Ediçao Da Semana

Nº 2742 - 12/08/22 Leia mais

PRESENÇA VIP Thiago e a namorada, Marianella, no balé Jewels e com o príncipe Charles (no alto, à dir.), que desde 2003 é o presidente do Royal Ballet

Vestido com uniforme de escola pública, Thiago Soares, então um garoto do subúrbio carioca de Vila Isabel, consegue entrar no ônibus 232 sem pagar a passagem. É o ano de 1994 e pela lei estadual esses estudantes podem viajar de graça na ida e na volta do colégio. Só que Thiago não está indo para as aulas de uma escola convencional, ou seja, teoricamente teria de pagar a condução. Ele está a caminho de suas lições de dança e para esse tipo de curso a lei não isenta ninguém no quesito transporte público. Assim, Thiago comete uma pequena transgressão, transgressão que qualquer cidadão de bem perdoaria se soubesse que o menino se esforçava para dar um salto espetacular para o futuro, qualquer futuro, contanto que melhor do que o presente. "Eu não tinha dinheiro nem para lanchar à tarde, ficava comendo biscoito recheado para enganar o estômago", lembra ele. O tempo voou. Em 2007, aos 25 anos e com o título de primeiro bailarino do portentoso Royal Ballet de Londres, certo dia Thiago aguardava, bem vestido e alimentado, o carro enviado pela família real britânica que o levaria, juntamente com seus colegas de trupe, para conhecer uma das fazendas do anfitrião: o príncipe Charles. Ninguém percebeu sua emoção e sequer desconfiou o quão longe andava o seu pensamento: "Eu pensei, nunca vi nem o Lula de perto e agora estou aqui tomando drinque com o príncipe Charles…".

Entre o dar sinal para o ônibus 232 e o entrar no automóvel do Palácio de Buckingham há uma distância de 13 anos, muitos desafios e muitas glórias. Na sexta- feira 28, Thiago pisará o palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro para dançar o pas-de-deux de O corsário e o gran pas de Don Quixote, e agora como convidado especial de outra grande e tradicional instituição de dança, o Russian State Ballet, um dos melhores do mundo. Ele sentirá, mais uma vez, o gosto da vitória em grande estilo e em dose dupla – aos 26 anos será aplaudido como astro do Royal Ballet dançando pelo Russian State Ballet. As palmas são, também, para o garoto de 12 anos que já considerava um lucro ser notado por dançar hip-hop e street dance pelas ruas dos subúrbios cariocas. O seu caminho natural seguiria esse rumo, caso um coreógrafo não tivesse comentado, ao acaso, que a elegância e leveza de Thiago (já homem feito aos 16 anos, com 1,86 m e os mesmos 76 quilos de hoje) tinham tudo a ver com o clássico. Comentário simples que o levou a um questionamento mais simples ainda: "E por que não?" Ato contínuo, ingressou no Centro de Dança do Rio de Janeiro para aprender jazz e descobriu que ele e as sapatilhas tinham ótima afinidade.

Nasceu um bailarino. A partir daí, faltava apenas que o mundo soubesse que esse bailarino era da melhor estirpe, mas os acontecimentos seguintes foram quase que em cascata. A primeira medalha foi conquistada em um concurso em Niterói. Pouco depois, aos 18 anos, veio a premiação que lhe deu novo status: Thiago ganhou a medalha de prata no concurso internacional de dança de Paris. A medalha de ouro veio na disputa do Teatro Bolshoi e, como conseqüência, ele recebeu um convite do Kirov Ballet para integrar o seu quadro de aprendizes – consta que, em um século de história, Thiago foi o segundo estrangeiro a participar da companhia (o primeiro é o cubano Manuel Carreño). De salto em salto, foi convidado, em 2002, a integrar o Royal Ballet. Deixou de ser um bailarino do corpo estável para ser um primeiro bailarino da companhia inglesa depois de causar arrepios no papel de Carabosse, a fada má de A bela adormecida, personagem feminina interpretada por homens.

Os papéis defendidos com talento e paixão, como o Oneigin do espetáculo homônimo, levaram-no ao topo: o prêmio Artista Revelação Masculina da Dança Clássica conferido pela Associação dos Críticos Internacionais de Dança (o Oscar da categoria). Para ele, entretanto, não há estatueta que prevaleça sobre a felicidade de ter virado a mesa do destino. "Quero ser porta-voz dessa mensagem: é possível sonhar e conseguir. Eu sou a prova disso", diz ele, com sua voz quase infantil. Embora vá ficar poucos dias no Brasil, Thiago, que mora em Londres há seis anos, tem muitos planos, todos simples. Quer matar a saudade de velhos amigos, se divertir nos bares da Lapa ("Claro que eu danço samba!") e mostrar para a futura mulher, a bailarina argentina Marianella Nunez, por que o Rio de Janeiro é maravilhoso.

Templo da dança O Royal Ballet foi criado em 1931, mas só ganhou este nome em 1956, na comemoração dos seus 25 anos. A partir daí, a presidência passou a ser ocupada por integrantes da família real. Hoje, quem está no cargo de honra é o príncipe Charles, que o assumiu em 2003. Outra nobreza se reveza nos quadros da instituição: são os primeiros bailarinos. Eles ocupam o topo numa escala de seis níveis de excelência. Thiago ganhou a vaga que já foi preenchida no passado por artistas do porte de Rudolf Nureyev e Mikhail Baryshnikov.