Comportamento

Homens de preto

São Paulo apresenta seu mais novo produto. Agora, é possível contratar segurança por telefone e pagando por hora

A violência em São Paulo é a responsável pelo mais novo produto do efervescente mercado de serviços delivery da cidade. Depois de pizzas, esfihas, sushis, decoradores, chaveiros, personal trainers, entre outros, chegou a vez do segurança por telefone. Com uma simples ligação, o agente vai ao encontro do cliente, onde ele estiver. O interessado paga somente pelo tempo de proteção. A hora custa entre R$ 15 e R$ 80. Por esse valor o segurança acompanha o VIP (very important people – pessoa muito importante –, como os seguranças chamam seus protegidos) e suas famílias a shoppings, cinemas, teatros, festas, salões de beleza ou a qualquer lugar que se imaginar. O disk-proteção, infelizmente, tem tudo para fazer sucesso.

O modelo segurança-delivery nasceu na cabeça de Setimio de Oliveira Sala, 57 anos, dono da Alsa Fort. O empresário não conseguia dormir enquanto os filhos adolescentes não voltassem dos agitos noturnos. “Aos 14 anos, ele saem uma vez por mês. Aos 15, todos os finais de semana. O horário de chegar em casa, que era dez da noite, passa para quatro da manhã. Então, resolvi criar este sistema para proteger meus filhos”, explica Sala. Amigos do empresário ficaram sabendo da novidade e o que era um esquema doméstico transformou-se num atraente negócio. Hoje, a Alsa Fort conta com 20 homens treinados e três carros blindados, entre eles um Jaguar, além de uma frota de apoio com seis veículos. Os preços variam de R$ 25 a R$ 75 a hora/homem e os carros, quando solicitados, são pagos à parte. A variação se dá pelos diferentes níveis de especialização do agente. Tem até segurança trilingue. O pagamento é feito por boleto bancário. Sala recomenda que os pedidos sejam programados com três horas de antecedência.

As mulheres são as campeãs de pedidos no serviço. “Já cheguei a ficar três horas e meia esperando uma VIP na porta de um salão de beleza”, conta o agente Newton Machado Correia, 31 anos, faixa-preta de caratê. Para os adolescentes, a maior parte das escoltas é programada para saídas noturnas. Muitos não gostam. Outros tiram proveito da situação. “Há garotos que usam o agente para se exibir. Chegam para os amigos e dizem: ‘Olha só o tamanho do meu segurança!’ ”, conta Sala. As meninas não se sentem muito à vontade com um brucutu no seu encalço. Os que dão menos trabalho são os homens.

Limusine de noiva – Mas há situações mais complicadas. A Blinder Segurança Patrimonial, outra empresa do ramo, recebeu recentemente um curioso chamado. Um cliente que teve problemas no processo de separação estava sendo ameaçado pelo ex-cunhado. Assustado, contratou os serviços da empresa para poder se encontrar com os filhos e a namorada. “Desde agosto, quando começamos o serviço, esse foi o caso mais engraçado. Mas já escoltamos limusine de noiva”, conta o gerente operacional Antônio Carlos Pereira, 35 anos. A empresa tem recebido em média 12 chamadas por mês. Até dezembro, eram apenas seis. A Blinder conta com 22 homens e quatro veículos e cobra em média R$ 15 a hora/homem, mas a solicitação deve ser feita 24 horas antes.

O problema do telessegurança é a clandestinidade. Muitas empresas não têm o alvará de funcionamento expedido pela Polícia Federal. Além disso, trabalham com policiais que trocam as folgas por uns trocos, o conhecido e proibido “bico”. “Minha empresa é nova. Ainda não tem o certificado da Polícia Federal. Eu trabalho com policiais, gente de minha confiança. Sei que não pode, mas se for seguir todas as regras não consigo trabalhar”, desabafa o dono de uma empresa clandestina. Ele tem dez policiais militares a seu serviço, um jipe Cherokee blindado e um velho Uno 1.6R para apoio às operações. O estranho é o preço: de R$ 80 a R$ 150 a hora – muito maior do que o das legalizadas.

É dessa empresa, no entanto, que vem uma história bem pitoresca do disk-proteção. Um empresário contratou o serviço para um final de semana no Guarujá, litoral de São Paulo. Nem bem chegou e já saiu, deixando a mulher e os filhos em casa. À noite, a esposa pediu para que um segurança a acompanhasse até um quiosque na Praia Grande, a cerca de 30 quilômetros dali. Disse que ia encontrar umas amigas. Na verdade, correu para os braços do amante, que chegou a bordo de uma moto Honda CBR 900, presente da moça. Tranquila, ela só não sabia de um detalhe. “O agente morava na mesma rua do amante”, conta o dono da empresa. A sorte da jovem senhora é que o sigilo é a alma desse negócio.