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Entrevista

Antônio Delfim Netto

FHC não deixa saudade

FHC não deixa saudade

O deputado federal Delfim Netto diz que o presidente quebrou o País e que a maioria dos brasileiros quer mudanças na política econômica

Célia Chaim
Edição 26/07/2002 - nº 1713

Antônio Delfim Netto tem 74 anos e a eletricidade de um adolescente. Acorda às cinco da manhã para ler – ler não, estudar –, faz caminhadas, palestras, campanha política para se reeleger deputado federal pelo PPB, o partido de Paulo Maluf. Ele tem uma cabeça brilhante, frases eternas, conhecimento indiscutível e um currículo que ocupa páginas e páginas, desde seu primeiro emprego como auxiliar de escritório, na indústria Gessy do Brasil. É um economista brasileiro ilustre e erudito que entrou para a história do País – pelo bem e pelo mal –, como Roberto Campos e Mário Henrique Simonsen. Convidado, em 1967, pelo presidente Costa e Silva, ocupou o cargo de ministro da Fazenda e ali permaneceu na Presidência Emílio Garrastazu Médici, sendo ainda hoje apontado como o ministro mais importante do pior período da ditadura militar. Seu nome ficou associado à ditadura e à prosperidade: seu período na pasta da Fazenda coincide com o ciclo de grande expansão, batizado de “milagre econômico”, que foi bom enquanto durou. Delfim Netto sobrevive com certa galhardia a seus críticos. Não só através do painel de centenas de suas caricaturas mantido no escritório em São Paulo, mas pelo reconhecimento unânime de que, ame-o ou deixe-o, o bordão do governo Médici, ele é fundamental para a inteligência do País, como foram Simonsen e Campos. Nesta entrevista a ISTOÉ, Delfim Netto é Delfim Netto: polêmico, irônico, crítico e, às vezes, avassalador. “FHC deixa o Brasil quebrado.”

ISTOÉ – O que está acontecendo no mercado financeiro?
Antônio Delfim Netto

Internamente, até abril, o câmbio se comportava bastante bem, o risco Brasil estava em torno de 600 pontos, os indicadores eram praticamente iguais aos de hoje, a relação dívida-PIB era a que está aí, o Brasil estava crescendo pouco, a taxa de juros era alta. As coisas estavam razoavelmente incorporadas pelo mercado, os indicadores não eram maravilhosos, mas todo mundo tinha se conformado com a dependência externa muito grande. Aí eu acho que veio o grande problema: o governo virou piromaníaco. Aquela declaração do presidente de que “ou elege o meu candidato ou o Brasil vai virar a Argentina” criou uma excitação e o que aconteceu foi que o pessoal pôs o microscópio em cima de indicadores que já existiam. Depois, o Fernando Henrique requisitou uma carga de coronel do Corpo de Bombeiros e agora está pondo um pouco mais de calma. Agora, sim, ele está na posição certa, mas é um pouco tarde porque a situação externa não é nada agradável. Ainda que a situação interna possa até ter algum sintoma de melhoria, eu não estou tão otimista de que vá ocorrer uma mudança radical. Os fatores externos são predominantes. Essa agressão ao bicho vai nos causar problemas porque a nossa dependência externa é muito grande.

ISTOÉ – O mercado tem poder para definir uma eleição?
Antônio Delfim Netto

O Brasil está funcionando. Podem-se ter críticas daqui e dali, mas as instituições estão funcionando. Nós estamos vivendo num regime democrático e isso significa basicamente que há duas instituições e não uma só. Não é só o mercado. O mercado pode ser poderosíssimo, mas ele tem uma outra instituição que o controla que se chama urna. Quando o mercado exagera, a urna muda. Quem não aceita esse fato nega o regime democrático. Dizer que não pode haver uma transição com o fulano de tal porque o fulano de tal não sabe nada é de uma arrogância e de uma pretensão monumental. Se fosse assim, não precisaria eleição nos Estados Unidos. Eles mandavam buscar alguém no MIT (Massachusetts Institute of Technology), entregavam a Presidência para ele e tudo funcionava maravilhosamente bem.

ISTOÉ – E o efeito gangorra da Bolsa, que despenca quando o candidato do governo cai nas pesquisas?
Antônio Delfim Netto

Eles (o governo) produziram esse efeito. Já havia um certo cuidado dos investidores com seus investimentos externos, uma aversão crescente ao risco. De repente, acontece isso que está acontecendo nos Estados Unidos: descobre-se que o mercado financeiro é uma farsa, o que é uma coisa gravíssima. Os americanos constituíram seu futuro comprando ações, houve um roubo do futuro das famílias americanas que terá consequências sobre o consumo, sobre a perspectiva dos americanos em relação ao futuro. A combinação desses fatos gera essa confusão irritante que está aí, atribuindo a queda da Bolsa e a subida do dólar ao efeito Lula, ao efeito Ciro. Isso, na verdade, é uma coisa completamente despropositada porque insiste na idéia de que o mercado é tão poderoso que determina o resultado da urna. Acho muito pouco provável que o eleitor aceite. O sujeito que viu nos últimos oito anos cair a sua renda real, que viu o desemprego crescer, que viu essa situação produzir uma certa insegurança física, quer mudança. Dois terços dos brasileiros disseram que queriam mudar a política econômica.

