Comportamento

Meu primeiro amor

As crianças se apaixonam cada vez mais cedo. O que os especialistas aconselham para que este sentimento não prejudique a vida dos pequenos

Meu primeiro amor

Montagem sobre foto: Max G Pinto

BEM RESOLVIDOS O namoro não atrapalha a rotina de Carol,
dez anos, e João Pedro, 11

A vida, naquela primeira década, teve como marca a leveza das emoções. Crises iam embora na primeira conversa com os pais. Pequenos dilemas eram encarados e resolvidos de forma lúdica. Até que, de uma hora para outra, desencadeia-se a tempestade. A pulsação entra em ritmo frenético. Nas mãos suadas ou nos cadernos, bilhetes com mensagens do tipo: “Eu te amo. Sem você não posso viver.” É o primeiro amor, a primeira paixão, o turbilhão de sentimentos que toma conta da rotina de crianças e pré-adolescentes. Ele começa a varrer o coração dos pequenos entre os nove e os 12 anos, justamente na fase em que os hormônios iniciam sua festa no corpo humano. E pode destruir o equilíbrio da garotada, ainda despreparada para enfrentar essa avalanche de sensações. O efeito é de um nocaute. Por vergonha, as crianças levam meses para revelar o segredo. Às vezes nem contam. Os pais, pegos de surpresa, não sabem como administrar a nova realidade. Por todos esses motivos, o tema vem recebendo atenção cada vez maior de pesquisadores, terapeutas, psicólogos, pedagogos e professores. O desafio é criar ferramentas para que um sentimento nobre, fruto de uma pureza comovente, não anule, por ironia, a alegria de viver típica desta faixa etária.

O primeiro amor, atestam os especialistas, exerce um papel essencial na forma como o indivíduo irá se relacionar com o mundo e com as pessoas no futuro. Por isso, ele não pode ser tratado como simples brincadeira. “Quando é correspondida, a primeira relação amorosa faz muito bem. Eleva a auto-estima e faz as crianças se sentirem valorizadas. Além disso, a sexualidade começa a ser definida neste período”, analisa a psicóloga Cristiana Pereira, habituada a atender o público infantil e adolescente. É também o momento em que a meninada, ao pensar horas a fio no outro, descobre a abstração. O caso da paulistana Carolina Diniz, dez anos, é exemplar. “O João Pedro me emociona. Meu sonho é estar com ele o tempo todo. E ele também sonha comigo”, diz, convicta – até onde alguém com dez anos pode estar convicto – de que encontrou o príncipe encantado. Juntos há um ano e meio, Carolina e o namorado, João Pedro Pinto Leite, 11 anos, se encontram nos arredores da escola, onde, segundo ela, “a paisagem é bonita”. O entusiasmo do garoto não é menor. “É primordial fazer a Carol feliz. Se ela não estiver contente, não irá me corresponder. E aí, eu vou ficar abalado”, reflete João Pedro, que escreve poemas e os envia à amada pelo Orkut.

Fotos: Max g pinto

UM PACTO DE CONFIANÇA A mãe prometeu a Isabella
não revelar o nome de sua paixão. “Ao lado dele,
minha testa sua. Respiro fundo para parecer normal”,
confessa a menina

O pediatra Fábio Ancona Lopez, da Universidade Federal de São Paulo Unifesp), lembra que em toda paixão há um estado alterado da consciência. Com os pequenos não é diferente. “O centro do mundo passa a ser o objeto amado”, afirma. Na pré-adolescência, a criança se desenvolve nos aspectos emocional e corporal. Nessa fase, iniciam-se as primeiras experiências com o mundo externo. Meninos e meninas despertam para padrões além dos apresentados pelos familiares. Começam a se firmar sexualmente, mas ainda não têm consciência sobre seus sentimentos. Não conseguem compreendê-los. Apenas sentem, muitas vezes de modo arrebatador. A criança que diz estar amando freqüentemente acredita que aquele amor é único. Nessas horas, a habilidade para escutar os filhos é fundamental, atesta a psicóloga Cristiana. “Por mais aflitos que fiquem, os pais precisam perceber que receberam um presente do filho, que os escolheu como confidentes”, explica a especialista.

