Cultura

Brasil exportação

No MAM de São Paulo, Coleção Cisneros mostra o vigor da produção nacional

Tudo começou com um gole de guaraná. Era a primeira visita ao Brasil, em 1964, da venezuelana Patricia Phelps de Cisneros, mulher do magnata Augusto Cisneros, que ficou viciada pelo refrigerante. “Quando chegou a hora de voltar, deixei minha roupa para trás, dei tudo de presente para as empregadas da casa onde eu estava e enchi minhas valises de garrafas”, contou ela em recente entrevista. Tempos depois, Patricia começou a colocar objetos mais caros em suas bagagens, nas viagens de volta a Caracas. O carregamento incluía telas, esculturas, fotos, desenhos e objetos assinados por alguns dos maiores artistas brasileiros. Dona de um dos grandes acervos de arte latino-americana do mundo, com um total de 1.500 obras, agora a venezuelana resolveu exibir no Brasil o que ela acumulou durante décadas na belíssima mostra Paralelos – arte brasileira da segunda metade do século XX em contexto – colección Cisneros, em cartaz no Museu de Arte Moderna (MAM), em São Paulo, que, junto com Espelho selvagem, dedicada ao modernismo, integra o programa Imagens do Brasil.

Selecionadas pelo curador Ariel Jiménez, as 136 obras fazem um consistente apanhado do que melhor se produziu no País, do final dos anos 40 aos dias de hoje. Trata-se, contudo, de um recorte bem particular, centrado sobre as correntes abstratas, especialmente as que desaguaram nos movimentos concreto e neoconcreto. “Tentei traçar uma evolução da arte abstrata brasileira até os anos 70 e depois enfatizar a influência desta geração no trabalho dos artistas contemporâneos”, explica Jiménez. Além de raridades como Escada, de Lygia Clark, feita em 1948, e Natureza morta, de Mira Schendel, produzida na década de 50 – obras figurativas que já apontam para a abstração –, estão lá o verdadeiro quem é quem dos artistas voltados para a racionalidade e o aspecto construtivo dos arranjos geométricos.

De Alfredo Volpi a Hélio Oiticica, passando por Hércules Barsotti, Willys de Castro e Hermelindo Fiaminghi, existem poucas lacunas. Oiticica comparece com 20 obras – parangolés e bólides incluídos; Lygia, com 17; Mira, com 16. Entre os contemporâneos, destacam-se Cildo Meireles e sua escultura Malhas da liberdade, feita de ferro e vidro; Waltércio Caldas, com a obra Ye, um objeto de linha e vinil amarelos; e José Resende, com a escultura Sem título, de cobre, alumínio e pedra. Não bastasse o valioso conjunto, a exposição se completa com uma ótima seleção de artistas latino-americanos, com destaque para a arte cinética venezuelana, aquela que explora efeitos óticos. Sem falar da nobre companhia de um Mondrian e de um Max Bill, dois pilares europeus que estão na origem da revolução abstrata dos trópicos.