ISTOÉ – Qual é o efeito da tese do continuísmo na campanha do candidato do presidente, José Serra?
Antônio Delfim Netto

Na minha opinião, quando ele diz que vai ser a continuidade, o equívoco está aí. Estou convencido de que Serra seria quem produziria as maiores mudanças porque ele não está de acordo com essa política desde seu início. Mas, como está metido nesse negócio do governo, tem que ter muito cuidado até para anunciar o que quer fazer.

ISTOÉ – Uma vitória de Lula desabaria o mercado financeiro?
Antônio Delfim Netto

Por que o mercado se excitaria com o Lula, ou com o Ciro, ou com o Garotinho, eventualmente? Precisa tirar a idéia de que essa gente vai destruir o Brasil. Não, se houve alguma coisa com o Brasil, foi feita no governo Fernando Henrique. Todos já se comprometeram: nenhum deles vai dizer que inflação produz crescimento, ninguém nunca disse isso seriamente. Eu sempre digo: traga aqui um sujeito que tenha dito isso. Não existe. Nunca vi nenhum dos candidatos dizer: “Nós vamos aumentar o déficit, vamos fazer desenvolvimento com déficit, vamos atender às necessidades do País com déficit.” Não existe mais isso, ao contrário, todos eles sabem que o Brasil não tem a menor condição de quebrar um contrato. Antes de quebrar o contrato, quebra o Brasil. Todos eles estão comprometidos com uma política de metas inflacionárias, todos sabem, como sempre se soube no Brasil, que o equilíbrio orçamentário é fundamental. O equilíbrio se quebrou no começo dos anos 80, mas não foi porque o governo era ignorante ou porque não soubesse disso, e sim porque a crise externa de 1982 foi a maior crise que o mundo já viu desde 1929, e o Brasil tinha se endividado enormemente no governo Geisel porque não tinha produção de petróleo. Se o Geisel não tivesse feito o que fez, tivesse caminhado para fazer um racionamento de energia, o Brasil teria virado Bangladesh.

ISTOÉ – Qual dos candidatos é o melhor em sua opinião?
Antônio Delfim Netto

Eu só vou decidir quando eles apresentarem o programa. Até agora ninguém tem programa, os candidatos não estão se comportando como lideranças. Eles estão, na verdade, obedecendo àquilo que os marqueteiros dizem que o povo diz que quer. Os marqueteiros fazem uma tal análise qualitativa e então se conclui que o povo quer isto, isto, isto e isto. Os candidatos adaptam seu discurso para atender à listagem de desejos do povo, mas nunca conseguem explicar como é que vão chegar lá. O povo não vai entender nunca. Eles podem dizer que vão atender ao que a população quer, só que não dizem como nem quando, o que gera insegurança e incerteza.

ISTOÉ – O que o sr. acha do governo de oito anos de FHC?
Antônio Delfim Netto

São dois governos. O primeiro governo se caracterizou pela conquista da inflação. Foi a única coisa, na minha opinião, realmente interessante. A URV foi uma idéia extremamente engenhosa. Quando a inflação caiu, porém, se esqueceu de tudo, até do mais importante que é fazer o equilíbrio fiscal. Os quatro primeiros anos do Fernando foram de farra fiscal, déficits, nenhum superávit primário, câmbio controlado, destruindo o setor produtivo brasileiro e ganhando insolvência. Eles não querem aceitar esse fato, mas esse fato é elementar. O Brasil quebrou em 1998, teve que ir correndo ao FMI pedir US$ 41 bilhões para acomodar a situação na véspera da eleição. Se o Clinton não tivesse ajudado, o Fernando não teria sido reeleito. Esse é o fim dos primeiros quatro anos, é o Brasil quebrando. Esses quatro anos foram de política feita por eles, pelo pessoal da política econômica local.

