Ediçao Da Semana

Nº 2741 - 05/08/22 Leia mais

"Prezado(a) sr(a)., a Associação Brasileira de Estudos e Pesquisas dos Odores da Boca (ABPO) é formada por profissionais da área da saúde que se dedicam principalmente ao estudo e às pesquisas sobre a halitose (mau hálito). (…)Criamos o SOS Mau Hálito, que é um espaço na internet para pessoas que têm um amigo portador desse problema e ficam constrangidas de informá-lo. Por que a ABPO está lhe enviando esta correspondência? Porque um amigo próximo a você solicitou que entrássemos em contato para alguns esclarecimentos”. É assim, por esse texto enviado via email, de maneira simples, discreta e explicativa que a ABPO comunica a uma pessoa que ela pode sofrer de halitose, um problema que atinge cerca de 50 milhões de brasileiros e que ainda é cercado de mitos e preconceitos.

Para que a mensagem não se resuma à má notícia, há também dicas sobre causas e informações a respeito de como e onde tratar o distúrbio em qualquer região do País. O recado dado por meio do correio eletrônico evita constrangimentos e, segundo a associação, tem sido bem recebido pelos destinatários: 98% dos pacientes se disseram gratos aos que os alertaram. Faz sentido. Dessa maneira, são avisados, e de maneira não vexatória. “Conseguimos ajudar de forma eficiente sem agredir”, afirma Daiane Rocha, presidente da ABPO.

De fato, na questão do mau hálito, toda a delicadeza é fundamental. Em geral, o portador se envergonha de sua condição. Isso quando descobre que tem o problema, o que muitas vezes não acontece espontaneamente. Várias pessoas não se dão conta do distúrbio graças a um fenômeno fisiológico chamado fadiga olfatória, em que o organismo deixa de notar com o tempo odores constantes em nossas vidas. Mas, quando o indivíduo tem consciência do que acontece com ele, o mau hálito pode se transformar em um pesadelo. De acordo com pesquisa realizada pela ABPO com 127 pacientes, 88% contaram ter sofrido mudanças em sua vida social, afetiva e profissional. Nada menos do que 23% relataram ter se tornado pessoas retraídas, inseguras (26%) e com baixa auto-estima (14%).

A halitose não é considerada doença, mas pode ser sintoma de transtornos mais sérios, como diabete, prisão de ventre, problemas em vias aéreas (adenóides, rinites, sinusites, etc.), renais ou hepáticos, além de uma dose extra de stress. Ao todo, são mais de 50 causas. As mais comuns têm origem na boca. Entre elas estão as alterações salivares. A ingestão de alimentos muito quentes, salgados ou a ingestão excessiva de bebida alcoólica, por exemplo, promove o ressecamento da mucosa da boca. Esse ressecamento estimula o depósito, na língua, de células compostas por proteínas que servem de alimento às bactérias presentes na região. São esses microorganismos que, após metabolizarem as proteínas, produzirão gases sulfurados responsáveis pelo mau cheiro. Outros fenômenos associados à halitose são o excesso de saburra lingual (depósito de bactérias na língua) e doenças periodontais, como inflamações da gengiva. “Apenas 10% das causas são conseqüência de distúrbios do estômago”, afirma o cirurgião dentista Marcelo Schettini, membro da Academia Brasileira de Odontologia Estética.

“Deve-se realizar uma boa higienização dos dentes e evitar a ingestão de bebidas com cafeína, como café e mate "
Carla Renata Sarni, cirurgiã

Já existem exames bastante específicos para realizar o diagnóstico. O primeiro é o halímetro, teste que mede a quantidade de partículas de compostos sulforosos presentes na boca. Há também a cilometria, exame desenvolvido para avaliar a qualidade e a quantidade de saliva, e o teste de pH bucal. Submeter- se a esses exames ajuda a dar os passos corretos no tratamento. Foi o que fez Sueli (nome fictício), contadora, moradora de Fortaleza, no Ceará. Depois de conviver mais de duas décadas com a halitose e de ter procurado auxílio médico não especializado sem conseguir ajuda, ela encontrou no site da ABPO (www.abdo.com.br) uma possibilidade de cura. “Ninguém descobria nada de errado”, lembra. “Mas no consultório de uma especialista vi que sofria de hiposalivação (produção insuficiente de saliva). Agora estou em tratamento”, conta.

O combate à halitose depende da causa do mau cheiro. Se há produção deficiente de saliva, por exemplo, é possível lançar mão de uma espécie de saliva artificial. O produto pode ser encomendado em farmácias de manipulação ou comprado pela internet. “Mas sua indicação deve ser feita por um especialista”, explica Daiane Rocha, presidente da ABPO. Há também uma lista básica de recomendações que pode ser seguida para ajudar a tratar ou a evitar o mau hálito. “Deve-se realizar uma boa higienização dos dentes e da língua e evitar a ingestão de bebidas com cafeína, como café e mate, por exemplo”, afirma a cirurgiã Carla Renata Sarni, fundadora do Grupo Sorrident’s. Com cuidado e disciplina, o mau hálito desaparece. O constrangimento também.