma das últimas versões, relatada por uma amiga da mãe adotiva, ela nascera de uma relação extraconjugal do militar José Enrique Berthier, um amigo do casal.

JUAN MABROMATA/AFP/GETTY IMAGES

ALIADAS María Eugenia (à esq.) descobriu sua história com a ajuda das mulheres da Plaza de Mayo

 

Logo que teve oportunidade, a garota conferiu a história diretamente com o militar. Berthier negou a paternidade, mas assumiu que avisara ao casal que havia uma criança abandonada no Hospital Militar. Com isso, aumentou ainda mais a inquietude de María Eugenia sobre sua trajetória. Aos 11 anos, ela já tinha sido procurada por integrantes do grupo Abuelas de Plaza de Mayo, por conta de uma denúncia anônima. Naquela época, Rivas e Maria Cristina haviam se separado e o relacionamento entre María Eugenia e a mãe adotiva era repleto de atritos. Não restava à garota, no entanto, outra alternativa de lar: um exame de DNA não detectou nenhuma compatibilidade entre ela e os desaparecidos registrados no banco de sangue das Abuelas.

Aos 19 anos, María Eugenia rompeu com Rivas e María Cristina e saiu de casa. Em sua contínua busca pelo próprio passado, apostou no avanço da tecnologia e fez um novo exame de DNA. Em 2001, resgatou finalmente sua identidade e se uniu à família verdadeira. A alegria do período foi rompida pelos falsos pais, que resolveram processá- la por calúnia e difamação, já que dissera que havia sido maltratada. Ao se defender na ação, María Eugênia decidiu passar a limpo toda a história e acionou o casal por ter-lhe roubado a identidade. Na Justiça, vizinhos do casal confirmaram que o bebê aparecera no apartamento já com dois ou três meses e se tornara vítima de maus-tratos à medida que crescia.

Convocada pela defesa dos falsos pais, uma das vizinhas repetiu no tribunal os gritos de María Cristina com a menina, então com cerca de quatro anos. “Criei você com fraldas de seda. Se não fosse por mim, estaria jogada na sarjeta, moleca caprichosa. Tinha que ser filha de guerrilheira para ser tão rebelde”, relembra a testemunha Olga González. María Eugenia não se lembra da cena, mas está firme em sua decisão de pedir a condenação máxima – 25 anos – para os falsos pais e para Berthier, hoje capitão da reserva, que está preso preventivamente. Ao final de um processo que se arrasta por mais de cinco anos, está comprovado que Berthier a levou ao casal, ainda bebê. Um médico já falecido atestou seu nascimento como filha natural de Rivas e María Cristina. “É difícil aceitar pessoas, sejam militares ou civis, que cometem este tipo de crime”, disse María Eugenia durante uma das audiências. A sentença do caso está prevista para sair na primeira semana de abril, 11 dias depois de o golpe militar que selou a sorte de María Eugenia completar 32 anos.

"Se não fosse por mim, estaria na sarjeta. Tinha que ser filha de guerrilheira para ser tão rebelde"
Da mãe adotiva para María Eugenia, segundo a testemunha Olga González