ISTOÉ – E o segundo mandato?
Antônio Delfim Netto

Foi feito pelo FMI, que deu US$ 41 bilhões, mas exigiu 3,5% de superávit primário, câmbio flutuante, lei da responsabilidade fiscal. Caminhou-se numa direção mais correta, mas incapaz de recuperar o estrago que tinha sido feito. Depois de ter vendido todo o patrimônio nacional, o governo acaba deixando uma herança do arco-da-velha. Não só é evidente, por exemplo, que a privatização do setor energético foi uma vergonha, uma esculhambação na verdade, como até agora eles não conseguiram regular o setor. Nós continuamos pagando um seguro para que algumas usinas termelétricas fiquem de standby, esperando que, na falta de chuva, entrem em funcionamento. É uma coisa muito séria, uma demonstração de incompetência gigantesca. Então, o governo termina de novo quebrado e é essa a situação que estamos vivendo agora.

ISTOÉ – Com base em que o sr. diz que o País está quebrado?
Antônio Delfim Netto

Nesses oito anos, o crescimento foi medíocre, a média vai ser de 2,2%, 2,3%, se chegar nisso, uma população crescendo 1,6%. Quer dizer, praticamente oito anos de patinação, sem crescer a renda. Com muito mais gravidade, a massa salarial já declinando fortemente, o desemprego crescendo, uma relação de exportação muito alta, a dívida interna líquida em relação ao PIB muito alta e crescendo. Quando se olham o Chile e o México, que tiveram políticas de estabilização do mesmo tipo que a nossa, percebe-se que nesses oito anos o Brasil cresceu menos do que os dois, termina com uma inflação mais alta do que os dois e com uma taxa de juros real que é quatro vezes a chilena e três vezes a mexicana. Esse é o fim desse processo.

ISTOÉ – O governo diz que fez um bom programa social…
Antônio Delfim Netto

Eu acho que foi o pior programa social possível. É um problema muito sério pelo seguinte: eu roubo teu emprego e depois te dou um cartãozinho-cidadão para você assinar um óbulo e ficar preso. Agora, os deputados estão no interior de São Paulo dizendo que se não votar no nosso homem esse cartão acaba, o homem que vem aí termina com esse cartão. Essa é uma forma de dependência, é um estado paternalista inimaginável. E eu ainda acho mais: poucas mudanças políticas foram tão desastrosas no Brasil como a reeleição. A reeleição tem que ser acompanhada de controle social feito por uma mídia absolutamente independente. Esse controle social não existe no Brasil. A reeleição sempre reconstrói o padrão de dominação política.

ISTOÉ – O que o sr. acha das insinuações para que Armínio Fraga continue no Banco Central, seja quem for o novo presidente?
Antônio Delfim Netto

Tudo isso é um sonho de novo. Meu Deus do Céu, tem o mercado e tem a urna. Na urna, o sujeito só fala uma vez a cada quatro anos, no mercado, ele apanha todos os dias. O dia da vingança é o dia da urna. O Brasil quer uma mudança da política econômica. Esse negócio de tem que ficar tudo igual para ficar melhor não é assim. O Armínio é um sujeito fantástico, formidável, não tem nada a ver com isso. Esse movimento que ele está fazendo é um espertíssimo movimento político. O que eles estão tentando hoje? Preocupados talvez com o fato de que o Ciro esteja subindo e eventualmente haverá uma polarização Ciro-Lula, eles precisam polarizar Ciro-Serra. Então o movimento esperto do Armínio foi exatamente convidar o Lula, que é o mais provável sucessor, para conversar. Até a classe econômica está envolvida com a classe política. É preciso entender o seguinte fato: o eleitor fala uma vez a cada quatro anos e apanha todos os dias, você pode enganá-lo uma vez. Duas é difícil, três, impossível.

ISTOÉ – Como o sr. analisa a farra contábil das empresas americanas?
Antônio Delfim Netto

O problema que eu acho mais grave: o mercado não é uma instituição divina nem é uma invenção dos homens, foi uma descoberta. Os homens descobriram o mercado nas feiras gregas, na Idade Média, até que alguém racionalizou aquilo. O mercado é um conjunto de regras e de normas que perde toda a sua autoridade moral se essas regras e normas não forem obedecidas. É um ente moral que não pode ser tratado como está sendo por essas empresas. Essas empresas destruíram o mercado com uma contabilidade embelezadora inventada. A economia financeira, setor da economia que parecia ter experimentado o mais extraordinário desenvolvimento, que importou da física os mais sofisticados instrumentos matemáticos para explicar o andamento das ações… e aí se descobre que os dados eram falsos… Na física, quando a teoria não coincide com o dado, joga-se fora a teoria. Na economia financeira, eles construíram os números para dar certo, para coincidir, se construiu uma teoria em cima de números falsos. Isso quebrou a crença no mercado, o instrumento mais eficiente que o homem descobriu para fazer uma alocação dos fatores produtivos. O que aconteceu foi que a roubolândia se instalou nos mercados de bens e serviços, no mercado de capitais e deu no que deu.

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