Fotos: Max g pinto

GOSTAR TEM SEUS RISCOS A pedagoga da escola achou que
Jéssica estava se expondo por causa de
um menino mais velho.Ela não o esqueceu.
“Mas não fico mais na cola dele”, diz

Muitos pais questionam se é hora de o filho se apaixonar. É uma postura inócua: a situação está posta e, de resto, amores não chegam em momentos agendados. O fundamental é mostrar acolhimento e reforçar os laços de confiança. Outro aspecto importante é respeitar o ritmo da criança e deixá-la tomar a iniciativa de falar sem pressões. Isabella Scuotto, dez anos, não gosta de comentar seus sentimentos com os adultos, mas confessou à mãe estar apaixonada. A menina costuma se arrumar com capricho para ir à escola. Passa batom, faz tudo para chamar a atenção do seu amor platônico, um colega de escola. Até agora, o menino não desconfia do que se passa porque Isabella não teve coragem de contar. “Quando estou ao lado dele, minha testa sua e tenho de respirar fundo para parecer normal”, relata. A estudante fez com a mãe, Fernanda Pavani, um pacto de segredo – o pai é ciumento e pode reclamar. Situação, aliás, que deve ser contornada. “Os pais precisam lidar com o crescimento dos filhos. Este é o primeiro anúncio de que a criança está se abrindo para o mundo”, explica a psicóloga Lisete Calef, também especializada em atendimento infantil.

Fotos: Max g pinto

"EU SÓ PENSAVA NELA" Thomas contou com a mãe
para esquecer a amada. No quarto, a foto da menina
agora está virada

Quando o jovem apaixonado começa a alterar sua rotina de estudo e de atividades com os amigos, o melhor é buscar ajuda. Choros por dias a fio, queda repentina nas notas escolares ou noites insones são sinais de que algo pode estar errado. A garotada também leva foras e isso provoca dor. Nada que lembre as epopéias românticas de Tristão e Isolda, mas capazes de deixar pequenas cicatrizes. A pesquisadora americana Nancy Kalish, professora de psicologia da Universidade Estadual da Califórnia, nos Estados Unidos, entrevistou 1,6 mil pessoas entre 18 e 92 anos e descobriu algo surpreendente: três em cada dez gostariam de reatar com o primeiro amor. “Muitos se separaram de seus primeiros romances por conta dos pais. Por isso, se a pessoa não estiver fazendo mal a seu filho, deixe-os em paz”, aconselhou a psicóloga em entrevista a ISTOÉ. Outro ponto importante é o respeito à privacidade da criança. Nada de bisbilhotar o computador ou a pasta da escola em busca de provas. “Respeito a Isabella. Não leio seu diário”, diz a mãe, Fernanda.

Diante da frustração amorosa do filho, não adianta dizer que há centenas de outros pretendentes. O melhor é fazê-los entender que a perda e o sofrimento são sentimentos com os quais todos devem aprender a conviver. A odontopediatra brasiliense Adriana Barreto começou a notar que sua filha Rafaela, 12 anos, chorava copiosamente todas as vezes que assistia a Meu primeiro amor. No filme, o personagem vivido pelo ator Macaulay Culkin tinha uma namorada de dez anos. Depois, vieram perguntas do tipo: “Mãe, quando você deu seu primeiro beijo na boca?” Rafaela tinha se declarado a um menino da escola. Ficou com ele por seis meses e, depois, foi trocada por outra. “Minha amiga me contou que ele tinha me traído. Fiquei muito triste”, conta ela. Rafaela chorou muito, devorou muito chocolate, engordou e afogou as mágoas escrevendo poesias. Depois passou. “Eu o perdoei porque perdôo fácil”, conta a menina. Dar importância exagerada a algo que pode ser passageiro também faz parte da lista de posturas condenadas. “Quando uma criança que não tem namorado é questionada insistentemente sobre isso, poderá concluir que há algo errado com ela”, afirma a psicóloga Lisete.

