Cultura

A cidade cresceu

Com o filme Cidade dos homens, os personagens Acerola e Laranjinha atingem a maioridade e a produtora O2 se firma como uma das mais importantes do Brasil

A cidade cresceu

 

cinema1_90.jpg

 

Quando Acerola (Douglas Silva) e Laranjinha (Darlan Cunha) conquistaram o público na bem-sucedida série Cidade dos homens, eles eram moleques tentando sobreviver sem cair na tentação do crime, como a maioria dos meninos, meninas, homens e mulheres que moram em favelas, acuados pelo tráfico, pela pobreza e pela polícia. Pois a dupla conseguiu escapar de tudo isso e alcançou a maioridade, como mostra Cidade dos homens, o filme. Aos 18 anos, eles sofrem o rito de passagem da adolescência para a vida adulta. Acerola tem um filho de dois anos e se sente preso, enquanto Laranjinha trata de reencontrar o pai. "Na favela, a grande maioria das crianças é criada pelas figuras femininas. Como os meninos não têm a figura paterna em casa, vão procurar quem tem mais poder… E às vezes acaba sendo o traficante", diz o diretor Paulo Morelli, sócio de Fernando Meirelles e Andrea Barata Ribeiro na O2. Para a produtora, o filme também tem gosto de aniversário de 18 anos. "É o fechamento de um ciclo", afirma Morelli, referindo-se ao curta Palace 2, de 2000, exibido como especial na Rede Globo e que serviu de ensaio para o filme Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, de 2002. Nesse mesmo ano, veio a série Cidade dos homens, contraponto para o violento longa-metragem.

A O2 já era a maior do País em publicidade quando Cidade de Deus virou cartão de visita de seu potencial no cinema. Hoje, a produtora é das mais importantes no cinema nacional e não pára de crescer. Criou novos departamentos, como a O2 Digital, que cuida de produtos para internet e celular, e a O2 Internacional. "Existe um enorme mercado de serviço de produção. O Brasil tem bons preços, excelentes locações e casting, profissionais qualificados e praticamente todo tipo de equipamento, e isso atrai as produções estrangeiras de todo o mundo", diz a produtora-executiva Bianca Corona. A idéia, no entanto, é também investir em co-produções estrangeiras para longas e documentários e fazer com que os diretores da casa comandem filmes fora do Brasil.

 

 

/wp-content/uploads/sites/14/istoeimagens/imagens/mi_247013852579091.jpg

/wp-content/uploads/sites/14/istoeimagens/imagens/mi_247136797167164.jpg

OS SÓCIOS Andrea Barata Ribeiro e Paulo Morelli (à esq.) e Fernando Meirelles (à dir.): de olho no mercado externo

 

Muitos dos novos projetos apontam para o Exterior. Depois do inglês O jardineiro fiel, Fernando Meirelles está rodando Blindness, baseado na obra Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, com Julianne Moore e Gael García Bernal. "Até aqui está tudo bem", afirma ele, por e-mail, do Canadá. "Clima de trabalho ótimo, belas imagens, boas performances, estamos dentro do cronograma e do orçamento. Vamos ver se o filme presta", diz o bem-humorado cineasta. A O2 conquistou espaço privilegiado entre as produtoras cinematográficas brasileiras, fechando um acordo com a Focus, braço da Universal, para a produção de filmes. Os diretores Nando Olival, Cao Hamburger e Heitor Dhalia, um dos mais novos contratados da O2, terão seus próximos longas beneficiados por ele.

/wp-content/uploads/sites/14/istoeimagens/imagens/mi_247164010120706.jpg

CIDADE DOS HOMENS Acerola e Laranjinha (acima) enfrentam dilemas de paternidade no filme baseado no seriado de sucesso da Globo

 

Mas a produtora deseja mais. "Em cinco anos, quero ter mais facilidade de fazer longas", afirma a sócia Andrea Barata Ribeiro. "Fazer cinema no Brasil não é fácil. A gente gostaria de ter condições de fazer alguns filmes por ano. Mas não adianta fazer um monte, porque você não consegue lançar. Por isso é importante pensar mundialmente", afirma ela.

O engraçado é que Fernando e Paulo diziam que a O2 caberia sempre no sobradinho que ocupavam na praça Benedito Calixto, em São Paulo. "Nem no meu sonho mais megalomaníaco imaginava que a produtora ia ficar deste tamanho. Sempre falamos que queríamos nos manter pequenos para sermos livres", diz Fernando Meirelles. Atualmente, a empresa ocupa meio quarteirão na Vila Leopoldina e adquiriu uma área ao lado para expandir seu setor de pós-produção. "Mas, no fundo, é só mais um puxadinho", brinca Paulo Morelli. De puxadinho em puxadinho, a O2 se tornou a produtora de cinema mais badalada do Brasil.

OS NÚMEROS DA O2
-80 funcionários
-600 pessoas chegam a passar pelo prédio todos os dias
-15 diretores fixos
-250 peças publicitárias por ano, em média. Em 2006, produziram-se mais de 1.000 peças publicitárias
-Em 16 anos, foram feitos 8 longas e 3 séries de tevê
-Na história da produtora, utilizaram-se 27.917 latas de negativo, o que dá 3.351 km
-153.697 atores foram testados pela produtora