Em alguns casos, a paixão inicial do filho traz para os pais a preocupação com um outro tema polêmico: a iniciação sexual precoce. Uma pergunta freqüente é: “Se a minha filha der um beijo, ela depois irá adiante?” Quase sempre não. É preciso distinguir esse primeiro amor na pré-adolescência do que a garotada chama de “ficar”. “É diferente do ficar porque supõe fidelidade ao outro”, adverte a psicóloga Cristiana. Uma gíria comum entre esses meninos e meninas, usada em mensagens na internet, é a BV, as iniciais de Boca Virgem. “Perdi meu BV” quer dizer “dei meu primeiro beijo”. Para eles, isso é uma conquista.

Fotos: Max g pinto

A PAIXÃO QUE FAZ BEM Bruno melhorou o seu desempenho
nos estudos após conquistar a “bonitona” da classe

Em algumas situações, a paixão de estréia pode fazer muito bem aos pequenos. Ficar com a menina mais bonita da classe é um sinal de status para os meninos. Bruno Scursoni, 12 anos, interessou-se por uma delas. Seus colegas disseram que ele não deveria perder a chance de estar com a bela garota. Ele faz questão de dizer que não é nada sério. “Não sou muito chegado em namorar”, diz ele. Apesar de negar o namoro, só o fato de ele estar ligado à menina fez com que os educadores notassem uma mudança positiva em seu comportamento. “Todos os professores disseram que o comportamento do Bruno melhorou”, afirma a pedagoga paulista Vanessa de Carvalho Salomon. Para conquistar as meninas, é comum os garotos exibirem suas qualidades na escola.

Os professores também precisam estar atentos à situação emocional da criança. E, em algumas situações, devem agir. Falante e galanteador, Thomas Anderson Esch, 11 anos, passou por uma grande desilusão. “Sofri por uma menina. Tive dificuldade na escola, principalmente em matemática. Não conseguia prestar atenção nas aulas. Só pensava nela.” A mãe, a professora Anne Anderson, foi chamada para se inteirar da situação. “Ele ficou arrasado. A gente até torceu para ele reconquistá-la, mas, ao mesmo tempo, tudo pareceu ser cedo demais”, conta ela. Thomas diz ter superado a paixão. “Agora sei que posso gostar de outras e não deixar isso atrapalhar a minha vida”, afirma ele. Em seu quarto, um porta-retrato com a foto da menina permanece virado de costas. “Nesta fase, eles sofrem muito com a rejeição”, explica a terapeuta Maria Teresa Maldonado, autora do livro Cá entre nós – na intimidade das famílias. “São os primeiros passos da alfabetização amorosa”, completa ela.

Roberto Castro

ROMANTISMO JUVENIL Rafaela passou a chorar ao
ver filmes de amor. Estava muito apaixonada por um
amigo de escola

Outro caso em que os educadores tiveram que intervir foi o de Jéssica Rezende, 12 anos. A pedagoga Vanessa achou que a menina, aluna de uma escola em que trabalha, poderia se expor demais por estar apaixonada por um menino mais velho. A classe inteira soube do amor de Jéssica pelo rapaz. “Eu mandei um bolo de cartas para ele. Tinha vergonha de chegar perto, ficava nervosa. Hoje somos amigos”, conta a garota. Ela não desistiu de namorá-lo um dia, mas optou por “não ficar mais na cola dele”. Bem orientada – e sem perder a ternura –, resolveu a questão da melhor maneira possível. A lição, sobretudo para os pais, é clara: é preciso sensibilidade para tentar amenizar os eventuais sofrimentos sem criar bloqueios afetivos nos corações puros das crianças. Amar é bom. Ser amado também. Que elas cheguem à maturidade certas disso.